O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, deve mexer ainda mais as peças no segmento das terras raras, minerais essenciais para o desenvolvimento de novas tecnologias. O Brasil corre atrás do relógio para viabilizar até R$ 13 bilhões em investimentos.
O mercado já se move no país: uma empresa americana comprou a mineradora Serra Verde, de Goiás, por US$ 2,8 bilhões; a subsidiária de uma estatal russa e uma empresa brasileira se uniram para criar a Nadina Minerals, e a China avança na Amazônia. Ao mesmo tempo, as discussões em Brasília só ganharam força com os últimos movimentos.
Apesar da expectativa desses investimentos bilionários, a GIN Capital, uma estruturadora americana de projetos em infraestrutura no Brasil, avalia que apenas 35% desses recursos serão captados até 2028.
O monopólio chinês e a janela que está fechando para o Brasil
Segundo a estruturadora de investimentos, o Brasil possui uma janela de oportunidade de 18 a 24 meses. Ela reflete a reconfiguração das cadeias globais provocada pela guerra comercial e tecnológica entre Washington e Pequim. As terras raras — 17 elementos como neodímio, disprósio e térbio — são o sistema nervoso da indústria moderna: indispensáveis para semicondutores, motores de veículos elétricos e sistemas de mísseis guiados.
A China controla aproximadamente 70% da extração e 91% da capacidade de refino global, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).
Analistas apontam que essa dominância permite que Pequim utilize o fornecimento mineral como arma geoeconômica, restringindo exportações conforme suas conveniências políticas, como ocorreu em 2025. Em resposta, os Estados Unidos e aliados iniciaram a política de friendshoring: buscar fornecedores confiáveis fora da esfera de influência chinesa.
O Brasil, detentor da segunda maior reserva mundial — 21 milhões de toneladas, segundo o USGS — surge como alternativa natural. A urgência de Trump em firmar acordos com o governo brasileiro reflete um fato: mineradoras e governos ocidentais estão, neste momento, selando contratos de compra antecipada de longo prazo.
Do minério bruto ao lucro: onde o Brasil deixa bilhões escapar
A urgência geopolítica revela um abismo maior: a geração de valor ao longo da cadeia produtiva. O ponto crítico para o Brasil reside na captura de valor em cada etapa do processamento. A cadeia é brutal: minério bruto é comoditizado a preços baixos; após refino químico, o valor por unidade multiplica-se exponencialmente; o produto — ímãs permanentes, ligas especiais, componentes de tecnologia — concentra a margem de lucro que o Brasil deixa escapar.
O risco é repetir o “erro colonial” do minério de ferro: exportar riqueza bruta para recomprar tecnologia cara, diz Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais da ESPM.
Já o advogado Luiz Carlos Adami, especialista em direito da mineração e regulação, alerta que a integração passiva às cadeias estrangeiras sem contrapartidas de refino local pode levar à “periferização” do país.
Os analistas apontam que, sem plantas de separação em solo nacional, o lucro da industrialização será refinado em outros países, restando apenas o passivo ambiental. Juros altos agravam esse cenário.
EUA já se movem: a aquisição que acelerou Brasília
A realidade do mercado já se move enquanto as discussões avançam lentamente. O exemplo mais concreto da estratégia americana é a aquisição da mineradora Serra Verde pela USA Rare Earth (USAR) por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. Localizada em Minaçu (GO), a mina Pela Ema é a única em operação comercial no país capaz de fornecer simultaneamente os quatro elementos magnéticos cruciais: neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.
A transação é um marco da “Guerra Fria” mineral:
• Contou com aporte de US$ 565 milhões da International Development Finance Corporation (DFC), agência de fomento de Washington, aprovado em fevereiro de 2026.
• Faz parte do Project Vault, iniciativa de US$ 12 bilhões dos EUA para securitizar estoques estratégicos de defesa.
• Inclui contrato de compra antecipada de 15 anos para 100% da produção da Fase 1, destinado à base industrial e militar americana.
A operação disparou alertas em Brasília. O partido Rede e a deputada Heloisa Helena (Rede-AL) protocolaram uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender a venda, alegando que a soberania nacional foi ferida.
Analistas apontam que essa judicialização é o “cisne negro” do setor: se contratos privados forem revogados por decisões políticas, o prêmio de risco do Brasil subirá para todo o setor de infraestrutura, fechando a oportunidade antes mesmo de os projetos saírem do papel.
Segundo eles, o desfecho dessa ação no STF definirá o apetite dos investidores institucionais para novos projetos, tornando crítica a busca por empresas com estudos de viabilidade robustos e suporte de agências de fomento.
Rússia e China têm interesse nas terras raras brasileiras
A urgência americana é alimentada pelo avanço de potências rivais em solo brasileiro. Em março, a estatal russa Rosatom, via subsidiária Uranium One, formalizou a criação da Nadina Minerals — joint venture com a brasileira NBEPar para prospecção e processamento em Figueira (PR) e Caculé (BA).
Esse movimento sinaliza que o Brasil se tornou o principal campo de batalha para o controle das terras raras. A China também consolidou posições: a CNMC adquiriu a Mineração Taboca (AM), em novembro de 2024, por US$ 340 milhões e planeja investir mais US$ 100 milhões para extrair terras raras de resíduos de estanho.
O diferencial brasileiro reside nas argilas iônicas, sinalizam estudos realizados por multinacionais interessadas nos ativos. Diferente da rocha dura encontrada na Austrália e EUA, as argilas iônicas brasileiras são mais fáceis de processar, exigem menos energia e não geram barragens de rejeitos úmidos, reduzindo o risco ambiental e o custo de licenciamento.
Esse trunfo permite ao Brasil oferecer aos investidores ocidentais fornecedores confiáveis e sustentáveis, mas apenas se consolidar a infraestrutura de refino e garantir segurança jurídica nos próximos 24 meses.
Projetos dependem de assinatura de contratos nos próximos meses
Apesar dos gargalos institucionais, o Brasil vive volume sem precedentes de interesse internacional. Sete projetos em fase pré-operacional projetam investimentos que superam os R$ 10 bilhões. O sucesso depende da agilidade institucional nos próximos dois anos.
A GIN Capital estima que apenas 35% desse montante será captado até 2028 sem avanços significativos no ambiente de negócios. A probabilidade de esses projetos alcançarem a decisão final de investimento está condicionada à assinatura de contratos de compra antecipada nos próximos meses.
O marco legal pode ajudar a destravar investimentos bilionários em terras raras
O maior obstáculo para o Brasil cumprir o prazo não vem da geologia, mas de Brasília. O debate sobre o marco legal dos minerais críticos tornou-se o novo front da polarização eleitoral de 2026. O projeto de lei (PL 2780/24), relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), foi aprovado na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (6).
O projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), voltada ao incentivo da exploração, processamento e transformação desses minerais no Brasil. A proposta segue agora para análise do Senado.
O texto prevê a criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam), com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União, além de um programa de incentivos fiscais de R$ 5 bilhões ao longo de cinco anos para estimular o beneficiamento desses minerais no país. A proposta também institui o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por definir quais substâncias serão consideradas estratégicas e prioritárias.
Segundo o relator, deputado Arnaldo Jardim, a medida pode fortalecer a indústria nacional, incentivar a reciclagem de minerais presentes em resíduos eletrônicos e ampliar a competitividade do país no setor tecnológico. Já o autor do projeto, Zé Silva, afirmou que a proposta busca proteger as riquezas minerais brasileiras sem criar monopólio estatal.
O projeto também estabelece regras para leilões de áreas minerárias, cria um cadastro nacional de projetos do setor e prevê participação financeira obrigatória das empresas de mineração em fundos de pesquisa e garantia, segundo informações da Câmara dos Deputados.
A ala mais à esquerda do PT articulou inicialmente a criação da Terrabras — estatal mineral inspirada no regime de partilha do pré-sal e que deteria participação mínima de 50% na produção. Dois projetos de lei foram apresentados.
Segundo o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), a Terrabras é a única forma de garantir a “soberania econômica” e evitar que o Brasil seja apenas um fornecedor de baixo valor agregado para as indústrias de defesa dos Estados Unidos e da China.
Para especialistas e entidades do setor mineral, como a Associação de Minerais Críticos (AMC), a Terrabras é vista como uma ameaça à atração dos R$ 13,2 bilhões em investimentos privados projetados para o país.
Em recuo estratégico para não inviabilizar o fluxo de capital, o governo Lula decidiu apoiar o parecer de Jardim. Esse marco legal é visto como via pragmática para aproveitar a oportunidade geopolítica, trocando protagonismo estatal por mecanismos de incentivo privado:
- Créditos Fiscais Progressivos: Créditos de até 20% sobre valores investidos em beneficiamento local, com limite anual de R$ 1 bilhão entre 2030 e 2034.
- Fundo Garantidor: Fundo de até R$ 5 bilhões (com participação da União de R$ 2 bilhões) para mitigar riscos de crédito de mineradoras juniors sem produção ativa para oferecer como garantia real.
- Conselho Especial (CMCE): Órgão consultivo ligado à Presidência com poder de avaliar se fusões e aquisições ameaçam a segurança econômica ou geopolítica do país, garantindo soberania sem gestão estatal direta.
Os principais projetos em terras raras
Aclara Resources (Projeto Carina – GO)
Investimento: R$ 3,5 bilhões (US$ 582,3 milhões).
Empreendimento em Goiás com tecnologia sustentável para extração de terras raras pesadas de argilas iônicas, contando com suporte financeiro do governo americano e foco em uma solução integrada da mina ao ímã.
Serra Verde (Mina Pela Ema – GO)
Investimento: R$ 14 bilhões na aquisição pela USA Rare Earth.
Única operação comercial ativa no país, focada em argilas iônicas ricas em elementos magnéticos, com fornecimento exclusivo de 100% da produção para a base industrial e militar dos EUA por 15 anos.
Terra Brasil Minerals (Alto Paranaíba – MG)
Investimento: Até R$ 3,1 bilhões.
Projeto integrado que une a produção de terras raras à fabricação de fertilizantes fosfatados, visando agregar valor localmente e reduzir a dependência de importações estratégicas para o agronegócio nacional.
Meteoric Resources (Projeto Caldeira – MG)
Investimento: R$ 2,3 bilhões
Detém o depósito de argila iônica de maior teor do mundo fora da China, em Poços de Caldas, com status de prioridade estratégica estadual para iniciar a produção comercial até 2028.
Viridis Mining & Minerals (Projeto Colossus – MG)
Investimento: R$ 1,8 bilhão.
Exploração de argilas iônicas no complexo alcalino de Poços de Caldas, utilizando processamento simplificado sem barragens de rejeitos para produzir carbonatos de terras raras de alta pureza.
St. George Mining (Projeto Araxá – MG)
Investimento: Até R$ 1,3 bilhão.
O projeto integra a exploração de nióbio e terras raras, prevendo a criação de um laboratório-fábrica de ímãs permanentes em parceria com instituições tecnológicas locais.
Atlas Critical Minerals (MG/GO)
Investimento: Pelo menos R$ 1 bilhão.
Empresa listada na Nasdaq (bolsa de tecnologia americana) que desenvolve ativos em Minas Gerais e Goiás, atualmente focada em testes laboratoriais e definição de rotas de processamento químico para iniciar operações em 2028.
Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br