As previsões de um 2026 de desaceleração da economia global em razão da crise do petróleo, com o fechamento do Estreito de Ormuz, acabaram sendo sobrepostas pelo boom de investimentos das empresas de tecnologia em inteligência artificial (IA), com forte impacto especialmente nas economias americana e asiática.
O diagnóstico é do economista francês Alexandre Drabowicz, Chief Investment Officer (CIO) do Indosuez Wealth Management — braço global de private banking do grupo francês Crédit Agricole, terceiro maior banco do mundo, com sede em Paris e presença em quatro continentes.
“A IA é a tecnologia mais transformadora do nosso tempo e impulsionará a produtividade”, afirma Drabowicz nesta entrevista ao NeoFeed.
De acordo com o executivo do Indosuez — private bank voltado para clientes de alta renda, com uma carteira de € 135 bilhões sob gestão — outros fatores evitaram as previsões de contração econômica global, em especial nos EUA. Ele afirma que os efeitos dos choques tarifários já ficaram para trás e o fluxo de petróleo está sendo retomado por rotas alternativas, o que deve normalizar os preços da commodity.
Com isso, Drabowicz prevê apenas um corte de juros do Fed, em novembro, e uma inflação nos EUA na faixa de 2,5% em 2027. Ele também acredita que, apesar dos aportes massivos das big techs, o retorno dos investimentos em IA ocorrerá mais rapidamente do que o mercado prevê e descarta o surgimento de uma bolha de IA.
Esses e outros temas, como a aposta da China na internacionalização do yuan como alternativa ao dólar, a crise na Europa e o potencial da América Latina entre os mercados emergentes, são abordados na conversa com o NeoFeed.
Panorama econômico global
Drabowicz afirma que a economia mundial permanece resiliente ao choque do petróleo, vivendo um cenário “não muito quente, não muito frio”, conforme análise recente do Indosuez aos clientes. Ele lembra que o mercado começou o ano temendo uma desaceleração econômica.
Mas, a despeito de algumas diferenças regionais – como na Europa, que vive um ambiente político turbulento e de baixo crescimento –, a economia global deve crescer em 2027 devido a alguns fatores. Um deles é o investimento massivo em inteligência artificial (IA), que deve ultrapassar US$ 650 bilhões em 2026. “A IA é a tecnologia mais transformadora do nosso tempo e impulsionará a produtividade”, afirma o executivo.
Ele cita países emergentes da Ásia, como China, Coreia do Sul e Taiwan — onde estão os maiores fabricantes de semicondutores do mundo —, como beneficiários diretos do ciclo de investimentos em IA. “Além disso, os efeitos dos choques tarifários já ficaram para trás”, emenda, acrescentando que o custo macroeconômico com o fechamento do Estreito de Ormuz também tende a cair. “O preço do petróleo pesa, mas seu impacto se dilui com o tempo.”
Investimentos em IA e risco de “bolha”
Embora admita que as big techs estejam emitindo muitos títulos para financiar os investimentos de IA — cerca de US$ 250 bilhões em 2026, devendo emitir cerca de US$ 1 trilhão nos próximos quatro anos —, o que poderia impulsionar a inflação, Drabowicz reforça o otimismo com os aportes em IA. “O retorno dos investimentos ocorrerá mais rapidamente do que o mercado prevê”, diz, citando a Anthropic, que deve abrir capital em novembro.
“A empresa já é lucrativa, tem margens de 75% e deve atingir cerca de US$ 100 bilhões em vendas — sendo que há um ano tinha apenas US$ 10 bilhões.” O executivo do Indosuez descarta o risco de uma bolha de IA. “Se há risco de bolha é no valuation de algumas companhias, não uma bolha de IA”, assegura. “Foi como ocorreu na internet: houve bolha nas dotcoms, não na tecnologia em si.”
Riscos geopolíticos e macroeconômicos
Os principais riscos globais — geopolítica, inflação e política monetária — estão intrinsecamente ligados, na avaliação do executivo do Indosuez. Mas ele vê a crise no Oriente Médio com tendência a refluir por duas razões. “Não vejo interesse dos EUA ou do Irã em escalar o conflito”, assegura.
Ele afirma também que 80% do fluxo de petróleo, que estava bloqueado no Estreito de Ormuz, já está normalizado, com forte redirecionamento para rotas alternativas — oleodutos da Arábia Saudita para o Mar Vermelho, e dos Emirados para Omã e Fujairah.
“Há investimentos massivos para ampliar essa capacidade”, observa. “Isso deve reduzir a dependência do Estreito e ajudar na normalização dos preços do petróleo”, acrescenta, prevendo como consequência alívio na escalada de inflação e de juros na economia global.
Política monetária do Fed
O executivo do Indosuez afirma que o mercado errou ao prever uma forte desaceleração da economia dos EUA em 2026, antecipando cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed). “A visão do Indosuez sempre foi de que o forte consumo e o ciclo de investimentos em IA sustentariam a economia americana”, afirma Drabowicz, citando o que chama de paradoxo.
“Se você pergunta ao consumidor americano como se sente, os índices de confiança estão muito baixos; mas, ao mesmo tempo, ele continua gastando bastante.”
Com isso, Drabowicz prevê apenas um corte de juros do Fed, em novembro. “O Fed está realizando ajustes de meio de ciclo, com a expectativa de forças deflacionárias ganhando tração em 2027”, afirma, estimando que a inflação americana permanecerá próxima de 2,5% no ano que vem. “Não é a meta, mas é suficiente para evitar novas altas.”
Mercados Emergentes
Drabowicz diz que o Indosuez há dois anos reforça a aposta nos países asiáticos entre os mercados emergentes, por causa dos fortes investimentos na produção de chips de IA. “O valuation em países como Taiwan, Coreia do Sul, China e Singapura é muito atrativo: cerca de 10x os lucros, quase 50% de desconto em relação aos EUA, além disso, o crescimento dos lucros, cerca de 30% este ano, é forte”, diz.
O CIO do Indosuez vê a Índia como candidata natural ao protagonismo desse clube, mas cita dois fatores que impedem uma recomendação imediata: a desvalorização da moeda, que corrói retornos, e valorações ainda elevadas. Drabowicz também destaca os países da América Latina.
“A região começa a ganhar relevância como diversificadora — com commodities, energia e reformas”, diz. “Neste aspecto, Brasil, Peru, Chile, Argentina e Guiana têm papéis importantes, seja por meio da produção de petróleo, seja por minerais críticos.”
China: yuan forte e consumo fraco
O executivo do Indosuez vê a China diante de múltiplos desafios. Ele chama a atenção para uma meta do govenro chinês que avança sem alarde. “A China busca a internacionalização do yuan como alternativa ao dólar para o comércio internacional, um objetivo estratégico de longo prazo, mas para isso terá de aceitar apreciação gradual da moeda”, diz. “O Brasil é o melhor exemplo: cerca de 40% do comércio bilateral já ocorre em yuan.”
Drabowicz afirma que o maior desafio da China é deixar de depender das exportações e construir um modelo baseado em consumo interno, ainda pressionado pelo estouro da bolha imobiliária. “O governo não fará estímulos agressivos, e sim medidas graduais para reequilibrar a economia ao longo de muitos anos”, diz.
Ele aponta também entraves no mercado de trabalho: desaceleração populacional, migração rural urbana e dificuldade de absorver jovens qualificados. “A aposta em IA é uma forma de tentar resolver isso, mas levará tempo.”
China x EUA
Em relação à disputa com os EUA, o executivo do Indosuez afirma que o governo americano acredita estar em guerra econômica com os chineses, mas o país asiático não vê dessa forma. “A China enxerga os EUA como concorrentes e clientes, quer independência tecnológica, mas não pretende ultrapassar os EUA no curto prazo”, diz.
Alocação de ativos em 2027 e 2028
Para Drabowicz, o maior erro dos investidores tem sido reagir ao ruído de curto prazo. “A recomendação é manter-se investido, ignorando manchetes alarmistas”. O tema central para 2027-2028 é a “autonomia estratégica” — conceito que abrange IA, defesa, energia e infraestrutura, além da necessidade de exposição a commodities.
“A Europa, por exemplo, precisa assumir o controle de sua segurança, reduzindo a dependência militar dos EUA”, observa. No setor energético, a transição para renováveis deixou de ser apenas uma meta ambiental para se tornar uma questão de sobrevivência econômica, como a China demonstrou ao mitigar sua vulnerabilidade a choques de petróleo.
“Complementarmente, a exposição a commodities — especialmente cobre e terras raras, vitais para a infraestrutura de IA e defesa — é indispensável para a estratégia de investimentos nos próximos anos”, afirma Drabowicz.
Fonte ==> NEOFEED

