‘A Última Cova’ mistura cordel e teatro; confira – 07/07/2026 – Mise-en-scène

'A Última Cova' mistura cordel e teatro; confira - 07/07/2026 - Mise-en-scène

O encontro entre a escrita de Newton Moreno, a direção de Ana Rosa Genari Tezza e o fôlego de Marco França dá ao espetáculo “A Última Cova” a energia de uma conversa ao pé do ouvido. Juntos, eles constroem um espetáculo que nos lança de imediato na atmosfera “folhetinesca-melofantástica-cordelística”, onde a dureza de um cemitério paulistano ganha o calor das histórias de assombração e do repente. No palco, a transição entre os sentimentos é rápida: o riso da palhaçaria abre espaço para o sobrenatural, aproximando a peça do realismo mágico latino-americano.

Os cenários e figurinos de Kleber Montanheiro deixam de lado a reprodução fria dos túmulos e apostam em texturas fragmentadas e pequenos vestígios. É como se o chão e as paredes guardassem os segredos de quem já partiu. Essa presença ganha corpo com os bonecos criados por Fernando Gomes; quando entram em cena, as figuras que habitam as memórias do protagonista passam a dividir o ar com quem assiste.

Essa proximidade física se completa com o desenho de luz de Gabriele Souza, que quebra o isolamento da plateia. A iluminação avança pelas poltronas, envolve os corpos e nos puxa para dentro daquela terra revirada, equilibrando o cinza da metrópole com o aconchego das evocações do Nordeste.

No centro desse universo, Marco França dá a Djalma uma vivacidade e um carisma que espantam qualquer morbidez, mantendo distância de estereótipos. O ator conduz a narrativa segurando sua pá “potiguar”, uma ferramenta (que nem é uma pá de verdade) que ganha a dignidade de um instrumento de afeto e justiça. O ritmo da cena é ditado pelo próprio fôlego de França ao tocar o acordeão; o fole abre e fecha como um pulmão extra, em total sintonia com os músicos Bruno Menegatti e Juliano Veríssimo.

Assistir ao espetáculo é acompanhar o instante em que a frieza dos registros burocráticos cede lugar ao direito de lembrar. Quando Djalma desobedece às ordens da administração para acolher a dor das mães enlutadas e dos indigentes, a encenação revela sua verdadeira urgência política. A imagem final do coveiro cavando o próprio destino fica suspensa no silêncio do teatro, lembrando que a memória é o último bastião da nossa humanidade.

Três perguntas para…

… Marco França

De que maneira a bagagem compartilhada — entre você, Ana Rosa e Newton — de vivência em teatros de grupo, que valorizam o tempo, a escuta e a pesquisa continuada, moldou a identidade desse solo?

A bagagem compartilhada com Ana Rosa e Newton, forjada em anos de teatros de grupo que valorizam o tempo, a escuta e a pesquisa continuada, foi fundamental para moldar a identidade desse solo. Essa vivência ensina que o ator não está ali para exibir virtuosismo, mas para servir à história e à plateia, colocando o povo no centro do picadeiro, como bem observou Fernando Neves (um dos fundadores do grupo “Os Fofos Encenam”) ao ver um ensaio aberto.

É nesse espírito que o espetáculo dá voz a um personagem popular e simples, capaz de dialogar com o menino, com o velho, com o trabalhador e com o doutor, exatamente como fazem os grandes brinquedos da tradição popular. Em tempos tão egocêntricos, essa escolha me parece um gesto de resistência e de reencontro com a grande dramaturgia universal, que já estava nos gregos e continua viva em quem sabe contar boas histórias.

E, para mim, Newton é justamente isso: o nosso Shakespeare brasileiro, que escreve com maestria, simplicidade e sofisticação sobre a vida, o amor, a morte e a justiça, tocando no que há de mais humano em cada um de nós.

Além de atuar, você assina a direção musical, canta e toca acordeon ao vivo, acompanhado por músicos no palco. Como as composições originais e o som do fole do acordeon funcionam no espetáculo?

No espetáculo, há ainda uma concertina, um instrumento de fole de fabricação alemã, da mesma família do acordeon, que uso em uma história específica do Maestro Enedino.

Inicialmente, eu tinha a preocupação de não tocar sanfona o tempo todo. Queria liberdade para explorar outros instrumentos e também para não me apoiar na música como um lugar de conforto, que sempre foi um terreno muito potente e cômodo para mim como ator. Busquei, com isso, me desafiar fazendo outras coisas.

Mas a presença do fole acabou sendo essencial. Foi ideia da Ana Rosa contar uma das histórias nos moldes dos causos de Luiz Gonzaga, mantendo um fluxo contínuo de célula harmônica e rítmica enquanto se toca e se narra simultaneamente.

É assim que se dá a história de Petrúcio, por exemplo, e esse momento tem grande identificação com o público, especialmente com quem já teve ou tem um bichinho de estimação. O instrumento traz uma identidade que remete à regionalidade da música nordestina, presente no imaginário coletivo.

Ao mesmo tempo, me preocupei em trazer outras sonoridades, como o marimbau – instrumento concebido por Ariano Suassuna no Movimento Armorial, que comprei exclusivamente para o espetáculo, já pensando na cena em que seria usado. Temos também a rabeca, entre outros timbres. A diversidade sonora é grande, e isso me interessava justamente para investigar novos timbres e ampliar as possibilidades de contar essa história.

Ao falar sobre os cemitérios e a morte, o espetáculo joga luz sobre a “urgência da vida” e sobre figuras marginalizadas da sociedade. Como você enxerga a responsabilidade do ator ao dar voz a esses “invisibilizados”?

Acredito que a experiência coletiva continuada – meu encontro com Ana Rosa e Newton, cada um vindo de grupos que valorizam o tempo e a pesquisa – foi determinante para o resultado do espetáculo. Minha formação se deu nesse lugar: nos 15 anos que passei com os Clowns, e na minha relação com a música. Sou músico antes de ser ator, o que foi completamente ressignificado pelo teatro. Isso só foi possível porque o processo teve tempo – foram dois anos de preparação, escrita, descoberta de linguagem, idas e vindas na construção da dramaturgia.

Esse encontro com a Ana Rosa aconteceu em 2017, quando fui a Curitiba fazer a direção musical do “Hoje é Dia de Rock”, do Gabriel Villela. Conheci a Ave Lola, conheci a Ana, e tivemos uma identificação imediata. Eu vendo o trabalho deles, ela vendo o meu, a forma de trabalhar, de conduzir. Dei oficina para os músicos do grupo lá no espaço deles. Tudo isso fez toda a diferença.

O espetáculo, penso, é um espetáculo de delicadezas. Há nele pequenos sons (os “pins”) que cumprem uma função de marcação e dramaturgia na sonoridade; mesmo sendo sons de baixa pressão, ocupam um espaço enorme com muita ternura. E isso só é possível porque nos debruçamos sobre o tempo, trazendo nossas experiências coletivas. Embora seja um monólogo acompanhado por dois músicos, ele não se sustenta como um solo, é uma arte coletiva, e é nessa tríade que o espetáculo se faz.

Sesc Pompeia | Espaço Cênico – rua Clélia, 93, Água Branca, região oeste. Quarta a sexta, 19h30. A sessão do dia 9 de julho (feriado) acontece às 15h30. Sessão extra no dia 30, às 15h30. Até 31/7. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (credencial plena) em sescsp.org.br ou nas bilheterias das unidades



Fonte ==> Folha SP

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