Player Live
AO VIVO

MERCADO DE AÇÕES

Gigante das commodities, Brasil tem indústria estagnada

Gigante das commodities, Brasil tem indústria estagnada

Ao atingir em cheio setores estratégicos do agronegócio e da indústria brasileiros, o tarifaço imposto pelo governo americano no ano passado expôs a vulnerabilidade de um país que, embora lidere a exportação global de alimentos, opera com uma estrutura fabril atrofiada e dependente. O episódio mostrou que a pujança do setor primário no Brasil não é suficiente para sustentar um crescimento econômico equilibrado quando as barreiras externas se fecham para bens de maior valor agregado. A assimetria estrutural entre o dinamismo do campo e a estagnação industrial fica evidente nos indicadores econômicos consolidados de 2025. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apurou que a atividade econômica do país avançou 2,3% no último ano, totalizando R$ 12,7 trilhões. Esse crescimento, no entanto, foi sustentado quase exclusivamente pela agropecuária, que registrou um salto de 11,7%, impulsionado por recordes sucessivos de produtividade em culturas como soja e milho. A indústria de transformação, por sua vez, apresentou uma alta tímida de 1,4%, evidenciando a dificuldade do Brasil de converter sua riqueza natural em sofisticação produtiva. Participação da agropecuária no PIB bate recorde em 2025 A diferença de ritmo entre os setores garantiu à agropecuária uma participação direta de 7,5% em todas as riquezas geradas no país em 2025, o maior patamar documentado na série histórica iniciada em 1996. Sem a contribuição do campo, o crescimento geral da atividade econômica do país teria sido de apenas 1,5%. Os números revelam que a força inegável do agronegócio não encontra correspondência nas fábricas, perpetuando um modelo de baixa complexidade tecnológica que concentra o capital em bens de baixo processamento. A força do setor primário mascara um processo de desindustrialização precoce que é visível também na balança comercial. No ano passado, o Brasil exportou um volume recorde de US$ 348,7 bilhões, mas a pauta foi ancorada majoritariamente no embarque de minério de ferro, grãos e petróleo bruto. A China, que se consolidou como o principal parceiro comercial brasileiro e destino de mais de US$ 100 bilhões das vendas nacionais, concentra quase a totalidade de suas compras em insumos não processados. Brasil adicionou apenas cinco produtos à pauta de exportações relevantes em 17 anos O diagnóstico da baixa sofisticação produtiva brasileira é corroborado pelo Atlas da Complexidade Econômica, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Harvard. O levantamento aponta que a expansão comercial brasileira na última década derivou integralmente de bens de baixa e moderada sofisticação. De acordo com os pesquisadores, o Brasil não iniciou a transformação estrutural necessária para transferir capital e trabalho da agricultura para os setores de eletrônicos, maquinário de ponta e biotecnologia industrial. O relatório destaca uma estagnação preocupante na diversificação da pauta exportadora. Desde 2009, o país adicionou apenas cinco produtos à sua lista de exportações relevantes, uma taxa considerada insuficiente para elevar substancialmente a renda per capita da população no longo prazo. A incapacidade de agregar inteligência aos processos produtivos mantém o país em uma “armadilha de renda média”, na qual o custo de produção considerado é alto demais para competir com países de mão de obra barata e a inovação é insuficiente para competir com as economias avançadas. “Custo Brasil” drena por ano R$ 1,7 trilhão que poderia modernizar indústria As amarras que impedem as empresas nacionais de agregar valor derivam de problemas estruturais conhecidos, como gargalos logísticos, insegurança jurídica, burocracia estatal e a complexidade normativa, o chamado “custo Brasil”. Segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), esses entraves drenam anualmente cerca de R$ 1,7 trilhão da capacidade de investimento do setor produtivo, montante que poderia ser destinado à pesquisa, desenvolvimento e aquisição de maquinário moderno. VEJA TAMBÉM: Indústrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produção no Paraguai para fugir de impostos A logística é um dos componentes mais pesados dessa conta. A dependência extrema do modal rodoviário torna o transporte de mercadorias caro e ineficiente, enquanto a precariedade da infraestrutura ferroviária e hidroviária impede que o Brasil aproveite suas vantagens geográficas para baratear o escoamento da produção industrial. Indústria é desestimulada com carga tributária maior no Brasil Além dos custos logísticos, a política fiscal brasileira atua como um desestímulo direto à transformação industrial. Ao sobretaxar a agregação de valor, a máquina pública encarece o produto final e retira a competitividade da manufatura doméstica frente aos importados. De acordo com a CNI, o setor industrial representa 23,4% do PIB, mas é obrigado a recolher 35,2% de todos os tributos federais, excluídas as receitas de natureza previdenciária. VEJA TAMBÉM: Escalada de impostos e baixo retorno expõem peso do governo sobre o país O desequilíbrio na carga tributária reduz as margens de lucro das empresas, afasta o capital de risco e inibe a modernização do parque industrial. É como se o Brasil exportasse impostos e importasse desemprego, uma vez que as etapas de maior valor agregado e maior geração de postos de trabalho qualificados acabam ficando fora do território nacional. As altas taxas de juros, mantidas pelo Banco Central (BC) para conter a política fiscal expansionista do governo, atuam como um obstáculo adicional. O encarecimento do crédito dificulta o financiamento de longo prazo necessário para a expansão de fábricas e a compra de equipamentos de alta tecnologia. Sem acesso a capital com custos competitivos, a indústria brasileira permanece presa a tecnologias de gerações passadas, o que aprofunda o fosso de produtividade em relação aos competidores internacionais. Nova Indústria Brasil: solução ou repetição de erros? No início de 2024, na tentativa de reverter esse cenário, o governo federal lançou o plano Nova Indústria Brasil (NIB), que promete destinar cerca de R$ 300 bilhões em financiamentos e subsídios até 2026, apostando no uso do poder de compra de estatais e licitações do Sistema Único de Saúde (SUS) para garantir demanda à produção doméstica. A ambição do governo é direcionar investimentos para fortalecer as cadeias agroindustriais, fomentar a economia circular e forçar uma neoindustrialização pautada por exigências ambientais. O plano, no entanto, é visto com ceticismo por analistas de mercado e especialistas em contas públicas. As críticas apontam que as diretrizes do NIB replicam