‘As Centenárias’ vira musical no Sesc Bom Retiro – 11/06/2026 – Mise-en-scène

'As Centenárias' vira musical no Sesc Bom Retiro - 11/06/2026 - Mise-en-scène

Longe de carregar como fardo o estrondoso sucesso da montagem de 2007 — com Marieta Severo e Andréa Beltrão, sob a batuta de Aderbal Freire-Filho —, a versão de 2026 de “As Centenárias”, no Sesc Bom Retiro, faz daquela aclamação o trampolim para sua própria reinvenção.

Ao transmutar a premiada secura da farsa original em um musical de chão batido, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos não apenas atualiza o texto de Newton Moreno, ela reescreve sua própria arquitetura sonora, provando que o clássico, quando bem escavado, pode revelar veios de ouro esquecidos pela montagem anterior.

Longe de ser um caça-níqueis comercial ou mero verniz estético, a transição para o musical, idealizada pelas protagonistas Laila Garin e Juliana Linhares, ao lado da produtora Andrea Alves, funciona como uma amplificação natural da voz de Moreno. A música aqui não interrompe o drama; ela é o próprio drama.

Ao integrar dezesseis canções inéditas de Chico César, inspiradas em incelências e cantos tradicionais do Nordeste, o lamento das carpideiras vira pulsação espiritual. Se em 2007 a peça era uma elegia do mundo em vias de desaparecer, agora ela celebra o patrimônio imaterial.

A trama se passa no sertão do Cariri, onde Socorro (Laila) e Zaninha (Juliana), duas carpideiras centenárias, ganham a vida chorando mortos alheios. A riqueza da dramaturgia é subverter o luto com ironia e humanismo: para elas, carpir é um ato maternal, um território feminino onde o cadáver é limpo, vestido e ninado para o além. Mas a ternura coexiste com a farsa: a Morte não é um pavor metafísico, mas uma colega de trabalho a ser ludibriada para garantir o sustento.

O êxito da montagem repousa na eletricidade das duas protagonistas. Garin equilibra dor solene e ridículo farsesco com impressionante segurança; Linhares entrega uma Zaninha malandra e vibrante, dominando nuances vocais. E há Leandro Castilho, que em múltiplos papéis, funciona como a linha de transmissão que une os mundos habitados pelas duas protagonistas.

A direção de Luiz Carlos Vasconcelos costura comédia e tragédia sem perder o ritmo. A cenografia modular de Aurora dos Campos transforma madeira em capelas e caixões; os figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler adotam preto rico em texturas, enquanto a Morte surge em vermelho vibrante. A iluminação sombria de Elisa Tandeta esculpe os mistérios do texto.

O grande coração, porém, pulsa nos arranjos de Elísio Freitas sobre as canções de Chico César. Não há números destacados do texto: a palavra germina em melodia, e a direção de movimento de Vanessa Garcia garante a passagem orgânica da correria farsesca ao canto ao vivo. O teatro nacional vive quando tem coragem de cavar suas raízes para descobrir novos ritmos e novas formas de rir da própria finitude.

Três perguntas para…

… Newton Moreno

O carpir é um ofício feminino e maternal, mas também um espaço de sobrevivência e astúcia. Como você encontrou o tom exato para que a morte fosse tratada sem pavor metafísico e, ao mesmo tempo, sem cinismo?

Encontrei esse tom na própria essência do ofício das carpideiras, que cantam para conduzir almas e orquestrar despedidas. O carpir aqui se manifesta como esse espaço maternal, mas profundamente fincado na sobrevivência. A relação dessas personagens com a Morte é ambígua: ao mesmo tempo em que a reverenciam, elas a trapaceiam. É um jogo teatral de enganar a Morte.

Para equilibrar o pavor e o cinismo, usei como base as clássicas duplas da comédia popular: o clown branco e o Augusto, o Gordo e o Magro, o mestre e o aprendiz; e suas matizes pícaras. Essa dinâmica de palhaçaria e malícia desarma a solenidade da morte sem tirar dela o seu peso ritualístico. Em tempos tão duros de feminicídio, ver duas mulheres se unindo para vencer a morte transforma esse carpir em uma ode à força e à resiliência do povo nordestino, que historicamente precisa subverter realidades brutais para simplesmente não morrer.

Há na sua escrita uma aproximação visível com heróis populares como João Grilo e Chicó, mas em sua vertente feminina e centenária. O que a idade extrema dessas personagens acrescenta à tradição da comédia popular nordestina?

O protagonismo aqui é deliberadamente feminino, pois na minha obra sempre busco promover a centralidade das mulheres — sejam cangaceiras, carpideiras, ou figuras como a Maria do Caritó. Trazer herdeiras da linhagem de João Grilo e Chicó, mas na pele de duas mulheres centenárias, dobra a aposta da comédia popular. A idade extrema dessas personagens acrescenta uma camada profunda de sabedoria, tempo acumulado e, acima de tudo, uma astúcia calejada.

Elas já viram de tudo. A inspiração primeira para isso vem, inclusive, da amizade real de Andréa e Marieta: uma conexão feminina poderosa que constrói um teatro capaz de ressuscitar “mortos” a cada sessão, brincando de enganar a Morte (o que ganha um tom ainda mais vivo por estarmos ao lado de um cemitério). Essa velhice centenária não traz peso, mas sim a leveza pícara de quem tem a propriedade de olhar nos olhos da finitude e, em vez de tremer, armar uma emboscada para ela.

O que significa, para você, ver uma obra escrita há quase duas décadas ser reconstruída sob outra chave de linguagem, como o teatro musical, sem perder sua espinha dorsal dramatúrgica?

É um processo profundamente orgânico. O texto original já trazia a musicalidade em seu DNA, solicitando incelências e cocos, mas nesta nova chave pareceu natural vê-las cantando ainda mais; a música virou, de fato, o quarto personagem da peça. Nós mantivemos a estrutura dramatúrgica rígida, musicando alguns textos originais e criando novas letras, mas nos permitimos mudar o final: se o texto anterior usava bonecos para fechar a história, aqui, sem os bonecos, a artimanha final é outra, puramente teatral. Eu gosto muito da linguagem do musical — este ano inclusive estreio mais dois, “Piaf, Eu Não Me Arrependo” e “Gil – Andar Com Fé” — porque me fascina a ideia de contar cantando.


Sesc Bom Retiro – alameda Nothman, 185 – Campos Elíseos, região central. Quinta, 20h. Sexta, 15h e 20h. Sábado, 15h e domingo, 18h. Até 14/6. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 18 (credencial plena) em sescsp.org.br. Os ingressos estão esgotados, mas sempre tem a fila da esperança.



Fonte ==> Folha SP

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