Brasília – Embalado pelo bom desempenho dos quatro primeiros certames do principal programa focado em atrair capital externo para financiar a transição ecológica, o governo se prepara para realizar o próximo leilão Ecoinvest em julho, tamanho é o apetite crescente dos investidores, sem descartar o sexto ainda neste ano.
Participam do programa os maiores bancos do país, que disputam entre si o direito de ofertar crédito voltado para a sustentabilidade, com apoio de uma parte de recursos públicos.
Em entrevista ao NeoFeed, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, à frente da pasta há pouco mais de um mês e braço-direito de toda uma vida da ex-ministra Marina Silva, fez um balanço do programa.
Somado com o Fundo do Clima – outra fonte de recursos para financiamentos com viés climático (descarbonização, recuperação de áreas degradadas e práticas sustentáveis) -, o Ecoinvest já acumulou R$ 216 bilhões de recursos privados. Um volume surpreendente, diz ele.
“Vamos aguardar esse quinto leilão, verificar como evolui. Mas assim como não tem um sexto leilão previsto ainda, também não tem uma decisão por enquanto de que não haverá”, afirma Capobianco. “Quanto melhor a resposta das instituições financeiras e do setor privado, maior é o estímulo para a gente avançar.”
Entre as 12 instituições financeiras que já deram lances e abocanharam os recursos ofertados pelos leilões do Ecoinvest estão: Itaú, Bradesco, Caixa, Banco do Brasil, BNDES, Santander, HSBC, BTG, Citibank, Safra, Rabobank e ABC. Elas disputam o direito de aplicar os recursos dentro de carteiras com clientes já selecionados.
O grande sucesso dos leilões na visão de Capobianco é a oferta de recursos públicos a juros baixos, mas com exigência de alavancagem pelos bancos. Para cada R$ 1 de dinheiro público envolvido, as instituições precisam alocar R$ 3. No quarto e mais recente leilão, no entanto, essa relação foi ainda maior: chegou a 4,5 vezes.
No próximo leilão (o quinto), o programa ainda terá um grande foco em inovação, como por exemplo no investimento a projetos relacionados aos minerais críticos. Questionado se o Ecoinvest ajudará a financiar a exploração de terras raras, ele responde:
“Sem dúvida, não só pelo Ecoinvest, mas com recursos do Fundo Clima também. Na realidade essa é uma aposta nossa. O Brasil pode desenvolver uma indústria que processe, agregue valor aos minerais críticos que ele dispõe, evitando de entrar numa fase de exportador”.
Capobianco também informou que a agenda de transição ecológica do governo ainda prevê mais ações neste ano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve editar em breve um decreto regulamentando o pagamento por serviços ambientais, que já está na Casa Civil. E o TFFF (Fundo Florestas Tropicais Para Sempre), grande novidade da COP-30 em Belém (PA) no ano passado, deve ser estruturado até o fim do ano “com certeza”, com expectativas otimistas por enquanto de alcançar US$ 10 bilhões em negociações em curso com os países – já foram acordados US$ 6 bilhões.
Por fim, Capobianco também disse que o governo não vai interromper o processo de licenciamento ambiental da BR-319, rodovia polêmica na região da Amazônia, que aguarda mais de 40 anos para ser totalmente duplicada. “Agora, o DNIT vai encaminhar as informações para a licença de instalação. É um processo que deve acontecer nos próximos meses. Mas não estamos trabalhando para dispensar licença de forma alguma.”
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:
O governo acaba de anunciar o 5º leilão do Ecoinvest. Qual será o foco dele e a estimativa de negócios?
O Ecoinvest tem sido tão bem-sucedido que estamos até superando as expectativas. Os quatro primeiros foram super bem-sucedidos, com alavancagem alta. É difícil dizer que esse será o último. As instituições financeiras estão bem interessadas, investindo, fazendo ofertas relevantes. Isso significa que o setor privado está muito interessado. As alavancagens são significativas porque têm nos seus portfólios empresas interessadas em captar esse recurso. No Ecoinvest também tem recursos do Fundo Clima, para investimento de empresas, e lá também é impressionante o apetite do setor privado por projetos na linha de transformação ecológica, que vão ao encontro dessa estratégia que lançamos com a Fazenda para estimular um redirecionamento dos investimentos.
“As instituições financeiras estão bem interessadas [no Ecoinvest], investindo, fazendo ofertas relevantes”
Qual é a principal aposta?
Estamos apostando tanto em linhas de inovação quanto nas prioridades do que é estabelecido pelo Fundo Clima. E apoiando iniciativas de empresas com capital privado próprio nacional e internacional e fazendo alavancagem relevante para esses projetos na linha da transformação ecológica, economia de baixo carbono, investimentos em restauro, eletrificação, conservação. Nós reformulamos o Fundo Clima e tinha tempo que não fazíamos isso no Brasil, revisamos a NDC, e agora temos que criar mais oportunidades para atrair capital nacional e internacional de peso.
Quanto esses leilões já movimentaram de crédito “verde” para as empresas?
Lançamos o Ecoinvest em outubro de 2024 já com R$ 45 bilhões, com destaque para saneamento e produção de biocombustíveis. O segundo leilão foi em abril de 2025 (R$ 30 bilhões), voltado para recuperação de pastagens degradadas, um programa bem ambicioso que focou em áreas convertidas no passado com baixíssima utilização e produtividade na pecuária e a ideia foi oferecer recursos para estimular empreendedores do agronegócio para restaurar essas áreas e reduzir o aumento de novas fronteiras agrícolas. Em outubro de 2025 veio o terceiro, foram mais R$ 53 bilhões. Com os três primeiros leilões tivemos R$ 127 bi: R$ 56 bilhões só de investimentos externos e envolvimento de 12 instituições financeiras. Estamos falando de recursos de ponta, de investimento privado nessa nova economia. Aí tivemos o quarto leilão de bioeconomia, em que alavancamos R$ 13,2 bilhões.
Não tinha espaço para mais recursos?
Podíamos ter alavancado mais, mas fomos mais exigentes e decidimos privilegiar bancos com uma alavancagem maior. Os com alavancagem menor não foram contemplados. Mas do ponto de vista do turismo sustentável, infraestrutura verde na Amazônia, essas novas áreas que financiamos, seria muito significativo [uma alavancagem maior]. Então somando esses quatro leilões, estamos falando de R$ 140 bilhões, mas também temos o Fundo Clima.
Somando o Fundo Clima, quais os resultados dessas linhas de financiamento sustentáveis com apoio do governo?
O Fundo Clima foi criado em 1998 e até 2023 operava recursos na ordem de R$ 400 milhões, com apoio do BNDES. Em 2024, fizemos uma aposta de lançar títulos soberanos para alavancar recursos no mercado internacional, fizemos uma oferta de US$ 2 bilhões e recebemos US$ 6 bi, com muitas dúvidas se haveria interesse das empresas de captar esse recurso, se o BNDES conseguiria operar rapidamente, mas foi ótimo. Já em 2025, fizemos uma aposta de aumentar a oferta de títulos, o processo avançou e em 2026 nosso orçamento é de R$ 24 bi no Fundo Clima, além do Ecoinvest. O volume de recursos é muito positivo. Juntando os dois, estamos falando de R$ 216 bilhões disponibilizados por instituições financeiras em investimentos nessas novas oportunidades.
“Em 2024, fizemos uma aposta de lançar títulos soberanos para alavancar recursos no mercado internacional, fizemos uma oferta de US$ 2 bilhões e recebemos US$ 6 bi”
É um volume significativo?
É um volume surpreendente e realmente uma mudança de paradigma. Na questão da bioeconomia os recursos são bastante interessantes também: socioeconomia, recuperação madeireira; turismo de base sustentável; infraestrutura de saneamento, energia e transporte fluvial para a Amazônia; bioindustrialização. É um conjunto de iniciativas bem inovadoras, envolvendo investimento privado.
E as expectativas com o 5º leilão?
Será um leilão bastante focado na aceleração da inovação para competitividade. Queremos fazer em julho. Ele foca muito em adensamento tecnológico, em soluções de inovação, nessas linhas de investimento climático. As prioridades do novo leilão são na linha de vanguarda tecnológica: insumos verdes, sistemas de baterias de veículos com os minerais críticos. O papel dos minerais críticos é apoiar as empresas que beneficiam baterias e produção de veículos elétricos. E estamos abrindo oportunidades para combustíveis verdes avançados, como SAF, biogás e biometano. Tem a parte da química verde também, com as embalagens sustentáveis. E investimento em automação e resíduos sólidos urbanos industriais, biológicos.
Qual será a característica?
Esse quinto leilão vai ter mais uma pegada de estimular, inclusive de aumentar o apetite por inovação, com possibilidade de arriscar mais. Com o governo oferecendo condições para avançar a barreira que muitas vezes leva ao fracasso da inovação do Brasil. Inovação depende de capital de risco e a ideia do novo leilão é apoiar na mitigação do que a gente chama de “Vale da Morte Tecnológico”, as empresas que não conseguem sair do projeto inovador e chegar ao mercado. Então é uma aposta bem interessante.
Haverá mais recursos públicos para garantir esse risco maior?
Também. Na realidade, a ideia é fazer um mix onde você tem recursos públicos a juros mais baixos, mas exigindo a alavancagem. A instituição tem que oferecer recursos. Nesse caso do quinto leilão, a gente indica que pelo menos 10% do portfólio da instituição financeira seria pra contratar instituições acadêmicas. Porque outro desafio grande no Brasil é aproximar a academia das ações de inovação, as patentes que não se transformam em processos produtivos e não chegam ao mercado. E queremos que pelo menos 20% sejam investidos em baixa maturação tecnológica. Esse novo leilão está voltado mesmo para inovação, para investimentos em projetos ainda no início do seu ciclo, para pequenas startups. É uma aposta na inovação para que o Brasil tenha mais patentes.
“Esse novo leilão está voltado mesmo para inovação, para investimentos em projetos ainda no início do seu ciclo, para pequenas startups”
Com esse apetite todo do empresário que vocês vêm percebendo, o governo pretende lançar mais leilões este ano?
Esse assunto é permanente com a Fazenda, porque a resposta tem sido muito positiva. Não dá para cravar que terá mais leilões. Vamos aguardar esse quinto leilão, verificar como evolui. Mas assim como não tem um sexto leilão previsto ainda, também não tem uma decisão por enquanto de que não haverá. Quanto melhor a resposta das instituições financeiras e do setor privado, maior é o estímulo para a gente avançar.
Os bancos vencedores podem desempenhar um papel de financiadores de minerais críticos por meio desse leilão?
Sem dúvida, não só pelo Ecoinvest, mas com recursos do Fundo Clima também. Na realidade essa é uma aposta nossa. O Brasil é um país muito rico em minerais críticos, tem uma das maiores jazidas, e a ideia é que adquira capacidade no menor prazo possível para dominar a cadeia de beneficiamento, e a produção de baterias, ímãs e de todo esse material mais sofisticado feito a partir de minerais críticos.
É um mercado que o País deve apostar?
O Brasil pode desenvolver uma indústria que processe, agregue valor aos minerais críticos que ele dispõe, evitando de entrar numa fase de exportador. O presidente Lula e nós ministros temos repetido que os minerais essenciais para toda a transformação tecnológica no país, baixo intensivo em carbono, vai exigir soluções que utilizem minerais críticos no nosso processo. A ideia é exatamente essa. Mas claro que haverá investimentos em extração também.
O MMA negociou contrapartidas ou ressalvas ambientais no projeto de minerais críticos? Qual é a sua avaliação sobre o texto que está sendo votado no Senado?
O texto vai na nossa mesma linha [do governo] de estimular o processamento e a industrialização no País, ter uma ação organizada em relação à exploração de uma forma mais estratégica. Vai ter um comitê que vai atuar nisso e todas as questões ambientais estão consideradas. É um projeto que visa organizar a forma como essa nova oportunidade será aproveitada e desenvolvida no Brasil.
“O Brasil pode desenvolver uma indústria [de minerais críticos] que processe, agregue valor aos minerais críticos que ele dispõe, evitando de entrar numa fase de exportador”
O Comitê de Minerais Críticos vêm sendo alvo de críticas das empresas. Você o defende?
Sim. Acho que o texto está bom, ficou interessante.
O Ecoinvest está inserido em uma lógica maior de agenda econômica do governo. Quais outros programas estão previstos para acontecer este ano?
Estamos trabalhando numa perspectiva de instrumentos econômicos que estimulem a recuperação de áreas degradadas e num programa bastante intenso de financiamento de restauro ambiental, com regulamentação do mercado carbono que vai trazer oportunidades para as empresas que vão entrar. Tem uma percepção grande do setor privado também de que há grandes oportunidades nesse campo. E queremos avançar nesse ponto: trabalhar com mercado de carbono para que ele dê um “plus” nesse processo. Vamos regulamentar a lei de pagamento de serviços ambientais este ano também, estamos trabalhando num decreto, que pode exigir ajustes, mas já está na Casa Civil.
Quais são os ajustes?
Estamos avançando também com as Cotas de Reserva Ambiental (CRA), que está indo muito bem, sempre na linha de premiar quem faz mais que o mínimo previsto pela lei (quem tem excedente vegetal pode certificar sua cota, oferecer isso para a compensação de outras propriedades que não têm e isso gera remuneração). E temos a perspectiva de criar, em breve, novos estímulos para as propriedades rurais, em discussão com a Fazenda, para termos alguma melhoria nos juros para proprietários rurais que tenham excedente de reserva legal em suas propriedades.
Isso seria no novo Plano Safra, que o governo via lançar para o próximo ano agrícola (2026/27)?
Isso, no âmbito do Plano Safra. Em 2023, já criamos um redutor de 0,6% para quem faz práticas de baixo carbono, usa bioinsumos, na direção do aprimoramento produtivo. E tivemos também 0,5% de redução de juros com propriedades com CAR [Cadastro Ambiental Rural]. E agora queremos ter essa linha com diferencial para quem tem excedente legal. Quem preservar mais terá vantagem econômica.
Mas a Fazenda topou?
Estamos trabalhando e depende ainda de alguns cálculos. O debate vai evoluindo positivamente. Talvez o mais inédito no Brasil seja essa parceria estratégica entre ministérios do Meio Ambiente e Fazenda, que tem até servido de exemplo para alguns países, que se surpreendem. Geralmente as pastas têm posições bastante controversas, mas temos exemplos como o TFFF [Fundo Florestas Tropicais Para Sempre], que foi uma ideia original do MMA, mas toda a estruturação do Fundo coube à Fazenda. O que estamos fazendo é aproximar a agenda ambiental da econômica, construindo incentivos que redirecionem para uma economia de baixo carbono e ambientalmente responsável.
Como estão sendo as negociações em torno do TFFF? O governo vem conversando com mais países em busca de adesão?
Está avançando, está caminhando no Banco Mundial, que vai fazer a gerência do Fundo. Estamos trabalhando na estruturação do Fundo, criando um “board” para cuidar da gestão do Fundo. São vários processos bastante adiantados que estamos avançando e isso traz a segurança para avançar em novas parcerias. Estamos discutindo com vários países já. Até o fim do ano queremos chegar a US$ 10 bilhões para que o Fundo decole e já temos US$ 6 bi compromissados. Até o fim do ano ele estará estruturado, com certeza. Estamos bastante otimistas, porque essa reestruturação é bem importante.
Como está sendo a mudança na legislação do licenciamento ambiental, tão criticada pelo Ministério do Meio Ambiente? O Conselho de Governo que deve agilizar as licenças de obras estratégicas já está funcionando?
}A lei está sendo implementada. Ainda não tivemos o Conselho instituído e a princípio seguimos nos procedimentos regulares. Um exemplo é a BR-319: ali o governo não vai interromper o processo de licenciamento. A licença prévia foi judicializada. Agora, o DNIT vai encaminhar as informações para a licença de instalação. É um processo que deve acontecer nos próximos meses. Mas não estamos trabalhando para dispensar licença de forma alguma, mas também existe judicialização.
Qual a previsão para que o governo faça suas propostas para um mapa do caminho para que o Brasil não seja mais dependente de combustíveis fósseis?
Estamos avançando no ajuste dos quatro ministérios (Minas e Energia, Fazenda, MMA e Casa Civil). A expectativa é que a gente encaminhe para o CNPE [Conselho Nacional de Política Energética] em breve para começar o processo. Vamos propor critérios, princípios e orientações para começar o processo. Isso exige análise de cenários econômicos e sociais complexos, o que vai demandar um trabalho intenso. Vai ter inclusive participação social intensa. O que estamos fazendo agora é submeter ao CNPE as diretrizes e o fluxo. Estamos, finalmente. O desafio é pactuar, dar diretrizes, montar todo o fluxo e partir para a elaboração.
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Fonte ==> NEOFEED