Campeão da Copa será inédito, diz economista campeão de acertos

Campeão da Copa será inédito, diz economista campeão de acertos

À medida que o apito inicial da Copa do Mundo de 2026 se aproxima, o mercado financeiro global deixa de lado, por um breve momento, as planilhas de inflação e as curvas de juros para se dedicar a uma tradição: as previsões econométricas para o “maior espetáculo da Terra”, que começa nesta quinta-feira (11), na Cidade do México.

Um nome atrai atenção especial neste ano. Joachim Klement, estrategista do banco de investimentos britânico Panmure Libertum, carrega um histórico que faria qualquer gestor de fundos de alto risco invejar. Ele previu corretamente que a Alemanha venceria o Mundial de 2014, no Brasil; a França em 2018, na Rússia; e a Argentina em 2022, no Catar.

Para o torneio que será realizado nos Estados Unidos, México e Canadá, Klement apresenta um resultado que ele mesmo admite soar inusitado: os Países Baixos. Coloquialmente conhecidos como Holanda, a seleção apelidada de “Laranja Mecânica” será campeã, derrotando Portugal em uma final inédita e totalmente europeia, segundo suas previsões.

Em um cenário em que as casas de apostas e outros gigantes bancários, como Goldman Sachs e Natixis, apontam para potências como Espanha ou França, a “zebra” de Klement desafia o consenso.

Os melhores resultados dos Países Baixos em Copas do Mundo foram três vice-campeonatos: na Alemanha (1974), na Argentina (1978) e na África do Sul (2010). Já Portugal tem como melhor campanha um terceiro lugar no Mundial da Inglaterra (1966).

As previsões de Klement para o Brasil são, contudo, mais pessimistas — veja mais adiante.

A lógica por trás da infalibilidade do estrategista

A precisão de Klement não se baseia em palpites subjetivos, mas em um modelo próprio que reúne futebol, economia e meteorologia. Para o economista, o sucesso no futebol depende de fatores que vão muito além das quatro linhas.

O primeiro pilar do modelo é o PIB per capita. Klement argumenta que o sucesso exige infraestrutura: estádios modernos e centros de treinamento de ponta para lapidar o talento bruto. Contudo, ele identifica um ponto de saturação. Países excessivamente ricos podem sofrer uma queda na produtividade esportiva, pois o leque de opções de lazer para os jovens — como os videogames — compete diretamente com o tempo dedicado ao treino nos gramados.

O segundo fator é o tamanho da população, mas com uma ressalva: a massa crítica só importa se o futebol for uma “religião” nacional. É por isso que, apesar de suas enormes populações, China e Índia permanecem irrelevantes no cenário mundial. Já nações sul-americanas e europeias, onde cada criança cresce com uma bola nos pés, maximizam seu capital humano.

O terceiro elemento, o mais curioso, é a temperatura média. O modelo de Klement sugere que a temperatura ideal para a prática do futebol de alto nível é de 14°C, característica comum na Europa e em partes da América do Sul.

Por fim, Klement utiliza o ranking da FIFA como um termômetro da força atual das seleções, ao qual adiciona a sorte. Ele admite que 45% do resultado de um jogo de futebol é determinado pelo acaso. Em um torneio curto e eliminatório, um gol contra ou uma decisão arbitral podem destruir o modelo mais sofisticado.

Nesse contexto, com a Copa tendo pela primeira vez 48 seleções, Klement projeta que os Países Baixos navegarão por um caminho árduo, mas vitorioso. Segundo ele, a “Laranja Mecânica” superará a França nas quartas de final e a Espanha na semifinal, em uma disputa de pênaltis, para finalmente erguer o troféu diante de Portugal.

Bancos apostam em Espanha, França e em desgaste da Argentina

Enquanto o Panmure Libertum aposta nos Países Baixos, outras instituições financeiras de peso utilizam metodologias que apontam cenários diferentes.

Segundo o Bank of America, a grande favorita ao título da Copa do Mundo de 2026 é a França, projetada para vencer a Espanha na final. O levantamento foi feito cruzando dados, inteligência artificial e opiniões de 65 analistas. Além do título, o estudo apontou Kylian Mbappé como o provável artilheiro.

As projeções do banco francês Natixis também colocam a seleção francesa no topo, com 26,2% de chance de título, seguida de perto pela Espanha, com 24,6%.

O Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento norte-americanos, utiliza um sistema baseado principalmente na classificação Elo — originalmente criada para o xadrez — para simular as probabilidades.

A Espanha é, nesse caso, a grande favorita, com 26% de chance de conquistar o título, impulsionada por um momento técnico superior. A França aparece em segundo lugar, com 19%. Já a Argentina, com 14%, tem contra si a tendência de que o campeão apresente desempenho inferior na edição seguinte, devido ao desgaste físico e mental, além da maior previsibilidade tática.

Neste século, em quatro Copas do Mundo, o campeão anterior foi eliminado ainda na primeira fase da edição seguinte. Foi o que ocorreu com a França em 2002, a Itália em 2010, a Espanha em 2014 e a Alemanha em 2018. Antes disso, havia ocorrido com a Itália em 1950 e com o Brasil em 1966.

Os cálculos do conglomerado italiano UniCredit priorizam a cultura do futebol e a capacidade de gerar jovens talentos. Para os analistas, a Argentina quebrará essa escrita e conquistará o bicampeonato consecutivo, vencendo a França em uma reedição da final de 2022.

Brasil segue entre favoritos, mas sem consenso dos bancos

As previsões das instituições financeiras para o Brasil trazem um misto de respeito histórico e pessimismo tático. Nenhum dos grandes bancos coloca a Seleção Brasileira como favorita absoluta, embora todos a mantenham no pelotão de elite. O Brasil aparece na quarta posição do ranking de favoritismo do Bank of America.

O Goldman Sachs atribui ao Brasil uma chance de 8% de título. O modelo projeta uma trajetória consistente até a semifinal, quando a Seleção encontraria seu maior algoz continental: a Argentina. Segundo o banco, o Brasil sofreria com a falta de um “talento artilheiro” comparável ao das principais potências europeias e com a dependência de jogadores que já não estão no auge físico.

A análise do Natixis é mais otimista em termos de probabilidade bruta (9,3%), mas também vê a semifinal como o teto brasileiro. O “efeito Ancelotti” — ou a experiência gerencial de alto nível — é um fator que o modelo tem dificuldade de quantificar integralmente, o que poderia representar um diferencial competitivo para a Seleção.

O UniCredit é o mais generoso com a equipe brasileira. O modelo prevê que o Brasil chegará às semifinais e, após ser derrotado pela Argentina, conquistará o terceiro lugar ao vencer a Espanha na disputa pelo bronze.

O banco destaca que o Brasil continua sendo a maior “aristocracia” do futebol, mas observa que a globalização do esporte reduziu a vantagem competitiva que o país detinha em termos de técnica individual.

Despedida brasileira pode ser antecipada

A previsão mais disruptiva para o Brasil vem justamente de Joachim Klement. Seu modelo projeta um desfecho traumático: a Seleção seria eliminada logo na rodada de 32 — o primeiro mata-mata — pelo Japão.

Klement baseia essa previsão ousada no excelente momento técnico japonês, que venceu o Brasil em amistoso em 2025 e superou a Alemanha na última Copa. Também pesa a tendência histórica de grandes potências caírem precocemente em torneios expandidos, seja pelo excesso de confiança, seja pela dificuldade de adaptação às condições locais.

Para os economistas, o Brasil continua sendo um gigante que luta para converter seu vasto potencial em resultados concretos diante de competidores cada vez mais eficientes e tecnologicamente preparados.

O enigma laranja na Copa: de favorita a figurante

A disparidade de opiniões sobre a “Laranja Mecânica” é um dos aspectos mais interessantes desta rodada de previsões para 2026. Enquanto Klement a vê como futura campeã, o restante do mercado financeiro adota uma postura mais cautelosa.

No modelo do Goldman Sachs, a seleção dos Países Baixos é vista como sólida, mas com teto limitado: teria cerca de 5% de chance de vencer o torneio e seria eliminada nas quartas de final pela França.

Já o diagnóstico do Natixis atribui uma probabilidade de título de apenas 0,4% aos Países Baixos. O modelo não vê na geração atual, liderada por Memphis Depay, o equilíbrio necessário entre “intensidade ofensiva” e “solidez defensiva” para superar gigantes como França e Espanha em jogos eliminatórios.

Segundo o Bank of America, os Países Baixos não figuram entre os favoritos ao título, ficando atrás do bloco de elite formado por franceses, espanhóis, argentinos e brasileiros.

O UniCredit coloca a “Laranja Mecânica” como uma equipe competitiva, capaz de chegar às quartas de final, mas prevê que ela sucumbirá diante do poderio ofensivo francês. Para essas instituições, os Países Baixos integram o grupo das seleções de “segundo escalão”, capazes de realizar boas campanhas, mas sem o “instinto assassino” necessário para conquistar o título inédito.

Nota da redação: Apesar de coloquialmente ser conhecido como Holanda, a Gazeta do Povo optou por utilizar Países Baixos, o nome oficial do país. Geograficamente, Holanda se refere apenas a duas das 12 províncias do país e é onde estão algumas das principais cidades, como Haia, Roterdã e Amsterdã.



Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br

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