“Você não merece meu respeito”: quando a divergência política vira intolerância

Discordar é um direito democrático; transformar quem pensa diferente em alguém indigno de respeito revela imaturidade cidadã, alimenta a polarização e abre caminho para a agressão.

Nos últimos dias, uma declaração do jornalista Rodrigo Constantino provocou forte reação na Bahia. Inconformado com o resultado das urnas no estado, ele chamou a Bahia de “câncer do Brasil”, além de fazer outras críticas aos baianos e a Salvador.

Eu me manifestei. Não para defender partido político ou determinado candidato, e muito menos para impedir que Rodrigo Constantino exerça seu direito de criticar os resultados eleitorais. Minha manifestação foi em defesa de algo anterior a tudo isso: o respeito entre brasileiros e o princípio democrático de convivermos com escolhas diferentes das nossas.

Disse, educadamente, que ele deveria rever sua fala. A Bahia integra uma República Federativa e os baianos exerceram, nas urnas, exatamente o mesmo direito exercido pelos cidadãos dos demais estados. Podemos concordar ou discordar das escolhas feitas, assim como podemos analisá-las, criticá-las e até considerá-las profundamente equivocadas.

Mas transformar um estado inteiro, sua população ou seus eleitores em uma doença porque votaram de determinada maneira ultrapassa a crítica política e contribui exatamente para aquilo que tanto tem nos preocupado: um Brasil que começa a enxergar adversários como inimigos.

Na tentativa de demonstrar o absurdo da generalização, fiz uma provocação: Lula recebeu votos em todos os estados brasileiros; se votar nele transforma um lugar em “câncer”, o câncer estaria generalizado pelo Brasil? Não teria cura?

Elaborei esta fala em tom de ironia, justamente para evitar aderir à agressão. Mas bastou isso para que alguém interpretasse minha manifestação como uma espécie de concordância com o jornalista e respondesse: “Você não merece meu respeito.”

E foi exatamente essa frase que me chamou ainda mais a atenção do que a própria discussão que a originou. Afinal, desde quando o respeito depende de concordância? Se você pensa diferente de mim, não merece meu respeito?

Tenho visto essa lógica aparecer repetidamente nos ambientes políticos mais radicalizados. Às vezes vem de setores da esquerda, em outras ocasiões, vem da direita. Muda a ideologia, o personagem, o alvo, mas o mecanismo de intolerância é exatamente o mesmo. Por isso, é fundamental compreender o que há por trás disso.

Eu não tenho obrigação de respeitar todas as ideias. Posso considerar uma ideia equivocada, uma política pública desastrosa ou rejeitar completamente uma ideologia; posso combater argumentos, apresentar fatos, denunciar contradições e defender minhas convicções com toda firmeza. Isso é democracia.

Mas combater uma ideia é diferente de retirar a dignidade da pessoa que pensa diferente de mim. Essa distinção parece simples, mas talvez seja uma das coisas que mais precisamos reaprender no Brasil.

Nossa Constituição já fez essa escolha. Em 1988, não construímos uma República baseada na concordância. Muito pelo contrário: entre os fundamentos do Estado Democrático de Direito estão a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político, que significa exatamente reconhecer que uma sociedade democrática é formada por pessoas que pensam diferente.

A nossa Constituição também determina como objetivo fundamental a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, promovendo o bem de todos sem preconceitos e outras formas de discriminação. Portanto, respeitar quem pensa diferente não é uma concessão que fazemos quando estamos de bom humor: é parte da própria cultura que sustenta uma democracia.

Se somente merece meu respeito quem pensa como eu, não estou praticando pluralismo; estou exigindo submissão.

“Não merece meu respeito”

Precisamos perceber a força dessa frase. Quando eu digo que alguém, simplesmente por sua posição política, “não merece meu respeito”, começo retirando algo aparentemente abstrato. Mas qual é o passo seguinte?

Primeiro: não respeito você. Depois: sua opinião não merece ser ouvida. Em seguida: você não deveria estar nesse espaço. Na sequência: pessoas como você representam um problema. Aos poucos, aquele que pensa diferente deixa de ser percebido como outro cidadão e passa a ser tratado como inimigo. É assim que a linguagem vai preparando o ambiente para a agressão.

Com isso, não estou afirmando que pronunciar “você não merece meu respeito” seja, isoladamente, um crime. Essa não é a discussão. Estou falando de algo anterior à lei penal: estou falando de cultura cidadã.

Palavras constroem ambientes

Quando repetimos diariamente que determinado grupo é formado por pessoas indignas, desprezíveis, doentes, inimigas ou que não merecem respeito, vamos criando autorização moral para tratá-las cada vez pior.

Foi exatamente por isso que critiquei a expressão utilizada contra a Bahia, e é exatamente pelo mesmo motivo que critico a frase dirigida a mim.

O princípio é o mesmo: não posso condenar uma agressão porque ela atingiu os baianos e aceitar outra apenas porque agora o alvo político mudou. Ou defendemos o respeito como princípio ou apenas o utilizamos como arma de conveniência.

Respeitar não é concordar

Um dos grandes equívocos da nossa polarização é fazer com que muita gente acredite que respeitar alguém significa concordar com ela. Mas não significa. Eu posso respeitar você e combater duramente a sua ideia. Posso respeitar você e votar no candidato oposto. Posso respeitar você e demonstrar que seu argumento está errado. Posso respeitar você e discordar profundamente da maneira como enxerga o Brasil.

O respeito não elimina o conflito de ideias; civiliza o conflito. Democracia não foi criada para sociedades em que todos concordam. Se todos pensássemos exatamente igual, sequer precisaríamos de democracia para administrar nossas divergências.

Quando o cidadão vira torcedor

A polarização brasileira produziu outra deformação preocupante: estamos deixando de enxergar pessoas e passamos a enxergar rótulos. Petista, Bolsonarista, Esquerdista, Direitista, Nordestino, Sulista, Rico, Pobre, Empresário, Trabalhador. E, quando colocamos o rótulo antes do ser humano, fica mais fácil decidir antecipadamente quem merece ser ouvido, quem merece respeito e quem pode ser atacado.

Cada lado veste sua camisa e a política se transforma em estádio. O adversário precisa perder, e qualquer crítica ao meu time é interpretada como apoio automático ao outro.

Foi exatamente o que aconteceu comigo. Critiquei uma agressão contra a Bahia e, ao utilizar uma ironia para demonstrar a incoerência daquela generalização, alguém concluiu que eu estava fazendo coro com o próprio agressor.

Isso demonstra que perdemos a capacidade de interpretar antes de reagir, de perguntar antes de condenar e, sobretudo, estamos perdendo a capacidade de reconhecer boa-fé em quem está do outro lado.

Inteligência Cidadã também é aprender a conviver

É nesse ponto que entra uma discussão que considero fundamental para o futuro do Brasil: Inteligência Cidadã. Não basta saber votar, conhecer nossos direitos e acompanhar as instituições; precisamos aprender a viver democraticamente. E viver democraticamente significa desenvolver maturidade para reconhecer algo elementar: o cidadão que pensa diferente de mim possui a mesma fração de poder que eu.

Seu voto vale o mesmo; sua cidadania possui a mesma dignidade; seus direitos não diminuem porque discordamos.

Posso tentar convencê-lo, disputar ideias e até mesmo demonstrar aquilo que considero erros de sua escolha. Mas não posso construir uma República saudável se minha primeira reação diante da divergência for retirar dele o respeito que reivindico para mim.

Isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para mim e vale para você.

O Brasil precisa reaprender a discordar

Não construiremos unidade nacional eliminando nossas diferenças. Também não construiremos unidade exigindo que metade do país se curve à outra metade. O Brasil continuará tendo pessoas conservadoras, progressistas, liberais, social-democratas, socialistas e cidadãos que não se identificam com nenhuma dessas classificações.

Continuaremos votando diferente, seguiremos discordando. Isso não é uma anomalia: é democracia. A questão é saber o que fazer com nossas divergências. Podemos transformá-las em combustível para o ódio ou podemos transformá-las em confronto de ideias, fiscalização, participação e construção coletiva. É uma escolha de maturidade.

Não quero um Brasil onde todos pensem como eu; quero um Brasil onde todos compreendam que, apesar de pensarmos diferente, continuamos pertencendo à mesma República.

Posso discordar de um eleitor de Lula sem desrespeitá-lo, assim como posso discordar de um eleitor de Flávio Bolsonaro sem desrespeitá-lo. Posso criticar a escolha política da Bahia sem atacar os baianos, e posso defender a Bahia sem transformar cidadãos de outros estados em inimigos. E mais: posso rejeitar uma ideia sem rejeitar a dignidade daquele que a defende.

Isso não é fraqueza; é civilidade democrática. Respeitar não é concordar; é reconhecer no outro aquilo que exijo que ele reconheça em mim: a condição de cidadão, a dignidade humana e o direito de pensar diferente.

O Brasil precisa recomeçar exatamente por aí. Antes de perguntar se o outro é de direita ou de esquerda, precisamos reaprender a fazer uma pergunta muito mais simples: somos ou não somos cidadãos da mesma Nação?

Se a resposta for sim, podemos e devemos discordar. Mas precisamos aprender a discordar sem transformar brasileiros em inimigos.

A democracia não amadurece quando todos passam a pensar igual; ela amadurece quando aprendemos a pensar diferente sem perder o respeito uns pelos outros.

O futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa agora.

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