‘Lulinha’, ‘Flávio’ e os nomes usados como armas políticas – 08/08/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Do Flávio já falamos. O nome do candidato do PL à presidência é Flávio Bolsonaro, embora vira e mexe o filho de Jair seja chamado apenas pelo prenome nos títulos dos jornais. Isso pode atender a limitações de espaço e evitar repetições desnecessárias, mas identifica mal um candidato que só existe pelo sobrenome.

Mas quem ou o que é Lulinha?

O filho do presidente Lula que apareceu na mira de casos diferentes desde 2005 é Fábio Luis Lula da Silva. Frequentemente, os jornais complementam a informação com um “conhecido como Lulinha”, mas agora a Folha esclarece que “pessoas próximas afirmam que o filho do presidente nunca foi chamado de Lulinha por amigos e familiares”. O aviso estava no episódio de segunda-feira (3) do Café da Manhã e depois foi levado a texto. No podcast da Folha, a reportagem informava que o apelido veio do próprio “noticiário e da oposição ao longo dos últimos anos”.

Ou seja, parece que o personagem é “conhecido como Lulinha” por ter sido tratado sempre como “conhecido como Lulinha”, um pouco como a entidade “Careca do INSS”.

“Existe o fato concreto de ele ser filho do presidente da República e ter interesses comerciais que precisam ser fiscalizados mesmo e o fato político de que, para quem é opositor do Lula, é um nome muito bom de mobilizar perante a opinião pública, porque tem capacidade de causar desgaste para o presidente e já tem uma carga negativa”, explicou o repórter Caio Spechoto no podcast. “Só que uma coisa que é importante também é que ele nunca foi condenado. Isso também é algo que tem de ser levado em consideração”, afirmou o jornalista.

Assim como a pretendida suavização de Flávio sem Bolsonaro serve à estratégia eleitoral, a associação mais imediata de eventuais peripécias e supostos crimes de Fábio Luis com seu pai também serve como moeda política.

Na Folha, “Lulinha” nasceu nessa configuração em 2006. Antes disso, existia apenas o “Lulinha paz e amor” encarnado pelo pai na campanha de 2002. Não que não houvesse notícia: em 2005, o nome civil de Fábio Luis Lula da Silva apareceu em “Telemar põe R$ 5 milhões em empresa do filho de Lula“. A revista Veja chegou a dar a história pouco depois com o título “O Negocião de Lulinha”, mas o apelido não pegava entre os jornais, apesar da grande mobilização em torno do aporte milionário da Telemar (que virou Oi).

Com os desdobramentos do mensalão e da CPI dos Correios, que tentou associar o negócio do filho de Lula a prejuízo em fundos de pensão, a oposição adotou “Lulinha”, e o apelido virou regra. O sucesso foi tal que “Lulinha” virou assunto de fake news: nas últimas eleições, o próprio jornal desmentiu algumas delas.

Como o podcast deixa claro, há óbvio interesse público nas investigações sobre suspeitas de tráfico de influência e corrupção. Mas daí não decorre que um apelido usado como arma política deva ser encampado pelo jornal. Se a justificativa para não abandoná-lo é a idade do “Lulinha”, usado desde 2006, seria razoável indicar de maneira mais clara e/ou frequente a procedência do nome e os interesses associados a ele.

O pior é que a observação não é nova nem original. Em 2007, ex-ministro José Dirceu (PT) criticou o jornal por isso. “Acho errado a Folha chamar ele de Lulinha. Ele não se chama Lulinha. Ele se chama Fábio Luís. É mais uma tentativa de se agravar aquilo que não precisa ser agravado.”

Assim que Flávio Bolsonaro anunciou o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice em sua chapa presidencial, logo veio a avaliação de que a escolha do relator da CPI do INSS servia “para explorar o caso Lulinha”.

Foi também o que prevaleceu no registro histórico das capas dos jornais impressos de circulação nacional. Apenas O Globo ponderou, sobre a escolha do PL: “Estilingue e telhado de vidro”.

Para uma estratégia tão focada no ataque ao adversário, o “telhado de vidro” não era detalhe. A própria Folha informou que o TCU (Tribunal de Contas da União) investiga Gaspar pelo suposto desvio de R$ 6 milhões em emendas parlamentares. E o deputado escolhido para o lugar onde o PL pretendia colocar uma mulher é também alvo de uma acusação de estupro de vulnerável.

A Folha, que tem o mérito de não ter demorado a destacar a questão em seu site, cometeu um erro inicial ao informar que o deputado já era investigado pelo crime sexual. Corrigiu-se. A acusação foi feita pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), na esteira da CPI do INSS. A Polícia Federal pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para investigá-lo, e a resposta ainda não veio. Gaspar processa os parlamentares, diz que vai provar sua inocência e que está indignado com a acusação.

Uma semana antes, os jornais haviam manchetado em uníssono a autorização do STF para que a PF começasse a investigar o filho de Lula, usado pela campanha adversária como peça eleitoral, por suposto tráfico de influência. Desta vez, à exceção do Globo, deixaram em segundo plano suspeitas que recaem sobre um participante direto da corrida ao Planalto.



Fonte ==> Folha SP

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