A carteira de crédito consignado privado no Brasil já cresceu cerca de R$ 100 bilhões desde que as novas regras do setor passaram a valer, em março de 2025. Segundo o Banco Central, o saldo do consignado privado estava na casa dos R$ 40 bilhões naquele mês. Hoje, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o volume já soma R$ 140 bilhões.
Até então, o consignado privado dependia de convênio prévio entre a empresa e a instituição financeira — um modelo bilateral que restringia o produto a poucas grandes companhias.
Com a integração ao eSocial, qualquer trabalhador com carteira assinada passou a poder contratar o crédito diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital, com desconto automático em folha e garantias adicionais, como o saldo do FGTS e parte da multa rescisória em caso de demissão.
O crescimento acelerado transformou o consignado privado em um dos mercados mais disputados do crédito brasileiro, atraindo de grandes bancos tradicionais a fintechs e gestoras especializadas. Ao todo, são 104 bancos operando a modalidade, segundo o MTE, com 23 milhões de contratos já firmados com mais de 10 milhões de trabalhadores.
Itaú, Banco do Brasil, Santander e Bradesco possuem algumas das maiores carteiras de crédito consignado, ainda segundo o MTE: R$ 17 bilhões, R$ 12 bilhões, R$ 7 bilhões e R$ 4 bilhões, respectivamente. Banco Pan, com R$ 8 bilhões nessa estrutura, e C6, com R$ 6 bilhões, também aparecem como instituições relevantes.
O maior destaque da lista, porém, não é um banco, e sim uma fintech. Trata-se da Parati Financeira, braço da meutudo, que origina as operações. A companhia, junto com o Itaú, é o maior player desse mercado, com uma carteira de R$ 17 bilhões em consignado privado.
A meutudo é uma fintech de crédito que nasceu operando consignado em 2017 — inicialmente só na modalidade pública, com foco em INSS e servidores — e passou a operar o consignado privado logo quando saiu a nova regulamentação, em março do ano passado.
Daniel Mello, da meutudo, conta que, mesmo após o forte crescimento em pouco mais de um ano de vigência da nova regulamentação, ainda vê um grande espaço de crescimento nesse mercado.
“Estamos falando de 47 milhões de empregados. A penetração é de, no máximo, 20% desse mercado”, diz Mello. Um dos principais usos, segundo ele, tem sido o refinanciamento de dívidas mais caras, como aquelas atreladas ao crédito pessoal.
“Eu acho que esse é o principal ganho do produto para o cliente: sair do cartão de crédito e do cheque especial para ter uma dívida ali com taxas mais justas.”
Para financiar essa carteira, a Parati opera por meio de FIDCs — fundos de investimento em direitos creditórios — geridos dentro da estrutura do BTG Pactual. A fintech entra como cotista da parcela subordinada dos fundos, a fatia de maior risco da estrutura, por ser a primeira a absorver eventuais perdas da carteira, mas também a que capta a maior rentabilidade.
O uso de FIDCs — classe de fundos que quase quadruplicou desde 2019, chegando a R$ 770 bilhões — é o que tem aberto os olhos de diferentes gestoras para esse mercado em potencial. É o caso da Neo Investimentos, gestora independente de 23 anos que passou a montar sua estrutura de crédito privado justamente por meio de FIDCs de consignado privado.
A casa iniciou a frente de crédito em 2024, com um time trazido do Itaú e da XP, e hoje aponta o consignado privado como sua maior estratégia dentro da área — à frente, inclusive, de special situations, precatórios e recuperação de créditos inadimplidos.
Para Arnaldo Braga Neto, sócio e responsável pela área de crédito da Neo Investimentos, o produto reúne hoje o melhor risco-retorno do crédito no Brasil. Uma das vantagens, diz, é o menor custo de aquisição do crédito.
“No consignado público, você necessariamente precisa pagar um originador que fica com um pedaço grande da remuneração. No consignado privado, como você tem um mecanismo de leilão, você tem a opção de pagar um originador ou não. Então, o custo de aquisição do cliente é muito menor”, afirma.
Segundo Rodolfo Wassano, sócio responsável pela área de crédito da casa, a gestora ainda não fez nenhum desembolso na tese, mas já monitora o mercado de perto há mais de um ano e está em fase de negociações com potenciais originadores. “A gente adora pegar originadoras que são formadas por pessoas que têm experiência no segmento, mas que estão montando o negócio agora”, afirma.
Para a ARZ, o interesse na modalidade está ligado à sua tese de pulverização de risco, que possibilita análises estatísticas. Em vez de analisar caso a caso, a gestora consegue modelar matematicamente o comportamento histórico da carteira e projetar cenários de estresse com mais previsibilidade.
A decisão de entrar só agora, segundo Wassano, foi proposital, por preferir esperar o mercado amadurecer. No início, conta, o produto enfrentou problemas técnicos que atrasavam o repasse do valor descontado em folha em até 25 dias, em alguns casos.
“Isso entrava como inadimplência na carteira.” Segundo ele, esse gargalo já está bem mais próximo de ser resolvido, com o prazo de repasse hoje na casa de três dias.
Os problemas técnicos, porém, não desapareceram, segundo José Pires Neto, COO da Bull, empresa que fornece infraestrutura B2B para consignado privado. Ele aponta dois gargalos ainda em aberto.
O primeiro está nas empresas de menor porte, que muitas vezes não têm estrutura operacional para processar corretamente o desconto em folha e o repasse. O segundo ocorre quando uma empresa retém o valor descontado do salário do funcionário e simplesmente não o repassa ao credor. Nesse caso, a instituição financeira não tem um título executável contra essa empresa para cobrar o valor.
“Isso gera uma insegurança para quem está no crédito, porque essa empresa ainda não é tão fiscalizada e também não há instrumentos de cobrança efetivos sobre ela”, afirma. Segundo ele, o mercado já debate a criação de um mecanismo que permita a cobrança direta da empresa nesses casos.
Embora considere o mercado promissor e tenha intenção de entrar futuramente, a Integral Investimentos aguarda que algumas dessas arestas sejam aparadas antes.
“O que eu quero entender é a inadimplência desse mercado, porque eu já vi transações com inadimplência da ordem de perto de 50% e transações perto de 10%”, diz Cristiano Greve, head de DCM da Integral Investimentos. “Acho que ainda há uma grande assimetria de informação nesse mercado e um risco com o qual a gente ainda não está confortável.”
Controle de risco
Para operar nesse mercado, bancos e fintechs recorrem a diferentes modelos de avaliação de risco. Há quem compre essa inteligência de crédito pronta — caso de originadores menores que se apoiam em provedores de infraestrutura, como a própria Bull ou a Celcoin, que oferecem dados sobre o risco do trabalhador e do empregador.
Bancos maiores, no entanto, preferem manter esse processo internalizado. É o caso do C6 Bank, que informou, em resposta por escrito à reportagem, avaliar o crédito com base em modelos proprietários, considerando tanto dados do cliente quanto do empregador. De acordo com o banco, a principal variável de risco para essa carteira é o comportamento do mercado de trabalho, especialmente o desemprego, seguido pela saúde financeira da empresa pagadora.
Alterações nas regras do programa também têm impacto direto no apetite pela concessão de crédito. Em abril, entrou em vigor a Resolução CGCONSIG nº 2/2026, que criou dois patamares de taxa: quem contrata com garantia do FGTS acessa um teto fixo de 1,99% ao mês; sem garantia, vale uma fórmula dinâmica atrelada à taxa média do mercado, hoje em torno de 4,98% ao mês.
O efeito apareceu rápido para o setor como um todo. Segundo o Banco Central, as concessões mensais de crédito consignado privado caíram 22,8% entre abril e maio — justamente o intervalo em que a nova regra passou a valer.
O próprio C6 admite que a mudança recente na regulamentação obrigou o banco a ser mais conservador. “Recentemente, a combinação entre os limites de taxa e as regras para utilização das garantias exigiu uma avaliação mais criteriosa de risco”, informou o banco, acrescentando que “segue apostando no consignado privado como uma modalidade importante dentro do portfólio de produtos de crédito”.
O otimismo com o produto também segue forte entre as gestoras. Para Arnaldo Braga Neto, da Neo Investimentos, o consignado privado ainda está longe do teto. Hoje, com saldo na casa de R$ 140 bilhões, ele projeta que o mercado pode mais do que dobrar de tamanho, para cerca de R$ 300 bilhões, em um horizonte de um ano e meio a dois anos.
“Acreditamos tanto nesse produto justamente porque ele não alavanca a pessoa física. Ele substitui uma dívida cara por uma mais barata.”
Fonte ==> NEOFEED

