Nelson Rodrigues: ‘Valsa nº 6’ ganha leitura política – 02/07/2026 – Mise-en-scène

Nelson Rodrigues: 'Valsa nº 6' ganha leitura política - 02/07/2026 - Mise-en-scène

A montagem de “Valsa nº 6” pelas mãos do diretor Jorge Farjalla, mostra como a força de um clássico se renova quando ele encosta nas urgências de agora. Longe de ser uma mera remontagem, o espetáculo, que estreia nesta sexta-feira (3), propõe uma leitura viva, que joga luz sobre feridas sociais latentes e transforma o ato teatral em um exercício partilhado de escuta e denúncia.

Único monólogo de Nelson Rodrigues, a peça acompanha Sônia, uma adolescente de 15 anos que, já morta, tenta colar os pedaços de suas memórias para reconstruir a própria vida e o próprio assassinato. A engenhosidade trágica de Nelson sempre esteve em dar o protagonismo à vítima, e não ao crime ou ao algoz.

Farjalla, contudo, radicaliza esse gesto ao mirar de frente o abuso e a violência contra mulheres e crianças. O texto rodriguiano vira vetor para escancarar a cultura do silenciamento e a opressão que continuam a interromper a vida de tantas “Sônias” pelo país. É essa escolha que dá à montagem seu caráter marcadamente político, transformando a cena em território de reflexão e acolhimento.

Essa leitura se materializa na própria física do espaço. Ao dispor o público em uma arena de apenas 40 cadeiras posicionadas em cima do palco, Farjalla dita a chave estética da peça. A proximidade radical entre a atriz e a plateia anula a distância segura do espectador comum. Ali, ninguém assiste de longe.

Todos viram testemunhas oculares do delírio e do trauma de Sônia, dividindo com ela a palavra e o desconforto. Essa imersão é potencializada pelos elementos técnicos, como a trilha eletroacústica imersiva, assinada pelo próprio diretor, e a iluminação de Gabriele Souza, que envolve e atordoa.

A direção musical de Gui Leal e o desenho de som de Tocko Michelazzo, colaboradores de longa data do diretor, reforçam a solidez da equipe criativa, que já demonstrou sintonia em trabalhos anteriores.

Para sustentar essa voltagem, a escolha de Carol Costa no papel principal se mostra certeira. Parceira de Farjalla em musicais como “Clara Nunes – A Tal Guerreira” e “Ópera do Malandro”, a atriz deixa de lado as grandes massas sonoras para ancorar a complexidade e a imensa fragilidade que a personagem exige. Sem filtros ou artifícios, o que vemos em cena é uma menina real, com seus medos e silêncios. Mas há também a atriz, a mulher — e, através dela, todas as mulheres. É humano, simples e avassalador.

Três perguntas para…

… Jorge Farjalla

Por que encenar “Valsa nº 6″ agora, depois de tanta proximidade com a obra de Nelson Rodrigues na sua trajetória?

É um texto que me persegue. Li pela primeira vez aos 12 anos e cheguei a propor um projeto de encenação na faculdade, aos 19. Mas a centelha para esta montagem acendeu recentemente, quando vivenciei de perto relatos de abusos sofridos por pessoas muito próximas. Quando reli o texto sob esse impacto, percebi que não via mais a Sônia como a “louca” que eu idealizava na adolescência. Ela é uma pessoa traumatizada que se fragmentou para sobreviver ao abuso.

Percebi que a maioria das montagens foca no assassinato, e não na violência psicológica e sexual que a antecede. É um susto ver que um texto de 1951 chega a 2026 com um peso ainda maior. Por isso, propus à Carol Costa que parássemos o texto em alguns momentos para dialogar com o agora. Deixou de ser apenas uma peça, virou um manifesto.

E como a opção por uma plateia de apenas 40 lugares, com proximidade extrema, dita o tom dessa direção?

Sempre vi a “Valsa” como uma conversa confessional, um relato olho no olho. Inicialmente, pensei em uma cenografia barroca, com um piano de cauda pendurado no teto, bem a minha cara. Mas desisti de tudo. Cortei a “pirotecnia farjalliana” para voltar à minha essência: o teatro de pesquisa, focado no corpo do ator. O espaço reduzido desarma as distâncias tradicionais do palco.

Quando a Carol pede licença para tirar o sapato de um espectador ou sussurra algo, ela altera a pulsação da plateia. Queremos acolher o público para que ele abrace a Sônia, mas também queremos o incômodo. A Sônia ali é um espelho de todos nós, pois o abuso, seja físico ou psicológico, de alguma forma contorna a experiência humana.

Para intensificar isso, a luz da Gabriela Castro e o desenho de som eletroacústico do Gui Leal trabalham na repetição obsessiva de poucas notas da valsa, mimetizando o que acontece na mente dela.

O texto original traz várias vozes através do fluxo de consciência da protagonista. Como vocês construíram essa hibridez e a atualização da obra no processo de mesa?

É um jogo de espelhos metateatral. Eu pedi para a Carol escrever os momentos em que ela, como mulher de hoje, precisava romper a ficção e falar. Afinal, eu sou um homem dirigindo, precisava da perspectiva e do estômago dela diante das notícias diárias de violência. Na nossa leitura, descascamos as camadas da personagem: a Sônia é uma menina burguesa, fala cinco idiomas, toca Chopin.

Mostrar que isso acontece nessa esfera desmonta o mito de que a violência ocorre apenas à margem da sociedade. Outra decisão crucial foi entender que os outros personagens — o médico, o pai e Paulo — não são caricaturas que ela interpreta, mas sim projeções mentais distorcidas na cabeça dela de quem a violou dos 12 aos 15 anos. É ela sacaneando e confrontando os seus algozes.

Três perguntas para…

… Carol Costa

Diante de uma proximidade tão radical com o público, como você se prepara para as reações e os silêncios imprevistos da plateia?

Ainda estamos descobrindo esse termômetro nos ensaios com convidados, mas a rede de proteção que criamos é muito forte. Dentro do universo fragmentado da Sônia, tudo cabe. Se eu interajo com alguém e a pessoa trava ou não responde, eu não saio do personagem, eu jogo com isso.

O incômodo e a tensão do público fazem parte da engrenagem do espetáculo. Estar tão perto nos torna testemunhas oculares de um crime. Esse desconforto coreografado na sala é, na verdade, uma extensão do próprio assédio e da violência que as mulheres enfrentam na rotina do dia a dia.

Em cena, você transita por uma exaustão visível enquanto dobra o corpo e a voz para dar vida a múltiplos personagens. Como funciona essa preparação física e mental?

Aquela exaustão em cena não é fingida, ela é real. Eu brinco com a direção que vou manter esse estado porque a exaustão ali é física, mas também é mental, de ler tanta barbárie cotidiana e atravessar esse texto. Minha base artística vem do balé clássico, que é uma escola de guerra, de muita disciplina e resiliência — qualidades que hoje uso a meu favor.

Toda a cena do abuso em cima do banco é milimetricamente coreografada. Pensamos o espetáculo quase como uma dança expressionista, com referências estéticas ao universo de Pina Bausch, o que se reflete inclusive no figurino em formato de combinação. Na parte vocal, fugimos do erro comum de infantilizar a Sônia por ela ter 15 anos. Ela é uma menina, mas o trauma a transformou em uma mulher. Usamos distorções sutis para as outras vozes, sem carregar na tinta para não soar caricato.

Você tem uma carreira sólida em grandes musicais. O que a parceria com o Farjalla e o desafio de um monólogo rodriguiano representam para o seu amadurecimento?

O Farjalla enxergou em mim uma inquietação artística que eu mesma buscava externalizar. No teatro musical, muitas vezes operamos no que eu chamo de “fábrica de chocolate”: tudo é grandioso, hiper colorido, com perucas, microfones e um ritmo de montagem industrial em que você precisa entregar o resultado em duas semanas.

Eu queria desafiar a minha própria atriz, me colocar em um lugar de risco e desconstrução. “Valsa nº 6” está sendo uma verdadeira pós-graduação para mim. O Farjalla conhece o meu instrumento, sabe como extrair o meu melhor e me tirar da zona de conforto. Eu trabalho muito bem na pressão e adoro o que é difícil. Esse espetáculo me permite pintar com cores que eu ainda não tinha usado no palco.

Teatro Sérgio Cardoso | Sala Paschoal Carlos Magno – Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, região central. Sexta a segunda, 19h. Até 27/7. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br



Fonte ==> Folha SP

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