Caiado, Gusttavo Lima e a direita além de Bolsonaro – 17/04/2026 – Gustavo Alonso

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A recente movimentação política do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como candidato presidencial gera cenários interessantes para o futuro do bolsonarismo, especialmente entre os artistas sertanejos. Quem abraçará Flávio Bolsonaro e quem procurará novos caminhos?

Até então tudo se encaminhava para uma reedição do segundo turno de 2022 já no primeiro turno de 2026. Bolsonaristas e lulistas polarizavam nosso jogo político infantil.

Nas esquerdas, nenhum nome de peso ousou questionar o mando de Lula, submissos ao projeto petista. Marina, que foi candidata rebelde nas eleições de 2010, 2014 e 2018, acomodou-se à disputa de uma vaga pelo Senado, deixando órfãos os que a apoiaram por tantos anos. Depois do fracasso em tentar romper a polarização da política brasileira em 2022, Ciro Gomes resolveu voltar ao seu torrão natal e se candidatar ao governo do Ceará, onde aparece bem colocado.

Nas direitas o que víamos era a briga pelo espólio de Bolsonaro. Diante da inelegibilidade do líder fascista, os governadores Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Tarcísio de Freitas (SP) disputavam a subserviência. Corria por fora o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Com a escolha de Flávio Bolsonaro como herdeiro dinástico do bolsonarismo, apertou-se o calo dos correligionários, que resolveram se movimentar.

Tarcísio, o mais subserviente de todos, abandonou a disputa. No PSD de Gilberto Kassab ganhou a candidatura de Ronaldo Caiado, um nome histórico associado à luta contra a reforma agrária no Brasil.

Líder da União Democrática Ruralista, Caiado teve sua trajetória alavancada pelo crescente poder do agro na política brasileira. Candidato a presidente em 1989, obteve mero 0,72% dos votos válidos, ficando em décimo lugar. Agora quer romper a polarização escorando-se na força da agricultura pujante.

Pode ser que sua candidatura naufrague logo, como aconteceu com aqueles candidatos que, à esquerda, questionaram a primazia de Lula em contexto semelhante. Em 2018 Marina, que havia obtido 21% dos votos em 2014, conseguiu mero 1% do eleitorado. Ciro Gomes, que obteve 12% em 2018, alcançou apenas 3% em 2022.

Mas diferentemente de Marina e Ciro, cujo apreço era ideológico, mas fluido, Caiado tem base social forte, especialmente no mundo agro e entre os artistas sertanejos, muitos dos quais são de Goiás. Há bastante tempo Goiânia é chamada de “a capital sertaneja” e muitos se entusiasmaram com a ascensão de Caiado na disputa.

O caso mais eloquente é o do cantor Gusttavo Lima. Em janeiro de 2025, ele havia colocado seu nome à disposição para a corrida presidencial, alegando a necessidade de “alternativas” no país. O cantor afirmava que sua função seria “trabalhar e ajudar as pessoas”. Em março de 2025 ele retirou a pré-candidatura. Mesmo sem ser candidato, Gusttavo Lima comprometeu-se a apoiar Caiado e participar da pré-campanha como um mobilizador e interlocutor com o público sertanejo.

A relação entre Gusttavo Lima e Caiado é íntima, como o próprio cantor já disse: “A gente praticamente virou família. Ele frequenta a minha casa, eu frequento a casa dele. As filhas dele são amigas nossas. Realmente são pessoas que valem a pena estar próximo. Então considero ele como meu pai, um paizão, um cara que me dá muitos conselhos. É sempre um prazer estar do lado dele”, disse o sertanejo.

Se Gusttavo Lima já tem lado definido, espanta que tenha abandonado a família Bolsonaro com tamanha celeridade. Ainda está na lembrança de muitos de nós a visita de vários artistas sertanejos ao então presidente Jair Bolsonaro em 17 de outubro de 2022. Liderados por Gusttavo Lima, artistas de peso como Chitãozinho, Zezé Di Camargo, Fernando, Marrone, Leonardo, Sula Miranda e o locutor Cuiabano Lima foram conduzidos ao Palácio do Alvorada por um sorridente Ronaldo Caiado e pelo apresentador Ratinho, pai do atual governador paranaense.

Boa parte das esquerdas se escandalizou com o ocorrido e buscou denunciar que os sertanejos eram todos reacionários, dispostos a bajular Bolsonaro por seu DNA retrógrado. Preferiram não ver as brechas. Não questionaram por que várias duplas sertanejas pareceram fracionadas na visita a Bolsonaro. Chitãozinho foi, mas Xororó não. Zezé foi sem a companhia de Luciano. Fernando foi, mas não levou o parceiro Sorocaba. Marrone estava lá, mas Bruno não. Chamou a atenção a ausência de Sérgio Reis, que meses antes havia pedido o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal).

A brecha aberta por Caiado gera a possibilidade de fratura interessante nas direitas. Dois candidatos a divergir da família Bolsonaro são os cantores Sérgio Reis e Zezé Di Camargo. De olho no Senado por São Paulo, Serjão se filiou ao Democracia Cristã, mesmo partido de Aldo Rebelo, pré-candidato à Presidência da República.

Ex-ministro de Lula e ex-deputado federal, Rebelo lançou sua pré-candidatura focando críticas ao atual governo em relação a temas ambientais e soberania nacional. Ex-membro do PC do B, e ex-ministro da Defesa de Dilma Rousseff, ele tem discurso nacionalista e desenvolvimentista raiz.

Ao ver um post do pré-candidato à presidência no Instagram, Zezé Di Camargo escreveu: “Seu conhecimento de política e de Brasil é de impressionar. Sou seu admirador”. Ao que Aldo respondeu: “Sou admirador de suas músicas, de sua bela trajetória. Temos o traço comum do Brasil sertanejo, do Brasil profundo, do Brasil verdadeiro, do Brasil rural”.

Os próximos meses prometem uma dança das cadeiras empolgante para todos aqueles que gostam do teatro da política. Por enquanto são brechas. Pena que nas esquerdas não se vê algo semelhante, capaz de atiçar as mentes ditas progressistas para caminhos menos personalistas e continuístas. Lula e Bolsonaro também já foram meras brechas em épocas pretéritas e se tornaram o que são hoje. Tudo é possível. Em política, tudo muda sempre.



Fonte ==> Folha SP

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