O problema do nosso mundo é não ler mais Dostoiévski. Pensei nisso quando soube, pela imprensa internacional, que o FBI investiga uma sucessão de “mortes suspeitas” a pedido do Congresso. Falo de cientistas de renome, pesquisadores das áreas nuclear ou aeroespecial, que desapareceram sem deixar rastro ou foram simplesmente assassinados.
No meio da lista, aparece o nome de Nuno Loureiro, 47 anos, português. Um físico brilhante do MIT e amigo de um amigo meu. Em dezembro passado, Portugal ficou em choque com a história: na porta de casa, Nuno Loureiro foi morto a tiros. Por quem?
Aqui, a tragédia ganha contornos ainda mais assustadores: por um ex-colega, Cláudio Valente, praticamente da mesma idade e com uma trajetória de vida que era a sombra de Loureiro.
Mais de 20 anos atrás, os dois estudaram no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, uma das grandes escolas de engenharia de Portugal.
Na pós-graduação, emigraram. Nuno Loureiro fez seu doutorado e iniciou uma carreira de prestígio nos Estados Unidos. Cláudio Valente desistiu dos estudos e desapareceu do radar.
Duas décadas depois, reapareceu: primeiro, para cometer um massacre na Universidade Brown, onde estudara sem concluir o doutorado. Matou dois alunos e feriu nove. Dois dias depois, assassinou o ex-colega.
Quando eu soube da história, minha imaginação literária pensou em Dostoiévski. Não apenas porque o assassino é o típico homem do subsolo que, cultivando o próprio ressentimento, acusa o mundo dos seus próprios fracassos. A questão é mais literal: com 24 anos apenas, Dostoiévski escreveu uma novela que parece a anatomia antecipada desse crime.
O título é “O Duplo“, e ela narra a história de Iákov Goliádkin, funcionário público de São Petersburgo, a quem o médico recomenda uma vida mais alegre. “O senhor precisa de uma mudança radical e, em certo sentido, de transformar o seu caráter”, diz-lhe o doutor Ivánovich.
Mas a alegria não existe para Goliádkin, um desajustado social que procura desesperadamente reconhecimento.
Uma noite, depois de mais uma humilhação pública, Goliádkin é confrontado por um estranho personagem: um homem igual a ele, que carrega o mesmo sobrenome. Um Goliádkin júnior, como escreve Dostoiévski, que tem as qualidades que faltam a Goliádkin sênior.
É alegre. É audacioso. É um sucesso profissional na mesma repartição estatal de Goliádkin sênior. “Com que rapidez, pensando bem, pode um homem chegar assim e ‘ganhar’ toda a gente!”, observa, com inveja e temor, o pobre Goliádkin original.
A inveja cresce. O sentimento de inferioridade também. Goliádkin sênior tenta desesperadamente “esclarecer o assunto” junto aos superiores.
Mas o duplo, o júnior, já tramou contra ele —e Goliádkin sênior sente o mundo se fechar, de forma injusta e absurda, prenunciando o seu fim.
Há várias interpretações sobre essa novela de juventude. Seria o novo Goliádkin uma mera projeção da mente doente do velho Goliádkin?
Seria um personagem real, ainda que investido de semelhanças físicas e onomásticas pelo próprio Goliádkin –uma espécie de versão melhorada dele mesmo, mistura de desejo e autopunição?
Todas as interpretações são possíveis, porque todas convergem para o mesmo ponto: quando atribuímos a um duplo, real ou imaginário, a razão do nosso naufrágio, as portas do inferno estão abertas.
Na obra de Dostoiévski, o inferno do ressentido toma várias formas: às vezes chama-se duplo; outras, subsolo; outras ainda, crime, ideologia ou parricídio. Em todos os casos, começa no mesmo lugar: na recusa em admitir que o inimigo mortal mora dentro de casa.
Mas Dostoiévski não faz apenas o diagnóstico; ele sugere que a salvação começa quando o homem já não precisa de um inimigo para explicar a própria ruína.
O assassino Cláudio Valente foi vencido pelo inimigo que carregava dentro de si. Depois de cometer os crimes, refugiou-se num armazém abandonado. Gravou vídeos nos quais teria dito: “Não vou pedir desculpas, porque durante a minha vida ninguém me pediu desculpas”, uma frase que é puro Dostoiévski.
E, quando a polícia finalmente o cercou, cometeu suicídio.
Semanas atrás, o FBI divulgou uma avaliação comportamental do homicida. Conclusões? “À medida que os fracassos superavam os sucessos”, concluíram as autoridades, “sua paranoia se intensificou, culminando em um estado de profunda perturbação mental e numa determinação em morrer”.
E mais: “Cláudio Valente procurou superar sua vergonha e inveja recorrendo à violência para punir comunidades que via como responsáveis por sua queda”.
Sim, teorias da conspiração têm lá o seu charme. Mas, para explicar certas trevas, ainda é Dostoiévski quem segura a lanterna.
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Fonte ==> Folha SP