Flávio Bolsonaro versus Lula: chegou a hora de debater propostas reais para o Brasil

Brasília – Um dia antes da eleição presidencial, as pesquisas de opinião já indicavam uma possível virada de Flávio Bolsonaro. Mas o que se viu neste domingo, 4 de outubro, foi uma largada com uma boa folga para o filho de Jair. Com 99,57% das urnas apuradas, Flávio chega ao segundo turno com 47,12% dos votos válidos contra 45,05% de Lula. No total, quase 2,5 milhões de votos na dianteira.

A partir de amanhã, outra disputa se inicia de olho no dia 25 de outubro. E é mais do que chegada a hora em que esse duelo, até então vazio de ideias e de projetos para o País, saia dos temas que tomaram conta do pleito como a fake news de Nossa Senhora Aparecida, o caso Master, as disputas envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), a presença de “Dark Horse”, o escândalo do INSS e as citações a Lulinha.

Agora que a disputa se afunila entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não dá mais para ambos fugirem dos debates públicos para apresentar, de forma clara, quais são seus planos para o Brasil. Sem a pulverização do tempo de televisão e das sabatinas de rádio e TV, a presença exclusiva de Lula e Flávio Bolsonaro cria a estrutura para a apresentação clara de propostas e o confronto de diretrizes para o País.

Questões centrais para a população, como o ajuste fiscal, a segurança pública, o endividamento das famílias em patamar elevado na série histórica e as taxas de juros entre as maiores do mundo, não foram detalhadas pelos postulantes.

O segundo turno é a chance de corrigir esse deserto de propostas pautadas apenas em diretrizes genéricas. Como Lula pretende manter as contas em ordem sem recorrer ao aumento de receitas? Que cortes e prioridades Flávio Bolsonaro tem em mente ao prometer mais responsabilidade fiscal?

É a oportunidade para Lula explicar de forma clara o que é o seu ajuste fiscal. É também uma chance para Flávio Bolsonaro detalhar o que ele chama de “tesouraço” e “revogaço”.

Na pesquisa Meio/Ideia, a maior fatia dos entrevistados, 45,1%, afirmou que só mudaria o voto diante de uma proposta nova de outro candidato. O eleitor pede algo novo para entregar seu voto.

Além das pautas econômicas, o confronto direto exige definições claras sobre a inserção internacional do País e a soberania nacional. 

O eleitorado demanda saber como cada candidato conduzirá a política externa e as relações diplomáticas e comerciais com a China, maior parceira comercial do Brasil, em meio a um cenário global geopoliticamente tensionado.

Da mesma forma, o debate sobre a exploração e o processamento de minerais estratégicos e terras raras — centrais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia — passa a exigir diretrizes objetivas sobre a atração de investimentos internacionais, a salvaguarda de ativos nacionais e a agregação de valor à produção local.

“O segundo turno traz uma clareza maior sobre as candidaturas e a eleição fica de fato mais polarizada. E isso permite de alguma maneira que as campanhas transmitam mensagens mais cirúrgicas e menos amplas”, diz o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

Não menos importante, o segundo turno é uma chance para que Lula e Flávio Bolsonaro estejam frente a frente em um debate, algo que não ocorreu no primeiro turno.

E, cara a cara, os dois adversários poderão confrontar suas ideias para que o eleitor faça sua escolha não apenas com base em estratégias que tentam aumentar a rejeição do adversário — como foi feito com os temas citados no começo deste texto.

“Há eleitores menos envolvidos com os embates políticos que estão preocupados em pagar as contas, conseguir atendimento médico e voltar para casa em segurança”, afirma o cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest. “Para essas pessoas, discutir o País significa oferecer respostas para a vida cotidiana.”

Para o cientista político, é muito ruim a falta de profundidade do debate eleitoral, já que “uma eleição também é uma oportunidade de construir compromissos sobre o futuro”.

“E aprofundar propostas não significa tornar o debate técnico ou distante. Significa explicar como uma medida vai melhorar a vida das pessoas, quais são seus limites e como será executada. Isso qualifica tanto a escolha quanto a cobrança depois da eleição”, diz Nunes.

Um guia para as propostas

Em meio ao cenário de falta de propostas de governo, não só por parte dos candidatos, mas também de governantes em geral, que encontram dificuldades em executar plataformas de gestão pública, o Instituto Comunitas lançou em agosto o estudo “Pacto Brasil do Futuro”.

De cunho apartidário, segundo a instituição, o documento traça diretrizes para o planejamento de políticas públicas com mais eficiência e serve de guia para gestores públicos em geral.

O estudo conta com a contribuição de especialistas como a economista e ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi, o cientista político Fernando Schuler (Insper) e o professor e coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP, Leandro Piquet.

A pesquisa aborda os eixos de política econômica, equilíbrio fiscal, eficiência do Estado, política social e de renda e segurança pública — demandas da sociedade que muitos especialistas entendem que deveriam ser melhor endereçadas nas campanhas eleitorais com propostas e alternativas mais assertivas.

Segundo o Comunitas, o estudo chegou a ser incorporado ao programa dos candidatos a governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo; Rafael Fonteles (PT), no Piauí; e Ciro Gomes (PSDB), no Ceará; além do candidato à Presidência, Ronaldo Caiado (PSD).

No capítulo do equilíbrio fiscal, o Pacto preconiza que o assunto não deveria ser pauta de governo, mas sim política de Estado. Ressalta, porém, que isso depende de “decisões firmes” e não é uma “agenda de austeridade vazia ou de punição econômica”.

“O objetivo é garantir que o equilíbrio fiscal não seja tratado apenas como ajuste de contas, mas como condição para sustentar políticas públicas, ampliar a capacidade de investimento e preservar a confiança na gestão do dinheiro público”, descreve o documento.

O Pacto sugere como maneiras de alcançar o ajuste fiscal: a desindexação real de despesas em relação ao salário mínimo; a desvinculação entre receitas e despesas, propondo uma correção pela inflação para atingir os pisos de saúde e educação, aportes ao Fundeb (inclusive de Estados e municípios), emendas parlamentares impositivas e o Fundo Constitucional do Distrito Federal; e a vedação à concessão de benefícios tributários sem que sejam demonstradas claramente as suas vantagens econômicas e sociais.



Fonte ==> NEOFEED

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