Imagina abrir o aplicativo do banco e descobrir que o seu carro elétrico trabalhou e ganhou mais dinheiro do que você naquele dia.
Parece um meme de internet ou papo de coach de investimento, mas algumas empresas estão começando a enxergar carros elétricos quase como “ativos de renda” sobre rodas. A lógica é curiosa: você compra o veículo, outra pessoa dirige, o carro roda o dia inteiro em aplicativos de transporte… E você acompanha os ganhos pelo celular.
E o mais maluco talvez seja perceber que isso não está tão distante da realidade brasileira. Afinal, já faz tempo que existem pessoas alugando carros informalmente para motoristas de aplicativo por aqui. A diferença é que agora começam a surgir empresas criando veículos, baterias, software e toda a operação já pensada especificamente para esse tipo de negócio.
Só que a Bingo resolveu fazer algo diferente: criar uma empresa que já nasce inteira pensada para esse modelo.
O Bingo E2 foi desenvolvido especificamente para abastecer esse mercado. Desde o veículo até o sistema de gerenciamento, tudo gira em torno da ideia de transformar o automóvel em uma ferramenta de renda. Ou seja, gerar renda para você enquanto outra pessoa o utiliza.
A proposta funciona quase como um “imóvel de aluguel”, só que sobre quatro rodas.
Como o Bingo funciona
Segundo o site da própria empresa, o propósito desse serviço é ajudar a criar mais famílias de classe média na África.
Em várias regiões do continente, motoristas de aplicativos trabalham diariamente, mas enfrentam dificuldades causadas pelos altos custos dos veículos, aumento do preço dos combustíveis e dificuldade de acesso a financiamento.
E existe um motivo para o projeto começar justamente em Nairobi, no Quênia. Segundo a empresa, a cidade possui o mercado de transporte por aplicativo mais concentrado da África Subsaariana, demanda enorme, uma população de motoristas buscando veículos mais acessíveis para trabalhar e pouca oferta de elétricos viáveis nessa faixa de preço.
Nesse formato, a empresa afirma que os motoristas conseguem ganhar mais do que o dobro. A lógica é relativamente simples: ao economizar cerca de US$ 11 por dia em custos de energia, o motorista consegue pagar o uso do veículo e ainda aumentar significativamente sua margem de lucro.
Segundo a própria empresa, uma condição financeira mais estável também reduz a rotatividade de motoristas e cria uma operação mais previsível para quem investe nos carros.
Mas também vale um pé no chão aqui.
A ideia é extremamente interessante no papel, mas uma operação desse tamanho depende de uma execução muito bem alinhada para funcionar de verdade. E o próprio mercado brasileiro já mostrou como projetos ligados à infraestrutura de troca de baterias podem enfrentar desafios complexos.
Um exemplo foi a Voltz, que tentou implementar parte dessa lógica no Brasil com bases de troca de baterias para motos elétricas. A empresa enfrentou problemas ligados à cadeia de suprimentos, atrasos nas entregas, falhas na operação das estações de troca e dificuldades relacionadas a peças e suporte. Isso acabou impactando diretamente a confiança dos consumidores.
E é justamente aí que esse modelo de negócio entra em uma fase delicada. Porque, quando falamos de um formato em que pessoas compram veículos como investimento esperando retorno financeiro, toda a infraestrutura precisa funcionar quase sem interrupções.
Ou seja: a proposta chama atenção, parece moderna e até bastante inteligente, mas quem decidir entrar em algo assim provavelmente vai precisar acompanhar de perto os primeiros passos da operação para entender se toda essa engrenagem realmente consegue funcionar em escala.
No caso da Bingo, o comprador adquire o carro por US$ 12 mil e disponibiliza o veículo para motoristas profissionais de aplicativos de transporte. Segundo a empresa, o modelo pode gerar até US$ 400 mensais em receita de locação, além de ganhos extras com publicidade instalada dentro do carro, que poderiam chegar a US$ 1 mil por ano.
E talvez a parte mais interessante seja justamente essa: a empresa já vende o veículo praticamente como um ativo de investimento.
O dono do carro consegue acompanhar toda a operação remotamente pelo celular, através da plataforma da empresa. Segundo a Bingo, o sistema permite monitorar localização, pagamentos, desempenho do motorista, saúde da bateria e ganhos em tempo real.
O veículo utiliza um sistema de bateria dupla que permite tanto carregamento rápido quanto troca imediata das baterias. Na prática, o motorista consegue substituir a bateria em aproximadamente dois minutos e voltar quase imediatamente para as ruas.
E aqui existe um detalhe importante: essa ideia não surgiu do nada.
O nascimento
O fundador da Bingo, Daniel Huang, também criou a mophie, conhecida mundialmente no setor de baterias externas para smartphones.
Antes da Bingo, Huang também trabalhou na criação de redes de troca de baterias em 50 cidades, atendendo mais de 100 mil usuários e realizando mais de 500 mil trocas diárias. Inclusive, essas informações estão no site da Bingo e são usadas para reforçar a confiabilidade do projeto. Agora, ele tenta aplicar essa mesma lógica ao transporte comercial de quatro rodas.
A startup também aposta na expansão de pequenas frotas, oferecendo descontos progressivos: 4% na compra de cinco veículos e 8% em dez unidades.
No fim das contas, talvez essa ideia seja menos sobre carros elétricos e mais sobre uma mudança na própria ideia de posse de um automóvel.
Comprar um carro sempre esteve diretamente ligado a dirigir. Agora, algumas empresas começam a tratar o veículo quase como um ativo operacional conectado à economia de aplicativos, gestão remota e geração de renda.
E embora já existam negócios atuando em partes desse mercado, seja com aluguel para motoristas, troca de baterias ou gestão de frotas, o que chama atenção aqui é justamente a tentativa de unir tudo isso em um único ecossistema.
Talvez por isso esse tipo de proposta desperta tanta curiosidade. Porque, no fim, a pergunta deixa de ser “você teria um carro elétrico?” e passa a ser:
você compraria um carro para outra pessoa dirigir… Enquanto ele gera dinheiro para você?
Fonte ==> TecMundo