Crise “silenciosa” do bloqueio em Ormuz encarece lubrificantes e ameaça montadoras

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O Brasil enfrenta uma crise global de escassez de óleos básicos, impactada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz, que compromete a produção de lubrificantes automotivos. O País, que importa 100% dos óleos básicos do Grupo III e 70% do Grupo II, é o quinto maior mercado de lubrificantes do mundo, com uma produção anual de 1,7 bilhão de litros. A interrupção do tráfego em Ormuz e bombardeios a refinarias na Rússia e Catar desorganizaram o fluxo global, elevando os preços e criando dificuldades para montadoras e concessionárias.

Embora a crise ainda não tenha causado desabastecimento imediato, uma montadora já estaria enfrentando dificuldades de estoque. O mercado de lubrificantes é dominado por cinco grandes empresas que controlam 70% da produção, enquanto fabricantes menores sofrem com a falta de matéria-prima. A situação tende a se agravar com a continuidade do bloqueio.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

O Brasil entrou no centro de uma crise global silenciosa, efeito do conflito entre Estados Unidos e Irã, desta vez com impacto na cadeia de óleos básicos, que ameaça a fabricação de lubrificantes automotivos premium no País.

A interrupção prolongada do tráfego no Estreito de Ormuz — gargalo estratégico por onde passava até 30% da produção mundial de óleos básicos — desencadeou uma escassez sem precedentes desses insumos essenciais para a fabricação de lubrificantes automotivos e industriais.

O alerta é de Gabriella Twining, responsável por precificação de óleos básicos da Argus – plataforma britânica de inteligência para os mercados globais de energia e commodities. A crise, que já começou a afetar o fornecimento de lubrificantes premium para veículos de luxo na Europa e nos Estados Unidos, agora ameaça avançar sobre mercados emergentes.

“Nenhum país sofre de forma tão desproporcional com o gargalo de óleos básicos quanto o Brasil”, afirma Twining ao NeoFeed. Segundo ela, os óleos básicos representam cerca de 90% do volume dos lubrificantes, daí o risco em torno do fornecimento desses insumos.

O impacto desse gargalo é relevante pela posição de destaque do País, quinto maior mercado de lubrificantes do mundo, com um volume de produção anual de aproximadamente 1,7 bilhão de litros. Com adoção mais lenta de veículos totalmente elétricos e a preferência por híbridos — que ainda consomem lubrificantes — , o consumo do produto no Brasil deve crescer o dobro da média global.

Divididos em três categorias, os óleos básicos do Grupo I são os mais simples e menos refinados. Os do Grupo II passam por processos que aumentam a pureza e o desempenho, e os do Grupo III são altamente refinados, com maior estabilidade e usados em lubrificantes sintéticos de alta performance, utilizados há dez anos pela indústria automotiva nacional para os veículos de passeio.

A última embarcação com óleos básicos deixou Ormuz no fim de fevereiro. Desde então, o fluxo global se desorganizou. Bombardeios a refinarias na Rússia e a uma grande unidade que refina óleos básicos do Grupo III no Catar comprimiram a oferta global. A procura pelo insumo VGO (Vacuum Gas Oil), matéria-prima também usada para produzir diesel — cujo mercado está pressionado —, contribuiu para encarecer ainda mais o custo dos óleos básicos.

Para o Brasil, o impacto é direto: o País importa 100% de suas necessidades de óleos básicos do Grupo III e cerca de 70% do Grupo II, tradicionalmente abastecidos pelos Estados Unidos.

“Mas os EUA também foram atingidos: cerca de metade do suprimento americano de Grupo III vinha de Ormuz”, revela a especialista da Argus. “Com o bloqueio, refinarias do país tiveram de reconfigurar operações para tentar produzir mais Grupo III internamente.”

A produção brasileira é liderada pela Petrobras (Grupo I) e pela Lwart (Grupo II). Os óleos básicos importados do Grupo III são, portanto, os mais vulneráveis a choques externos de abastecimento.

Risco

De acordo com Twinning, as grandes empresas globais do setor já estão tendo dificuldades de fornecer lubrificantes para montadoras, e as concessionárias dos Estados Unidos e países da Europa também não recebem todo o volume necessário de lubrificantes prontos.

“O quadro é de tendência de escassez global de lubrificantes sintéticos acabados — um gargalo que começa a afetar linhas de montagem e serviços de pós-venda”, assegura.

A boa notícia é que, aparentemente, o risco de desabastecimento de lubrificantes para a indústria automotiva nacional ainda não é imediato. O NeoFeed apurou que, na Anfavea, associação que reúne as montadoras nacionais, por enquanto não há notícia sobre eventuais problemas envolvendo fornecimento de lubrificantes para suas associadas.

Mais recentemente, porém, fontes do setor afirmaram que a Stellantis estaria tendo dificuldades de manter o estoque de lubrificantes para a linha de montagem e concessionárias. Procurada, a montadora não retornou ao pedido de entrevista.

Em 2025, o mercado nacional de lubrificantes movimentou cerca de R$ 25 bilhões, de acordo com a FactorX Consultoria Estratégica. Por causa do aumento de preço de óleos básicos, seguro e frete, os preços dos lubrificantes têm recebido aumentos de dois dígitos desde março.

Sérgio Rebêlo, CEO da FactorX, afirma que o mercado brasileiro de fabricantes de lubrificantes premium é altamente concentrado. Cinco gigantes — Vibra, Iconic, Moove, Raízen e Petronas, associadas às “majors” do setor de óleo e gás, com acesso a fontes de matéria-prima, tecnologia de última geração e marcas internacionais — detêm cerca de 70% do mercado desse produto.

“Com contratos de longo prazo e acesso privilegiado a cadeias globais, as cinco grandes mitigam a escassez e priorizam grandes clientes, como montadoras, com contratos firmes”, diz Rebêlo.

Todas são conhecidas pelas marcas de lubrificantes que produzem. A Vibra (ex-BR Distribuidora) opera a marca Lubrax. A Iconic, joint-venture entre Ipiranga e Chevron, é responsável pela produção das marcas Ipiranga e Texaco no Brasil. A Moove (Grupo Cosan) é licenciada da ExxonMobil para produzir e comercializar a marca Mobil no Brasil e em outros países. A Raízen faz o mesmo com lubrificantes sob licença da Shell.

“É por essa razão que a crise dos óleos básicos ainda não afetou, de forma direta, o fornecimento de lubrificantes para a cadeia da indústria automotiva nacional”, acrescenta Rebêlo.

Fabricantes menores (30% do mercado), por sua vez, dependem de excedentes de óleos básicos importados das cinco grandes. “Na crise, as líderes cortaram essa distribuição para garantir seu próprio suprimento, deixando as menores em situação dramática por falta de matéria-prima”, revela o especialista.

Além da Stellantis, o NeoFeed procurou a Raízen e a Iconic, mas as duas empresas também optaram por não se pronunciar sobre o tema. Independentemente de o risco de desabastecimento de lubrificantes ainda ser baixo no País, tende a crescer a cada mês a mais de bloqueio no Estreito de Ormuz.



Fonte ==> NEOFEED

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