Ataques de Trump ao papa não vieram do nada – 18/04/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Um rojão com o símbolo do Capitão América no cabo.

Donald Trump mexeu num vespeiro parecido com o que Sinéad O’Connor cutucou ao rasgar uma foto do papa João Paulo 2º na TV, em 1992. A cantora queria denunciar o acobertamento de abusos sexuais na Igreja, mas acabou virando ela mesma alvo de ataques pelo gesto.

Acostumado ao choque pelo choque, o presidente dos EUA resolveu testar o truque do papa —e botou à prova os limites dos seus próprios apoiadores. Além de atacar Leão 14 (“fraco”, “péssimo”), Trump decidiu se apresentar como um Jesus Cristo de IA, estrela da Primeira Página da Folha na terça (14). Outras notícias que orbitavam a crise, porém, eram discretas demais. Ou incompletas. E talvez inexatas.

Essa imprecisão estava no uso de “bate-boca” para descrever a resposta do papa às agressões de Trump. A leitora Magda Wagner, que costuma ficar de olho no mau uso da língua, notou que o termo poderia “levar o leitor a entender mal o que se passou”. “Quase sugere briga de pátio de colégio.”

Se a resposta virou “bate-boca”, outra mensagem virou fumaça: a que Leão 14 mandou para a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Quem lê a Folha mal ficou sabendo da reunião, mas o G1 deu um trecho da carta: “Sabemos que a verdadeira paz não é somente a ausência de conflitos. A convivência pacífica nasce do reconhecimento do valor do outro”.

Já a mensagem do presidente brasileiro aos bispos ganhou não um, mas dois registros: “Lula defende papa…” e “Lula envia vídeo a bispos com defesa…”.

Sobrou Lula e faltou procurar os nomões da direita brasileira que cortejam o trumpismo e o conservadorismo religioso. Pré-candidatos que falam de tudo teriam algo a dizer sobre os ataques ou a imagem do cosplayer de Jesus Cristo? Ninguém sabe, e pelo jeito ninguém cobrou também.

Além disso, num momento em que o bispo de Roma vira alvo do senhor da guerra, faria sentido acompanhar melhor o encontro dos bispos, não? Parece que não.

Mas há relatos no site da CNBB. Lá, ficamos sabendo que o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, afirmou em vídeo que “já estava com tudo preparado para a viagem ao Brasil, mas decidiu permanecer na Terra Santa diante da gravidade da situação” e agradeceu pela “solidariedade concreta” recebida das igrejas brasileiras.

Pizzaballa esteve no centro de outro episódio recente e tenso para a Igreja, quando a polícia israelense impediu a celebração do Domingo de Ramos na igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. O premiê Binyamin Netanyahu acabou anunciando liberação após reação internacional, mas o impedimento era inédito e grave. No jornal, o relato era correto, mas também ignorava a CNBB —e o fato de o Brasil ainda ser um país majoritariamente católico.

No contexto de crescimento do catolicismo nos EUA como força conservadora, os embates passaram a intrigar as publicações americanas. Com a tensão que cresceu na Semana Santa, coube ao site The Free Press contar que o Pentágono chamara para uma conversa, em janeiro, o representante diplomático do Vaticano. O motivo seria um discurso do papa.

No encontro, uma das ameaças contra o Vaticano teria sido a de replicar o “papado (ou cativeiro) de Avignon” —quando a monarquia francesa, no século 14, tirou o papa de Roma para colocá-lo sob sua vigilância. Segundo o Financial Times, o Pentágono qualificou esse relato como “exagerado e distorcido”. A Folha corretamente traduziu e publicou o texto do FT, ainda que mais tarde.

Apesar de a Igreja continuar a perder fiéis no Brasil, está longe de poder ser ignorada —sobretudo quando surge como um dos raríssimos temas capazes de constranger Trump e seus aliados.

Morte de jornalistas numa estrada cheia de tragédias

A história devastadora da morte dos jornalistas Alice Ribeiro, 35, e Rodrigo Lapa Dani, 49, na volta de reportagem sobre o início das obras da duplicação da BR-381 no trecho mineiro entre Sabará e Caeté, conta também décadas de cobrança e investigação, respondidas quase sempre com descaso pelas autoridades.

O trecho do acidente que matou os profissionais da Band Minas é um dos mais letais de uma via já perigosa, segundo um levantamento da CNT publicado pelo jornal mineiro O Tempo. O Estado de Minas mostrou que, de janeiro a setembro de 2024, 129 pessoas morreram e 2.386 se feriram em 1.965 acidentes na 381, que vai de SP ao Espírito Santo, mas tem seu maior pedaço em MG.

A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) emitiu nota com “um alerta urgente sobre as condições de trabalho no setor [jornalístico]”. “O veículo era conduzido pelo próprio repórter cinematográfico. (…) Ainda que as circunstâncias do acidente estejam sendo apuradas, é inegável que a precarização das relações de trabalho no jornalismo tem colocado trabalhadores em situação de vulnerabilidade.”

A Band Minas afirmou que “reitera seu profundo pesar” e que “a prioridade absoluta permanece sendo o apoio integral aos familiares”. “Quanto às manifestações da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, a emissora lamenta o teor das declarações, por considerá-las inoportunas e infundadas e tratará de respondê-las no seu devido tempo. Espera que este momento de luto seja respeitado com a sobriedade que a memória de seus profissionais merece.”



Fonte ==> Folha SP

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