Player Live
AO VIVO

MERCADO DE AÇÕES

Matéria da Gazeta do Povo de 28 de junho de 1981 relata mobilização para busca da aeronave em que estava cúpula do Bamerindus

O acidente aéreo que mudou o destino do Bamerindus

Há 45 anos, uma tragédia aérea na região dos Campos Gerais, no Paraná, mudaria a história de uma das maiores instituições financeiras do país. O acidente com um bimotor que transportava o presidente, o vice-presidente e três herdeiros do Banco Bamerindus, além de chocar o país, alterou de forma abrupta a sucessão da empresa. Não bastasse a tragédia, o episódio forçou uma mudança de comando que levou o banco ao seu auge comercial na década de 1990, mas também evidenciou a falta de rigor técnico que culminaria em sua liquidação pelo Banco Central (BC) em 1997. Fundado em 1929 no interior paranaense, o Bamerindus vivia um período de expansão acelerada no início dos anos 1980. Na época, a instituição estava entre os maiores conglomerados privados do país em volume de depósitos, junto com Bradesco, Itaú, Nacional e Real. A trajetória sofreu um revés no dia 24 de julho de 1981. Na manhã daquele dia, a cúpula da empresa embarcou em uma aeronave Piper PA-34 Seneca II no Aeroporto Afonso Pena, na Grande Curitiba, com destino a uma fazenda da família em Joaquim Távora, na região do Norte Pioneiro do Paraná. A bordo estavam o presidente, Tomaz Edison de Andrade Vieira, seu irmão e vice-presidente da instituição, Cláudio Enoch de Andrade Vieira, três filhos de Cláudio, além do piloto Dalton Nicoleti. Buscas após acidente levaram cinco dias e tiveram com ajuda de parapsicólogos De acordo com laudos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o voo enfrentou condições meteorológicas extremas. Cerca de meia hora após a decolagem, o piloto reportou forte neblina e formação perigosa de gelo na fuselagem. O contato foi perdido logo após o aviso de que a tripulação tentaria um pouso de emergência. O desaparecimento da aeronave desencadeou uma das maiores operações de busca já registradas no Paraná. Durante seis dias, um amplo contingente de civis e militares, apoiado por 30 aeronaves, vasculhou a região do último contato. O denso nevoeiro e a mata fechada dificultaram os trabalhos e alimentaram boatos sobre o transporte de altos valores em espécie. O cenário de incertezas e pressão por respostas chegou ao ponto de as equipes de resgate recorrerem a orientações de parapsicólogos e videntes, que, segundo relatos populares da época, teriam auxiliado as equipes a indicar a localização da fuselagem. Os destroços foram encontrados apenas no sexto dia de buscas, em 29 de julho, em uma área de grota na divisa entre as cidades de Piraí do Sul e Arapoti. Não houve sobreviventes. Com a confirmação da morte de todos os ocupantes, a linha sucessória desenhada pelo fundador da instituição, o patriarca Avelino Antônio Vieira, foi tragicamente interrompida. Matéria da Gazeta do Povo de 28 de junho de 1981 relata mobilização para busca da aeronave em que estava cúpula do Bamerindus Reportagem publicada na edição de 29 de junho de 1981 na Gazeta do Povo: buscas seguiam em andamento até o dia anterior Morte de todos os ocupantes confirmada: Gazeta do Povo anunciava fim das buscas pelo avião que caiu com executivos do Bamerindus, “patrimônio paranaense” Governador do Paraná na época, Ney Braga, era amigo do comandante do avião, mostrou reportagem da Gazeta do Povo da época Tragédia levou a reestruturação forçada do Bamerindus O episódio é citado até hoje em manuais de gestão de risco financeiro como um exemplo emblemático do perigo de concentrar executivos-chave em um mesmo deslocamento. Ironicamente, a viagem tinha como objetivo apenas apresentar um projeto de reflorestamento a um dos herdeiros recém-formado em Agronomia. A perda simultânea das principais lideranças forçou o banco a uma reestruturação imediata. A sucessão recaiu sobre o único irmão remanescente, José Eduardo de Andrade Vieira, na época com 43 anos. A transição de poder não configurou um movimento estratégico, mas uma contingência imposta pelo luto. “Ser banqueiro foi um acidente de percurso”, declarou o executivo em 2012, em entrevista ao Valor Econômico, ao afirmar que sua vocação original pendia para a agropecuária e a vida política, não para a gestão financeira. O episódio revelou ainda uma fragilidade estrutural do ambiente de negócios da época: a ausência de uma governança corporativa profissional em impérios familiares tornava o sistema financeiro brasileiro extremamente vulnerável a sobressaltos pessoais. Apesar da falta de alinhamento com o rigor técnico exigido pelo mercado, José Eduardo conduziu o Bamerindus ao seu ápice comercial. Sob sua gestão, a instituição consolidou-se na década de 1990 como o segundo maior banco privado do Brasil em número de agências — ultrapassando a marca de mil unidades — e o terceiro maior em volume de ativos. O sucesso foi impulsionado ainda por campanhas publicitárias bem sucedidas, como o jingle sobre a caderneta de poupança que fixou a marca na memória do consumidor brasileiro: “O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa…” VEJA TAMBÉM: Como a Varig foi dos céus à ruína e ainda motiva batalha bilionária 15 anos após falência Paralelamente, o banqueiro, conhecido pelo uso de um chapéu rústico (seu apelido era Zé do Chapéu), construiu uma carreira política sólida, elegendo-se senador pelo Paraná em 1990 e ocupando os ministérios da Indústria, Comércio e Turismo, no governo de Itamar Franco (MDB), e da Agricultura, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Os bons resultados financeiros do Bamerindus, no entanto, estavam ancorados em uma distorção econômica do Brasil da época – o float inflacionário. Em um cenário em que a inflação mensal orbitava a casa dos 40%, o simples trânsito de dinheiro gerava receitas atípicas. Os bancos captavam recursos em contas correntes e os aplicavam no overnight (títulos públicos de curtíssimo prazo que pagavam juros reais substanciais), apropriando-se da correção monetária antes de repassar os valores aos clientes. Nesse ambiente macroeconômico, a análise rigorosa de risco de crédito estava atrofiada. O Bamerindus, com sua vasta rede desenhada para sorver depósitos à vista, era um dos maiores beneficiários dessa anomalia. Gestão baseada na intuição comercial levou Bamerindus à derrocada O declínio do império financeiro expôs a fragilidade do modelo diante de um novo ambiente