Aos 18 anos, Pedro Pimenta levava a vida como a de qualquer outro adolescente. Até que uma meningite meningocócica mudou seus planos. Na época, ele morava em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Estudava, praticava esportes e se reunia com amigos como outros jovens de sua idade.
Em 11 de setembro de 2009, foi ao cursinho e assistiu às aulas. Na madrugada do dia 12, chegou ao hospital com menos de 1% de chance de sobreviver.
“Comecei a me sentir mal na hora do almoço, com dor de cabeça, nas extremidades, assim como na dengue. Passei a tarde com sintomas mais agressivos do que seria uma gripe. Foram seis dias em coma. A partir do terceiro, tive sinais de melhora. A despedida foi sendo adiada”, conta Pimenta, hoje com 35 anos.
“Quando acordei percebi que meus braços e minhas pernas estavam mortos. Sempre há a esperança de não ter que amputar, mas era visível que em algum momento precisaria fazer isso.”
Após um mês, uma infecção hospitalar adiantou o processo de amputação dos braços, acima dos cotovelos, e das pernas, acima dos joelhos. O coma durou 13 dias.
Ao deixar o hospital, após cinco meses e meio, a família buscou entender com especialistas como seria a vida pós-reabilitação.
De início, a perda das quatro articulações o impediu de ser um candidato ao uso de próteses.
“Tinha perdido as pernas na metade das coxas e os braços acima dos cotovelos. Para piorar, a meningococcemia [infecção generalizada grave e de evolução rápida na corrente sanguínea causada pela bactéria] é invasiva. Tive que fazer muitos enxertos de pele para preservar o máximo possível dos membros. A ausência dos quatro [membros] e a fragilidade da pele me colocavam como um não candidato. Por isso, virei um case global, do ponto de vista de reabilitação”, relata.
Pedro Pimenta mudou-se para os Estados Unidos. Lá conheceu a Hanger Clinic, especializada em veteranos de guerra, em múltiplas amputações e casos difíceis.
“Eles não tinham case de tetra ou quadriamputado, me encontraram num congresso, abriram as portas para mim e me ajudaram no custeamento das quatro próteses. O treinamento foi terrível, mas positivo. Eles eram bem duros”, afirma.
“Tinha medo de cair. Treinávamos muito em ambientes externos. Havia pressão psicológica. Era bem radical.”
Pedro entrou para uma faculdade de próteses e órteses na Flórida e começou a trabalhar. Por entender que dependeria muito das mãos, trocou de curso e se formou em economia. Permaneceu no emprego por nove anos. Na pandemia de Covid, optou pelo home office no Brasil.
No período, surgiu a ideia de abrir a própria empresa, a Da Vinci Clinic, que está há cinco anos no mercado de próteses e reabilitação.
Com sede em Barueri, na Grande São Paulo, e filial em Belo Horizonte (MG) —essa aberta há um ano e meio—, a empresa possui uma oficina ortopédica para a confecção de próteses e o setor de reabilitação. “Entregamos a prótese e o serviço de fisioterapia e de treinamento”, afirma.
Pedro diz que o Brasil tem gargalos quando o assunto é reabilitação. A profissão de protesista e ortesista só foi regulamentada em julho de 2026. “O projeto ficou 20 anos parado no Congresso. Nos Estados Unidos, a profissão tem nível de mestrado.”
Outro ponto é o acesso dos brasileiros a próteses de qualidade. “Os planos de saúde não reconhecem as nossas próteses como algo a ser pago. Eles pagam somente aquelas implantadas no ato cirúrgico. Nos países minimamente sérios, os planos de saúde pagam. A tabela SUS não atualiza há mais de uma década. As próteses do SUS machucam, são bem complicadas de usar”, comenta.
Linamara Rizzo Battistella, professora titular de fisiatria da USP (Universidade de São Paulo) e idealizadora da Rede Lucy Montoro, concorda que os avanços na reabilitação são lentos, mas reforça que as incorporações ao SUS (Sistema Único de Saúde) são permanentes e destinadas a todos.
“O SUS tem estado muito mais presente na vida das pessoas com deficiência do que o sistema suplementar. E tem oferecido progressivamente melhoras nesse suporte tecnológico. Mas ele não consegue absorver com a velocidade que se inova. Isso não significa falta de qualidade. Depende um pouco de pesquisa e de custo”, finaliza.
A médica também evidencia um gargalo técnico no setor: a carência na formação de especialistas e a invasão de competências por profissionais sem a devida qualificação médica.
Ao contrário do diagnóstico de patologias, que depende de meios físicos tecnológicos amplamente conhecidos — como a ressonância magnética, a ultrassonografia e o raio-x —, o tratamento em medicina física e reabilitação fundamenta-se na mecânica e no movimento. O objetivo principal é reabilitar o paciente utilizando estímulos físicos direcionados para eliminar a dor, restabelecer a mineralização óssea, aprimorar a função cognitiva e devolver a capacidade de andar.
Pedro, Battistella e Natã Vargas, fundador e CEO da LimbX, startup brasileira que cria próteses biônicas, estarão no Festival SP2B – São Paulo Beyond Business, evento de inovação, cultura e empreendedorismo que começa neste domingo (9) e vai até o dia 16 de agosto. Serão 750 palestras em 20 palcos distribuídos em nove espaços do parque Ibirapuera, na zona sul da capital paulista.
Eles participarão de um painel que discutirá como os avanços da tecnologia têm ajudado na reabilitação física e neurológica das pessoas.
O Corpo Reabilitado: Tecnologia como Extensão da Vida
Terça (11), das 15h às 16h
Palco Decoding Life
Próteses inteligentes, implantes, dispositivos vestíveis e avanços farmacológicos estão redefinindo os limites da reabilitação física e neurológica. O corpo deixa de ser apenas tratado para ser ampliado, assistido e, em alguns casos, reprogramado. Até que ponto a tecnologia atua como ferramenta de inclusão e autonomia e quando passa a redefinir o que entendemos como capacidade, normalidade e qualidade de vida?
Tipos de ingresso para o evento
- Z Pass: acesso à sexta (14) por R$ 320
- Day Pass: acesso a um dia de seg. a qui., por R$ 590
- Explorer: acesso a 7 dias, por R$ 1.180
- Enterprise: acesso a 7 dias + business area + pista premium nos shows + encontros ‘one to one’, por R$ 2.360
- Platinum: acesso aos 8 dias com área VIP + fast pass para palestras + shuttle de deslocamento + encontros com executivos por R$ 4.720
SP2B – São Paulo Beyond Business
Parque Ibirapuera – av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Vila Mariana, região sul. Entrada pelos portões 2, 3, 7 e 10. De 9 a 16/8. Ingr.: a partir de R$ 320 (Z Pass) em Ticketmaster. Programação completa em sp2b.com.br
Fonte ==> Folha SP

