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MERCADO DE AÇÕES

Maior projeto da Guiana pós-petróleo, a rodovia Lethem-Georgetown ainda possui 450 km de estrada de chão

Guiana faz transamazônica que muda logística do Norte do Brasil

O espanto de quem visita por esses dias Georgetown, capital da Guiana, é resumido por Guilherme Carvalho, dono de uma concessionária de implementos agrícolas em Boa Vista (RR), a 680 km de distância: “Isso aqui é um canteiro gigante de obras e se espalha pelo país inteiro!”. Carvalho e outros 20 brasileiros – em sua maioria empresários do agronegócio e do setor transportes – formaram parte de uma comitiva liderada pela Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja-RR) que foi verificar in loco a rápida transformação do país vizinho, impulsionada pelos dólares do petróleo, e como isso se traduz em oportunidades de negócios e mudanças na logística de escoamento de grãos e fertilizantes da Amazônia. Nesse formigueiro de obras em que se transformou a Guiana, destacam-se montes de areia branca e escavadeiras amarelas: ora alinhadas nas revendas, ora em operação em minas de ouro, ora abrindo ruas e nivelando terrenos para novos empreendimentos. Apesar do frenesi de homens e máquinas, os guianenses asseguram que não há pressão sobre a floresta, que cobre cerca de 86% do território. As taxas de desmatamento ficam abaixo de 0,5% ao ano. A supressão vegetal é feita pelo sistema de manejo sustentável, com inventário das reservas e a etiquetagem de cada tora transportada. Maior projeto da Guiana pós-petróleo, a rodovia Lethem-Georgetown ainda possui 450 km de estrada de chão (Foto: Marcos Tosi / Gazeta do Povo) Petróleo muda o jogo e financia rodovia transamazônica asfaltada O que mudou o jogo para a Guiana foram as águas marítimas, onde em 2015 a americana ExxonMobil descobriu jazidas exploráveis de 12 bilhões de barris de petróleo, colocando a ex-colônia no ranking das 15 maiores reservas do combustível fóssil do mundo. Com o dinheiro dos royalties começando a jorrar, o país acelerou as obras de infraestrutura, par e passo com a criação de um fundo soberano. Esse fundo segue o modelo da Noruega, e visa guardar parte das receitas, evitar o gasto excessivo imediato e financiar o desenvolvimento de longo prazo. De uma renda per capita de cerca de US$ 4 mil, antes do petróleo, a Guiana saltou para próximo de US$ 20 mil. E até 2030 deve atingir US$ 30 mil, o triplo da renda per capita brasileira. No papel, a Guiana já entrou para o ranking dos novos-ricos, mas levará algum tempo até que essa prosperidade se traduza em mais qualidade de vida para toda a população. A paisagem ainda tem muitas marcas de um país pobre, que até cinco anos atrás só era mais remediado do que o Haiti. Em Georgetown, o esgoto corre a céu aberto e circunda casarões vitorianos de madeira surrados pelo tempo e abandono. Os ventos, contudo, mudaram de direção. Nenhuma outra obra hoje traduz melhor a ambição da Guiana de entrar para o mapa do desenvolvimento do que a pavimentação de 680 km de rodovia entre Lethem, na fronteira com o Brasil, e a capital Georgetown. Nesse caminho, a rodovia serpenteia entre vasto território de savana e densos trechos de selva, que durante o período de chuva ficam quase intransitáveis, como a transamazônica brasileira. Para além da ligação Georgetown-Linden, asfaltada há vários anos, um outro trecho de 120 km está perto de ser concluído pela empreiteira brasileira Ayala, braço internacional da Queiroz Galvão. Outros lotes serão licitados, em disputa com construtoras chinesas, que perderam a primeira concorrência. Saída por Georgetown: fim do transporte de cargas em marcha ré A transamazônica guianense abrirá uma nova saída do Brasil para o Atlântico, prometendo encurtar a viagem da Amazônia brasileira até o canal do Panamá em até oito dias. Isso acontecerá porque, em vez de “dar a ré” nas cargas, descendo 750 km até Manaus e depois fazendo a circum-navegação da floresta até Santarém (mais 700 km em três a quatro dias) ou Barcarena (mais 1600 km em seis a sete dias), a viagem pegará um atalho, e atravessará a região do Essequibo, tornada famosa pela ambição expansionista do ex-ditador da Venezuela Nicolás Maduro. Em 2,5 dias, as cargas despachadas de caminhão por Boa Vista (RR) já poderão atravessar o Canal do Panamá. “Aqui a gente está mais perto do mar por Georgetown do que muitas outras regiões produtoras do Brasil. Em relação a Paranaguá e Santos, teremos uma vantagem logística de oito a dez dias de economia de tempo para nossos navios de soja”, afirma Murilo Ferrari, presidente da Associação dos Produtores de Soja de Roraima. Cerca de um terço da nova transamazônica guianense já está asfaltada (Foto: Marcos Tosi / Gazeta do Povo) “A rodovia e os portos que os guianenses estão construindo são o nosso futuro, porque, aqui em Roraima, ainda sofremos muito com a logística, e tudo o que a gente importa e exporta é feito pelo rio Amazonas, por balsa, e acaba sendo muito oneroso”, diz. Ferrari aponta que o tempo e o dinheiro economizados com a futura rodovia serão convertidos em atração de investimentos para Roraima, mais renda para os produtores e mais competitividade regional. Boa Vista ficará a “um pulinho” do mar do Caribe e do Canal do Panamá Pelo ritmo das obras na transamazônica guianense, os observadores da comitiva brasileira não têm dúvidas de que a rodovia ficará pronta, mesmo com algum atraso pontual. Diferente da transamazônica brasileira, um projeto iniciado no governo militar para ligar os extremos da região, de leste a oeste (da Paraíba ao Amazonas), que nunca foi concluído e até hoje fica intransitável nas épocas de chuva. “Eu vou estar aqui para ver isso. Em cinco anos esse país vai estar totalmente diferente. O dinheiro existe, os investimentos estão sendo feitos, e basta ser empregado corretamente”, pontua o empresário Guilherme Carvalho, que antevê oportunidade para incrementar os negócios com os vizinhos do outro lado da floresta. “A gente está torcendo para que o Brasil se beneficie dessa logística, porque estamos a um pulinho do mar do Caribe, e o caminho até o Canal do Panamá vai encurtar em no mínimo dez dias”, prevê. Grupo de produtores e empresários brasileiros conhecem projeto da