Pensar no meu obituário mudou a direção da minha vida – 25/09/2026 – Morte Sem Tabu

Não há nada mais universal do que a morte. Desde o primeiro respiro, todos carregam consigo a certeza de que o derradeiro fim haverá de chegar.

Entre o tempo de nascer e o tempo de morrer, a única coisa que nunca vai mudar é que tudo muda o tempo todo. O mundo é mutável, somos mutáveis, os fenômenos da vida funcionam em uma dança recíproca. Dia e noite, alegria e tristeza, frio e calor.

Enquanto escrevo este texto, o que chamo de agora se dissolve diante dos meus olhos num fluxo contínuo, em meio à impermanência que circunda a nossa existência. A inevitabilidade do fim, contudo, continua inabalável.

Foi imaginando (obsessivamente) o próprio fim que angariei impulso para o recomeço que relato abaixo. Pensar que temos um ‘prazo de validade’ joga luz sobre a fragilidade da nossa existência, nos reconecta à realidade nua, amplificada. A vida não é preciosa apesar do nosso tempo ser limitado, mas justamente porque o nosso tempo aqui acaba.

Era julho de 2024. Meu aniversário se aproximava e eu sentia o corpo todo dolorido. Segui a vida normalmente, culpei os astros. Ignorei severamente o calafrio que me invadia. Corrida. Trabalho.

Reuni amigos, família e energias para comemorar meus 34 anos e desabei. Meu começo de ciclo foi o começo do fim. Intercalava crises de choro com tosse e febre. Fui parar no pronto-socorro depois do trabalho e descobri que estava com H1N1 e princípio de pneumonia.

Nessa pausa coercitiva, olhei para a minha vida flutuando como uma ilha num oceano chamado tempo. Saramago acertou em cheio: ‘é preciso sair da ilha pra ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós’. Precisamos de distância, espaço, para enxergar novas perspectivas.

Fui me recuperando ao longo da semana. Num dos passeios com Malu, minha cachorra, tive muita dificuldade de respirar. Sentei-me no primeiro degrau de prédio que vi na frente e comecei a pensar em obituários. Lembrei de Jude Law no filme “Closer”, em que ele interpreta um redator de obituários aspirante a romancista—que nunca virou romancista.

Pensei no meu próprio obituário: ‘Morreu de insuficiência respiratória subindo a Bela Cintra. Foi uma excelente advogada, fez mestrado na NYU, trabalhou em grandes escritórios.’ Se este for o meu fim, vai faltar muita coisa.

Não falo de lugares que gostaria de conhecer, de coisas que gostaria de experimentar, ou de ter uma casa maior. O que me atravessou a alma foi pensar no apagamento de um impulso visceral retido, na morte precoce de um potencial não realizado. Como morrer com um obituário que não alude a partes tão vitais do meu ser? Como a arte, a música, a poesia, a dança?

Nos dias que se passaram, pensei muito em finitude e senti um aperto forte. Um aperto que ia cavando um lugar cada vez mais fundo em mim. Reli as palavras de Mary Oliver em “The Summer Day”, cujo fim é um verdadeiro nocaute existencialista:

‘Diga-me, o que você planeja fazer com sua única, selvagem e preciosa vida?’

Pensei na inevitabilidade da morte e na morte em vida. Assisti repetidamente ao vídeo do Tom Waits declamando “The Laughing Heart”, de Charles Bukowski:

‘Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida…’

Lembrei-me de Patti Smith. Do seu desejo desenfreado de entregar-se como artista que a levou a Nova York no final dos anos 60 para perseguir um voto que havia feito aos 12 anos. Em “Just Kids” ela relata essa epifania numa frase que me marcou profundamente:

‘…secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.’

A ideia do obituário incompleto me atormentava noite e dia. Tão logo recuperei o fôlego, passei a deixar o meu corpo amar aquilo que ama. E a fazer disso um ofício.

Foram tempos de mudar. De casa, cara, calçadas, roupas, esquinas, ares. Tempos de escolher, renunciar, subtrair, renovar, arriscar. Sobretudo de agir, saltar sem ver a rede.

Treinada na advocacia, fiz uma apresentação que chamo de “A Origem”. São 63 slides com intermináveis pesquisas que vão de expressionismo abstrato à elasticidade sonora. Acho que só a minha mãe e amigos muito próximos tiveram paciência de ler.

“A Origem” foi revisada, remodelada e afinada para conceber o projeto artístico LÖU, que reúne múltiplas formas de arte para resgatar o que nos faz verdadeiramente humanos.

Desde que abracei o risco do desconhecido para colocar uma extensão do meu criar neste plano, muita coisa mudou. Adicionei cores e timbres à rotina. Reencontrei o espanto nas coisas triviais. Reaprendi a beleza que nos pertence, despida do que é externo e material.

Fiquei face a face com o erro, chorei de alegria, de emoção, de agonia, de desespero. Honrei as imprevisibilidades do percurso—como frestas por onde se busca a luz. Tenho novos medos, diferentes daqueles que um dia me corroeram por dentro.

Em 2025 eu me mudei no carnaval, me apaixonei e vivi como uma nômade—levando comigo o amor da minha vida, que chegou dias depois do evento de lançamento da LÖU para falar de ideias futuras. A nossa reunião nunca terminou. Dividimos ideias, casa, sonhos e projeto artístico. A explosão criativa continua. A arte nos libera, nos renova, nos perpetua.

O meu obituário, definitivamente, já não é mais o mesmo: Maria foste Maria.

Acredito que o senso de finitude é o que atribui real valor e sentido a cada escolha e afeto que vivenciamos em vida. E aqui não defendo o ‘viver como se não houvesse o amanhã’. Defendo, sim, a busca diária pela vida que nos pertence, com seus reveses, obstáculos e venturas.

Defendo, sobretudo, o direito a um obituário que conte uma história que é mesmo a nossa, com dores e delícias que são mesmo as nossas, atravessando a beleza e o terror decorrentes de escolhas que também são as nossas – rumo a algo maior, que não é útil ou mensurável.

Aos 36 anos, ainda revisito com frequência os meus 63 slides.

São ensaios do meu ‘vir a ser’.

Neste sábado (26), às 17h30, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebe a performance Suíte LÖU, com Andreas Kisser e Maria Grecco. A apresentação é parte do projeto PRISMA, que reúne diferentes linguagens artísticas em uma experiência de escuta, presença e acolhimento. Entrada gratuita.





Fonte ==> Folha SP

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