Ter liberdade para organizar a própria agenda, trabalhar com algo em que acredita e construir um negócio com a sua cara. Quando alguém pensa em empreender, normalmente são essas as imagens que aparecem primeiro.
Faz sentido. Construir uma empresa pode trazer tudo isso. Mas, antes de tomar essa decisão, vale olhar para a rotina que vem junto.
Quem vai vender? Quem vai acompanhar o caixa? Quem vai conversar com o cliente insatisfeito? Quem vai tomar uma decisão difícil quando o dinheiro disponível não for suficiente para fazer tudo o que estava previsto?
No começo, é bastante provável que boa parte dessas respostas tenha o mesmo nome: o seu.
A vontade de ter um negócio precisa encontrar disposição para assumir essas responsabilidades. Caso contrário, a pessoa pode descobrir que gostava muito da ideia de empreender, mas pouco do trabalho necessário para sustentar aquela escolha.
Um dos pontos que merecem atenção é a relação com a liberdade. Quem abre uma empresa para deixar de prestar contas a um chefe passa a responder a clientes, funcionários, fornecedores e sócios. Os compromissos aumentam, e as consequências das decisões ficam mais próximas.
Você pode escolher o horário de uma reunião. Mas não pode escolher ignorar uma entrega combinada porque naquele dia estava sem vontade.
Também existe uma confusão frequente entre gostar de uma atividade e querer administrar um negócio naquela área. Uma pessoa pode ser excelente no que faz e descobrir que não gosta de vender, contratar, negociar ou acompanhar indicadores.
Isso merece ser considerado antes de investir dinheiro. A competência técnica ajuda muito, mas uma empresa exige outras capacidades. Algumas você vai desenvolver. Outras terá de buscar em pessoas que possam complementar o que você sabe.
Na trajetória da Espaçolaser, uma oportunidade comercial deixou essa exigência muito clara. Quando começamos a trabalhar com compras coletivas, vendemos 1.800 tratamentos no primeiro dia de uma promoção. Naquele momento, tínhamos oito unidades.
O resultado exigiu uma resposta da operação. Foi preciso organizar o atendimento e ampliar a capacidade para receber os clientes. A venda tinha acontecido; agora existia um compromisso a cumprir.
É uma parte do empreendedorismo que merece mais atenção. Uma oportunidade pode chegar acompanhada de um problema que você ainda não sabe resolver. E será sua responsabilidade mobilizar pessoas, entender as alternativas e construir uma saída.
Por isso, antes de perguntar quanto um negócio pode render, eu acho importante perguntar que trabalho ele vai exigir de você.
Converse com quem já atua no setor. Procure conhecer uma semana comum da operação, incluindo os dias de pouco movimento. Entenda como se vende, quais despesas continuam chegando quando a receita cai e quanto tempo o negócio pode levar para se sustentar.
Faça contas com premissas que você consiga explicar. Se a projeção depende de tudo dar certo desde o primeiro mês, volte para a planilha.
E olhe também para a sua motivação. A insatisfação com o emprego atual pode ser legítima, mas ela, sozinha, não demonstra que existe uma oportunidade de negócio.
Você consegue explicar quem é o cliente, qual problema pretende resolver e por que alguém pagaria pela sua solução? Está disposto a ouvir que a ideia precisa mudar? Consegue começar menor para aprender antes de assumir compromissos maiores?
Essas perguntas ajudam a transformar vontade em decisão.
Empreender exige disposição para aprender um trabalho que continua mudando. Você conquista clientes, forma uma equipe, corrige processos e, quando acha que entendeu uma etapa, o crescimento apresenta outra.
Se essa construção desperta o seu interesse, inclusive nas partes menos visíveis, existe uma boa razão para seguir investigando a oportunidade.
O entusiasmo ajuda a começar. Para continuar, você vai precisar assumir a rotina e os compromissos da escolha que fez.
Bora fazer!

