A votação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sobre novas regras para manipulação de canetas emagrecedoras foi adiada nesta quarta-feira (6) por pedido de vista apresentado pelo diretor Thiago Campos.
O relator do processo, Daniel Meirelles, sugere, entre outros pontos, que o INCQS (Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde) passe a avaliar a matéria-prima que é importada pelas farmácias, análise hoje feita por laboratórios privados. Também propõe prazo de 180 dias para adequações às novas regras.
A proposta foi criticada por representantes da indústria e de associações médicas, que pedem proibição total da venda dos produtos manipulados. O texto, porém, também desagradou às farmácias de manipulação, que dizem que as medidas sugeridas podem restringir o acesso aos produtos e favorecer a importação de medicamentos falsificados e do Paraguai.
Ao pedir vista, o diretor Thiago Campos disse que a matéria “carece de aperfeiçoamento”. “Ponto muito central para mim que chama a atenção: o rito do processo regulatório e o prazo para a entrada em vigor”, disse ele, que terá o prazo de duas reuniões da agência para apresentar um voto alternativo.
A discussão da agência se dá em meio à explosão do consumo e de investigações da Polícia Federal sobre farmácias que atuam como uma indústria paralela ao fabricar em larga escala e sem controle de qualidade adequado.
O debate da Anvisa mira um mercado paralelo ao dos medicamentos registrados pela agência, conhecidos por marcas como Ozempic (semaglutida, da Novo Nordisk), Mounjaro (tirzepatida, da Eli Lilly).
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As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. No caso do produto feito em farmácia de manipulação, os emagrecedores costumam ser vendidos diretamente por clínicas médicas.
Durante a reunião da Anvisa, representantes de sociedades médicas disseram que não há razão terapêutica que justifique a manipulação dos emagrecedores. Ainda criticaram o modelo de venda dos produtos por clínicas.
O vice-presidente da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), André Vianna, disse que as farmácias atuam como indústria paralela e com “falhas de segurança”. Ele afirmou que clínicas cobram para aplicar o remédio que poderia ser utilizado em casa pelo paciente. “Entra em conflito com o código de ética médica, distorce a prática médica. Transforma tratamento em serviço recorrente e com interesse financeiro.”
O diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), Clayton Macedo, afirmou que drogas que não conseguem registro da Anvisa acabam entrando na “cadeia” das farmácias de manipulação. O cenário cria “assimetria” e expõe a população a riscos, afirmou.
Já representantes das farmácias disseram que os estabelecimentos cumprem requisitos técnicos e que restringir a manipulação irá fortalecer o mercado de produtos falsos e importados do Paraguai.
A representante do CFF (Conselho Federal de Farmácia), Patricia Giordani, argumentou que manipulação não é um “desvio do sistema”, mas “resposta concreta a uma lacuna assistencial”. “O que os senhores desejam? Que tenhamos produtos, aí sim falsificados, irregulares e oriundos do Paraguai?”, disse durante a reunião.
Renata Cunha Lourencini, representando a ICLPharma, afirmou que existe forte investimento das farmácias de manipulação e que a produção é segura. Ela disse que a manipulação é o caminho encontrado para acesso mais barato aos emagrecedores, pois os medicamentos da indústria têm preço “inviável”, e acrescentou que restrições podem favorecer o mercado de “falsificados”.
As representantes das farmácias de manipulação criticaram ainda a exigência de análise do INCQS, laboratório que é ligado à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), e da apresentação de CBPF (Certificado de Boas Práticas de Fabricação) emitido pela Anvisa sobre locais de fabricação da matéria-prima. Elas disseram que a indústria não recebe as mesmas cobranças.
Durante a reunião, o presidente executivo do Sindusfarma ( Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), Nelson Mussolini, declarou que a manipulação é um “grande absurdo” e que a entidade estima que 5 milhões de pessoas usam esse tipo de produto no Brasil. Afirmou ainda que existe risco de um problema “mais grave do que uma pandemia”. “Não é porque estamos em período eleitoral que não podemos proibir estes produtos.”
As medidas foram sugeridas pelo diretor Meirelles em proposta de instrução normativa. O texto também proíbe a farmácia de “estimular a demanda, ofertar ou sugerir tratamentos” com produtos manipulados. Reforça ainda que os emagrecedores só podem ser formulados após o estabelecimento receber a prescrição médica individualizada.
Inicialmente, a votação sobre as novas regras estava marcada para o dia 29 de abril, mas a agência adiou a reunião por divergências entre os diretores sobre o controle das importações de insumos. A proposta inicial permitia a análise de laboratórios privados. O texto, no entanto, foi alterado para estabelecer que caberá ao INCQS avaliar os ingredientes.
O relatório apresentado por Meirelles também sugere que os lotes de insumos farmacêuticos importados devem ficar retidos até a liberação do laudo do instituto ligado à Fiocruz. A regra atual permite a retirada da carga antes da análise final, sob termo de responsabilidade.
O texto apresentado também estabelece que o INCQS apresentará em 90 dias as metodologias de avaliação dos insumos. O órgão dá 180 dias para as empresas se adequarem às novas exigências para importação. Durante o período de transição, as análises poderão ser feitas por empresas privadas, e os lotes já comprados poderão ser utilizados até o fim.
Fonte ==> Folha SP