‘O Kosmonauta’ leva Iuri Gagárin ao sertão cearense – 08/08/2026 – Mise-en-scène

Imagine a cena: em vez de pousar nas terras lamacentas de Saratov, na antiga União Soviética, a nave de Iuri Gagárin desvia da rota, cruza o oceano e cai bem no quintal da família da Costa, no coração do sertão cearense. É dessa premissa inusitada que ganha vida “O Kosmonauta: Um Pagode Russo”, espetáculo do Grupo Carraspano sob a direção de Fernanda Castello Branco.

A peça pega emprestada a famosa ideia da música de Luiz Gonzaga — que imaginou o sertão e a cidade de Moscou dançando o mesmo ritmo — para contar uma história sobre como gente tão diferente consegue se entender. De um lado, está o viajante do espaço com seu traje laranja todo paramentado e uma língua que ninguém ali compreende; do outro, uma família numerosa de dez irmãos acostumada com a poeira, o calor e a rotina do interior.

Mesmo sem falar a mesma língua, a comunicação acontece rápido. O gesticulado, o tom de voz e o olhar resolvem o que as palavras não conseguem explicar. O espetáculo prefere mostrar o afeto na prática: quando alguém cai do céu precisando de ajuda, a resposta simples daquela casa é puxar uma cadeira e oferecer acolhimento.

Em cena, a narrativa se equilibra entre dois pólos infantis. Enquanto o irmão Toin vive de olhos no céu, sonhando com a imensidão do infinito, o caçula Zé — de saúde frágil — finca os pés na terra, movido pela paixão por fósseis e dinossauros. A chegada de Gagárin e a corrida para protegê-lo de dois policiais norte-americanos bufões, determinados a capturá-lo, dão o tom de chanchada e perseguição cômica que dita o ritmo dos 60 minutos de apresentação.

O grupo faz de tudo um pouco no palco. Sete atores e músicos permanecem em cena o tempo todo: tocam sanfona e ritmos nordestinos misturados a ruídos espaciais, fazem acrobacias para simular a falta de gravidade e mudam de papel à vista do público. Sem efeitos especiais mirabolantes, o impacto do foguete e os voos pelo espaço são resolvidos no corpo, no equilíbrio e no movimento dos atores.

Ao resgatar a memória de que os continentes já foram uma massa única — a antiga Pangeia —, a peça sopra uma ideia singela para crianças e adultos: antes das fronteiras e dos idiomas, o mundo já foi uma casa só. E, quando a curiosidade vence o medo do desconhecido, descobre-se que o sertão e o cosmos cabem no mesmo quintal. De quebra, a montagem ainda aborda a finitude e a morte de forma sutil e poética. Um espetáculo imperdível para todas as idades.

Três perguntas para…

… Juno

Como funcionou a dinâmica de escrita da dramaturgia em parceria com Alex Huszar e Leo Raoni? De que forma vocês dividiram a criação do texto e das cenas?

A ideia partiu do Leo Raoni ao resgatar uma memória familiar do Crato (CE): a história de um tio que adoeceu na infância por falta de saneamento básico. Esse relato contrastava fortemente com os anos 1960 e a Corrida Espacial, gerando o desejo de criar uma fantasia sobre essa disparidade e me convidando e ao Alex Huszar para escrevermos juntos.

Nosso processo foi extremamente dinâmico e colaborativo. Reuníamo-nos toda segunda-feira na casa do Leo e, após definirmos a estrutura, os personagens e a música como condutor, cada um se encarregava de levar ao menos uma cena ou canção por semana. Líamos tudo em grupo, trocando ideias, refinando o tom e garantindo que o DNA dos três estivesse impresso na peça do início ao fim.

A sinergia entre texto e música acontecia naturalmente: uma cena inspirava uma canção e vice-versa. Alex trouxe a emocionante “Voa, Zé”, Leo sonhou com a divertida “Bola do Céu” e o tema da família da Costa nasceu de conversas afetuosas sobre os parentes de Leo.

Esse espírito cômico e cheio de referências — que incluiu desde assistir ao filme “O Homem do Sputnik” [ filme de Carlos Manga, de 1959] até brincadeiras de rima que deram origem aos militares trapalhões John Johnson e Johnson John — deu ritmo a todo o trabalho. Em apenas três meses de encontros e risadas, a dramaturgia estava pronta para ir à sala de ensaio, onde ganhou corpo com a direção de Fernanda Castello Branco e o empenho dos atores.

De que maneira o clássico “Pagode Russo”, de Luiz Gonzaga, influenciou a criação da identidade sonora da peça?

“Pagode Russo” é uma música que brinca com essa realidade improvável de Luiz Gonzaga dançando em Moscou em uma boate russa. A nossa peça vem desse lugar inusitado, de encontrar pontos de contato entre culturas teoricamente tão díspares.

Se Luiz Gonzaga comparou o trepak [tradicional dança folclórica da Rússia e da Ucrânia] com o frevo, tomamos também a liberdade de imaginar sons e estéticas soviéticas em escalas modais, típicas de melodias nordestinas. Fomos pesquisando essas conexões entre a cultura russa e a nordestina. O acordeon, por exemplo, tão presente no baião e no xaxado, também está na festa russa, quando se toca a “Katyusha” [famosa canção folclórica russa composta em 1938].

A barreira linguística entre Gagárin e a família do Ceará vira um motor para o jogo cênico. Como foi escrever cenas em que o gesto e a intenção precisavam dizer mais do que o texto dito?

Como o ponto de partida para a peça foi o texto, na primeira versão da dramaturgia havia muitas narrações que contavam, em palavras, ações que poderiam ser físicas. Foi fundamental sair do papel e contar com a batuta da Fernanda Castello Branco para transformar algumas dessas palavras em ações.

Para isso, contamos também com a contribuição e com as construções de todos os nossos atores-criadores: Wesley, Marina, Luan, Pedro e Michelle, sempre dispostos a entender o que estava sendo dito ali e a intenção das cenas e propondo a partir disso.

A dramaturgia também se escreve sem palavras e, por isso, ir para a sala de ensaio e ver se o que estava escrito funcionava foi fundamental. Eu estava em todos os ensaios, fazendo esse trabalho, ajudando a ajustar em tempo real o texto à realidade da cena, levando em conta as propostas que iam sendo apresentadas por todos.

Sesc Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185, Campos Elíseos, região central. Domingo, 12h. Até 23/8. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 12 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades.





Fonte ==> Folha SP

Últimas

Tópicos

spot_img

Mais notícias

Categorias