Talvez a tecnologia não seja a vilã, mas nós mesmos

Talvez a tecnologia não seja a vilã, mas nós mesmos

Na minha última coluna, cutuquei o SXSW e deixei uma pergunta em aberto: onde vai parar a nossa saúde mental com tantas grandes novidades tecnológicas? E aí que hoje venho tacar fogo nesse parquinho novamente, tirando da tecnologia a culpa desse colapso de saúde mental.

De fato, a tecnologia está em todas as explicações: na sobrecarga, na ansiedade, no burnout, na dificuldade de desconectar, na dificuldade de aprendizagem… E talvez seja justamente por isso que valha a pena a gente parar para questionar, porque quando uma explicação dá conta de tudo, ela também pode estar escondendo alguma coisa. Desconfiem sempre!

A verdade é que tem sido mais confortável para todos nós culpar a IA, os algoritmos, o Slack, o WhatsApp, os e-mails, mas fica mais difícil enfiar o dedo na ferida: o que tem nos adoecido é a forma como o trabalho vem sendo organizado – com a ajuda da tecnologia, claro – por nós mesmos.

Dados recentes ajudam a entender esse momento. Vamos de remember? No Brasil, os afastamentos por transtornos mentais cresceram absurdamente nos últimos anos, alcançando cerca de 472 mil casos em 2024, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Em escala global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que depressão e ansiedade geram perdas de aproximadamente US$ 1 trilhão por ano em produtividade.

Esses números nos contam algumas coisas: 1) há um aumento de diagnósticos e, sim, também vivemos a era do hiperdiagnóstico. 2) independentemente dos diagnósticos, se as pessoas estão buscando ajuda e obtendo respostas, há uma transformação mais ampla na forma como o trabalho vem sendo vivenciado.

E aqui vale um adendo para quem ficou confuso: transtornos como ansiedade e depressão não têm origem exclusiva no trabalho, diferentemente do Burnout, mas podem ser intensificados por ele e impactam diretamente o mercado.

O que se estabelece nesses casos é uma relação de influência mútua, tipo a banda (ou fita) de Moebius, que o psicanalista Jacques Lacan usou para nos lembrar que não somos pura vítima do exterior, nem pura criação autônoma.

Somos uma torção, sem fronteira nítida, entre interior e exterior. Em outras palavras: mesmo transtornos que não são reconhecidos por terem origem no trabalho podem ter tido o trabalho como gatilho, assim como o Burnout (fenômeno ocupacional) pode ter tido questões pessoais como gatilho.

É aí que a discussão costuma escorregar. Não dá mesmo para estabelecer culpados ou responsáveis sozinhos pelas nossas dores da vida moderna. Não é só ambiente tóxico, indivíduo frágil ou algoritmo perverso que provocam transtornos e fenômeno ocupacional. Com a teoria da banda de Moebius, fica claro que a psique humana é afetada pela cultura, assim como a cultura é afetada pelas psiques humanas.

Mas aonde entra a tecnologia, então? Bom, nesse caso, ela intensifica dinâmicas sociais que já vinham se consolidando e que ajudam a entender por que o sofrimento no trabalho ganhou essa escala. Várias hipóteses têm circulado por aí e a maioria delas faz sentido, mas trago aqui as causas que me parecem mais adequadas, tanto do ponto de vista social como psicológico. Afinal, por que estamos adoecendo mais?

Uma das grandes causas é a pressão contínua. O trabalho contemporâneo deixou de operar com uma lógica de suficiência. Não existe mais um ponto claro em que se possa dizer que foi o bastante. Metas são constantemente elevadas, resultados precisam ser superados, e o crescimento deixa de ser uma ambição para se tornar uma exigência permanente.

Organizações operam com menos margem de erro, ciclos mais curtos e maior cobrança por performance, e esse cenário atravessa diretamente o cotidiano de quem trabalha. O efeito disso é um tipo de pressão que não se resolve com entrega, porque, mesmo quando algo é concluído, o próximo ciclo já está colocado. O trabalho continua, e a sensação de insuficiência também.

Outra dimensão importante é o colapso dos limites. Dados de um estudo meio antigo (2022), o Work Trend Index, da Microsoft, já mostravam que a jornada de trabalho vem se expandindo, com pessoas começando mais cedo e terminando mais tarde, ao mesmo tempo em que reuniões, mensagens e e-mails fragmentam o dia em múltiplas interrupções.

A tecnologia ampliou a possibilidade de conexão contínua, mas o que se observa não é apenas mais flexibilidade, e sim uma dificuldade crescente de delimitar onde o trabalho começa e termina.

Durante a pandemia, essa fronteira quase sumiu, mas o retorno ao presencial não a restabeleceu, apenas adicionou novas camadas de controle e disponibilidade. O resultado é um cenário onde o trabalho se estende para além do horário formal, mas com menor autonomia sobre o próprio ritmo.

Essa falta de limite se conecta diretamente com a fragmentação do trabalho. O dia não se organiza em blocos contínuos e passa a ser composto por interrupções constantes e múltiplas demandas simultâneas. O multitask segue mais vivo que nunca! A promessa de eficiência trazida pela tecnologia não diminuiu o trabalho, só aumentou o nível de exigência.

Segundo o mesmo estudo da Microsoft, em uma semana comum, 42% das pessoas realizam multitarefas durante reuniões, respondendo e-mails, mensagens ou outras demandas paralelas. O trabalho acontece, mas de forma cada vez mais fragmentada, o que compromete não apenas a produtividade, mas a possibilidade de elaboração e, sobretudo, construção de sentido.

Sem tempo para elaboração psíquica, a gente vai ficando mais próximo do caos. Quando não elaboramos o que acontece no trabalho, o que se perde não é só pausa, é a possibilidade de transformar experiência em algo pensável. Sigmund Freud usa a ideia de Durcharbeitung (trabalho de elaboração) para falar desse processo de atravessar, ligar, dar forma psíquica ao que foi vivido.

Sem esse trabalho, a experiência não se integra e tende a se repetir; conflitos e frustrações não se transformam, apenas se acumulam. Tudo fica mais no nível do afeto bruto e vira irritação, ansiedade ou esvaziamento.

Sem esse tempo, o sujeito até entrega, mas não se apropria do que vive, o trabalho perde sentido e o sofrimento se individualiza, aparecendo mais como falha pessoal do que como efeito da própria organização do trabalho, como aponta o psicanalista Christophe Dejours em A Loucura do trabalho.

E, nesse cenário, até aquilo que antes sustentava o trabalho começa a se enfraquecer. Observamos na clínica que a felicidade no trabalho não acontece apenas pela tarefa em si, mas pelo reconhecimento do que é produzido. É esse reconhecimento, não apenas de grana, mas simbólico, que permite que o trabalho encontre sentido psíquico.

Quando isso falha, o trabalho perde parte da sua função estruturante e se torna insustentável ao longo do tempo. A partir daí, não surge apenas o cansaço, mas desengajamento e cinismo. E já existem estudos que ilustram esse movimento. O engajamento dos funcionários no mundo todo caiu pelo segundo ano consecutivo, atingindo seu nível mais baixo desde 2020 (20%), segundo o relatório State of the Global Workplace, da Gallup.

Quando se olha para esse conjunto de pressão contínua, colapso de limites, fragmentação, falta de elaboração e perda de sentido, fica mais difícil de continuar colocando a culpa apenas na tecnologia. Por isso que vale a gente deslocar a pergunta para um lugar bem menos confortável. Se o sofrimento no trabalho está sendo produzido por esse conjunto de fatores, por que ainda insistimos em tratá-lo como um problema de adaptação individual? E por que culpamos a tecnologia pela forma com que nós mesmos organizamos o trabalho?

Fonte ==> TecMundo

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