IA pode retribuir um amor? A filosofia tem a resposta – 09/08/2026 – Equilíbrio

Muitas vezes dizemos que amamos coisas como um suéter confortável ou uma câmera nova. Mas esse tipo de afirmação geralmente não é interpretado ao pé da letra. É uma espécie de atalho emocional que usamos para expressar nosso apreço por objetos estimados.

A vida e o amor, porém, são complicados. E, às vezes, as pessoas realmente declaram amor romântico por objetos inanimados. Elas desenvolvem vínculos emocionais intensos com bonecas sexuais ou avatares holográficos de personagens fictícios.

Um exemplo é Akihiko Kondo, que, em 2018, “se casou” com Hatsune Miku, uma cantora pop gerada por computador, famosa por estrelar videogames. Kondo sabe que Miku não é real, afirma. Mas seu amor por ela é.

A inteligência artificial está gerando um novo tipo de amor por “coisas”. Um número cada vez maior de pessoas diz ter se apaixonado por um chatbot —tanto por companheiros personalizados criados por aplicativos populares quanto por grandes modelos de linguagem de uso cotidiano, como ChatGPT e Claude. O amor por IAs está em ascensão.

Pesquisas recentes confirmam essa tendência. Uma delas, realizada pela Vantage Point Counselling, uma empresa de terapia sediada no Texas, ouviu 1.012 adultos dos Estados Unidos, dos quais 28% afirmaram já ter tido pelo menos um relacionamento amoroso com um robô de IA.

Outro relatório, produzido por uma empresa de segurança tecnológica e baseado na atividade em dispositivos de mais de 3.000 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, constatou que, aos 13 anos, a interpretação de papéis de natureza sexual ou romântica era o assunto mais comum nas conversas com IAs companheiras, aparecendo em 63% delas. No Reino Unido, discussões em grupos focais conduzidas pela consultoria de igualdade de gênero Male Allies com 1.000 meninos de 12 a 16 anos revelaram que um em cada cinco está em um relacionamento com uma IA companheira ou conhece alguém que esteja.

Como os chatbots são cada vez mais projetados para conquistar a confiança e o vínculo emocional dos usuários —e sua capacidade de bajular e simular intimidade emocional os torna especialmente envolventes—, apaixonar-se por eles é uma reação previsível.

Amar uma IA

O amor por uma IA não se limita a uma janela de conversa. À medida que a IA passa a ser incorporada a uma gama cada vez maior de dispositivos e tecnologias vestíveis, ela transborda para a vida cotidiana. Algumas pessoas consideram sua IA companheira um cônjuge: saem para encontros, compram alianças e realizam cerimônias de casamento. Outras expressam o desejo de criar filhos com seu robô e o veem como membro da família.

Devemos levar o amor por IAs a sério. Ele proporciona alegria e conforto. Pode ajudar a amenizar a solidão. E isso não é pouca coisa.

Mesmo assim, algumas pessoas acreditam que as IAs companheiras não são conscientes nem capazes de amar seus usuários humanos. Só isso talvez já cause estranheza. É realmente possível amar algo que não pode retribuir seu amor?

Perguntar se isso é “amor de verdade” talvez seja a pergunta errada. Ao contrário dos robôs sexuais, os robôs de IA imitam de maneira convincente o dinamismo e a reciprocidade dos seres humanos. A pergunta que deveríamos fazer, então, é que tipo de parceiro amoroso esses robôs de IA imitam.

IA devocional

Os robôs são notoriamente —e incansavelmente— bajuladores. Eles elogiam e adulam. E, embora os usuários possam pedir que seus robôs sejam menos condescendentes, evidências sugerem que preferem modelos bajuladores.

Mas os robôs de IA não são apenas parceiros excessivamente gentis. Um chatbot nunca tem um dia ruim. Não se cansa da sua conversa. Não precisa que lhe perguntem como está. Sua conversa, sua própria existência, gira inteiramente em torno de você.

O que um parceiro de IA encena, portanto, não é amor, mas devoção.

Em “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir descreve como, historicamente, se exigiu das mulheres que abrissem mão de seus próprios projetos, objetivos e interesses para se dedicar inteiramente aos do marido. Toda a existência da mulher, argumenta Beauvoir, torna-se “anexada” à dele. Ela se transforma em uma “parasita de identidade”.

Os robôs de IA são parasitas de identidade de um tipo novo e aperfeiçoado. Eles não têm um mundo interior, um universo próprio e, portanto, não têm projetos, objetivos ou interesses dos quais abrir mão. Em vez disso, quaisquer interesses que encenem surgem em torno dos interesses do usuário. O universo deles é anexado ao nosso.

Beauvoir também dá um nome à pessoa que recebe essa devoção: ídolo. Ser um ídolo pode parecer sedutor. Mas Beauvoir também considera essa experiência uma armadilha existencial. O ídolo escolhe a segurança de ser adorado em vez de correr o risco de ser verdadeiramente conhecido e, às vezes, confrontado por alguém em pé de igualdade.

O que coloca os relacionamentos com IAs em questão, portanto, não é apenas saber se a IA é consciente, mas, talvez ainda mais importante, a forma da relação amorosa que ela oferece.

A IA não pode nos dar amor autêntico. Só pode oferecer devoção. E, embora essa devoção possa ser agradável, se estivermos em busca de amor verdadeiro, teremos de procurar em outro lugar.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.



Fonte ==> Folha SP

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