No livro “A Geração Incrível”, feitiços e bruxos não são algo tão distante do nosso mundo. Aliás, a história sugere que criaturas mágicas e poderosas vivem bem aqui entre a gente. Os magos são descritos como gananciosos e teriam feito uma oferenda aos humanos: uma pedra mágica, brilhante e interativa, capaz de garantir amizade e diversão sem limites.
Mas ao entrar em contato com essa pedra, os humanos começaram a adoecer. Aos poucos, ficaram menos felizes, mais cansados e com um aperto no coração. De acordo com o autor, Jonathan Haidt, esse objeto brilhante e sugador de energia é, na verdade, o celular.
O livro é uma versão para crianças de “A Geração Ansiosa”, que talvez você já tenha ouvido falar. A obra, lançada em 2024, se tornou uma das mais lidas dos últimos anos e um marco na conversa sobre saúde mental. O impacto foi tamanho que muitos países começaram a ter conversas sérias sobre o uso de smartphones no começo da vida, levando os aparelhos a ser banidos em escolas pelo mundo.
A versão infantil também rendeu um livro enorme. São quase 250 páginas divididas em pequenas histórias em quadrinhos ou listas, com relatos de adultos que lamentam ter deixado de lado a brincadeira no mundo real durante a infância. As historinhas também explicam por que passar o dia nesses aplicativos é tão viciante, jogando a real sobre o que cada um deles tem de positivo e negativo.
“Estamos perdendo tempo com o celular. As relações humanas estão sendo substituídas, e nossa existência pode se esvaziar”, afirma a especialista em tecnologia e diretora-geral do colégio Rio Branco, Esther Carvalho. “Tudo que está lá é muito atraente, mas é importante entender como e por que usamos essas ferramentas.”
A opinião da especialista está alinhada com a do autor da obra. Em uma passagem do livro, ele afirma que os responsáveis pelos grandes aparatos de tecnologia são pessoas malvadas e mentirosas —mas que uma rebelião de jovens que deixam o celular para trás e gastam energia com coisas mais interessantes está se formando.
O livro é cheio de contos e dicas para convencer o leitor que brincar nos coloca no “modo descoberta”, e que isso pode ser muito legal. Um desses rebeldes, por exemplo, trocou o tablet pelo skate, e aprende um pouco mais do esporte todos os dias enquanto faz amizade com outras crianças. Já o seu colega Alex tenta aprender as manobras também, mas vendo tutoriais na internet. Ele assiste, assiste, e nunca coloca o que vê na prática.
Para Esther Carvalho, essa mudança de comportamento é possível, mas não é simples. “Está complicado até para os adultos. Por isso, a mudança passa por todos nós”, afirma.
Fonte ==> Folha SP