Democracia e turismo: quando a liberdade deixa de ser um valor, todos perdem

Arquivo pessoal

Por Bayard Do Coutto Boiteux

O turismo sempre foi muito mais do que uma atividade econômica. Viajar representa a possibilidade de conhecer diferentes culturas, ampliar horizontes e fortalecer o diálogo entre povos. Por isso, discutir o futuro do setor exige também refletir sobre a preservação das liberdades e dos princípios democráticos.

Em diferentes partes do mundo, observa-se o fortalecimento de discursos que relativizam direitos fundamentais e colocam em risco instituições democráticas. Muitas vezes, essas mudanças ocorrem de forma gradual, tornando quase imperceptível o avanço de práticas que restringem a liberdade de expressão, enfraquecem o debate público e reduzem o espaço para a diversidade de ideias.

Nesse contexto, é impossível dissociar turismo e democracia. O livre deslocamento de pessoas, o intercâmbio cultural e o respeito às diferenças constituem a própria essência da atividade turística. Sociedades abertas estimulam a troca de experiências e o conhecimento; já ambientes marcados pelo autoritarismo tendem a limitar justamente esses elementos que fazem do turismo uma poderosa ferramenta de integração.

Outro aspecto preocupante é a normalização de manifestações de intolerância. Atitudes discriminatórias, discursos de ódio e ataques dirigidos a diferentes grupos sociais deixam de ser casos isolados quando passam a ocupar espaço no cotidiano. Sempre que o respeito às diferenças perde força, toda a sociedade sofre as consequências, inclusive setores que dependem diretamente da convivência entre pessoas de diferentes origens.

A experiência histórica demonstra que períodos de autoritarismo produzem impactos profundos não apenas sobre a política, mas também sobre a economia, a cultura e o turismo. Conflitos, insegurança e isolamento internacional costumam afastar visitantes, reduzir investimentos e comprometer o desenvolvimento de destinos que antes eram reconhecidos pela hospitalidade.

Também chama atenção a postura de parte do mercado, que frequentemente trata questões relacionadas à democracia como se fossem secundárias diante dos interesses econômicos. No entanto, a aparente neutralidade diante da restrição de direitos pode contribuir para normalizar práticas incompatíveis com sociedades livres e pluralistas.

Ao longo de décadas dedicadas ao desenvolvimento do turismo nacional e internacional, aprendi que indicadores econômicos, ocupação hoteleira e fluxo de visitantes são importantes, mas não suficientes para medir a verdadeira grandeza de um destino. O turismo também cumpre uma função social, aproximando culturas, promovendo educação e incentivando o respeito entre diferentes povos.

É preocupante perceber o enfraquecimento de instituições democráticas em diversas partes do mundo, ao mesmo tempo em que cresce a desinformação e diminuem os espaços destinados ao diálogo. A democracia nem sempre desaparece de forma abrupta; muitas vezes, ela se deteriora lentamente, quando a intolerância substitui o debate, a mentira ocupa o lugar dos fatos e o medo desencoraja a participação cidadã.

Não há hospitalidade plena onde jornalistas são intimidados, professores sofrem perseguições, minorias enfrentam discriminação ou opiniões divergentes deixam de ser respeitadas. Nenhum grande empreendimento turístico, por mais sofisticado que seja, consegue compensar a ausência de liberdade e de garantias fundamentais.

Continuo acreditando que viajar permanece sendo uma das experiências mais transformadoras que existem. O turismo aproxima pessoas, reduz preconceitos e fortalece o entendimento entre diferentes culturas. Entretanto, para que essa missão continue existindo, é indispensável preservar os valores democráticos, assegurar o respeito aos direitos humanos e defender a liberdade como um princípio permanente.

Mais do que um modelo político, a democracia representa a base sobre a qual se constroem sociedades abertas, acolhedoras e preparadas para receber visitantes do mundo inteiro. Quando ela é enfraquecida, não apenas a cidadania perde espaço, mas também o próprio turismo deixa de cumprir seu papel de promover paz, desenvolvimento e integração entre os povos.

Viva a Democracia ! Viva a Liberdade ! Viva o turismo capaz de acabar com o silêncio.

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