Diretrizes aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação ampliam debate sobre governança, formação docente e o papel da inteligência artificial no ensino superior brasileiro
A entrada da inteligência artificial nas universidades brasileiras deixou de ser apenas uma discussão sobre inovação tecnológica. Com a aprovação, em setembro, das Diretrizes Orientadoras da Utilização da Inteligência Artificial na Educação Brasileira pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), instituições de ensino passam a enfrentar de forma mais concreta questões relacionadas à governança, transparência, formação de professores e limites para o uso da tecnologia.
O movimento ocorre em um momento em que ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina de professores e estudantes, enquanto as próprias instituições ainda buscam definir políticas e estratégias para incorporá-las ao processo de aprendizagem.
Para o professor Carlos Longo, PhD, o problema não está na velocidade com que a tecnologia chegou às universidades, mas na distância entre a adoção das ferramentas e uma transformação efetiva do modelo educacional. “A questão não é ter ou não ter IA. A questão é o que fazemos com ela. E, por ora, estamos fazendo muito pouco”, afirma. Segundo Longo, parte importante das aplicações ainda está concentrada em atividades administrativas, automação e redução de custos, enquanto o potencial pedagógico da tecnologia permanece pouco explorado.
Pesquisas acadêmicas recentes sobre inteligência artificial no ensino superior também têm chamado atenção para a necessidade de formação de professores, avaliação crítica das ferramentas e criação de diretrizes institucionais para seu uso. Estudo publicado em 2026 pela Revista Docência do Ensino Superior, da UFMG, aponta que, embora a capacitação docente seja reconhecida como importante, ainda existem lacunas em estratégias e políticas de formação inicial e continuada relacionadas à IA.
Professor deixa de ser apenas avaliador e assume papel de mentor
Na avaliação de Longo, uma das principais mudanças provocadas pela inteligência artificial deverá ocorrer justamente no papel desempenhado pelos professores.
Com estudantes recorrendo cada vez mais a ferramentas capazes de produzir textos, organizar informações, responder perguntas e executar tarefas acadêmicas, atividades tradicionalmente utilizadas para avaliação tendem a precisar de revisão. “A universidade do futuro precisará de professores que sejam mentores do conhecimento, capazes de orientar estudantes a usar a IA de forma crítica, estratégica e ética. A IA amplifica capacidades, mas só de quem sabe fazer as perguntas certas e tem repertório para avaliar as respostas”, diz.
Para ele, recorrer à tecnologia antes de procurar um professor não deve ser interpretado simplesmente como preguiça do estudante, mas também como um sinal de que as instituições precisam repensar a relação entre docência, avaliação e mentoria.
A discussão coincide com uma das preocupações presentes nas novas diretrizes nacionais: preservar a responsabilidade humana nas decisões educacionais e estabelecer parâmetros para o uso da inteligência artificial em escolas e universidades.
IA não deve virar apenas argumento para captar alunos
Outro ponto levantado pelo professor é a tendência de instituições utilizarem ferramentas de inteligência artificial como diferencial de mercado.
Para Longo, oferecer acesso a assistentes virtuais, tutoria automatizada ou outras ferramentas tecnológicas não será suficiente para diferenciar uma instituição no longo prazo.“As próprias big techs já distribuem licenças gratuitas a universitários, e o que uma instituição oferece hoje como vantagem, amanhã é commodity. Quem compete por ferramenta compete por preço.” Na avaliação do especialista, o diferencial estará na maneira como a tecnologia é incorporada ao projeto pedagógico.
Isso inclui utilizar IA para aproximar teoria e prática, liberar professores de atividades repetitivas e desenvolver nos estudantes a capacidade de utilizar a tecnologia sem transferir a ela o próprio raciocínio.
Competências humanas ganham importância com avanço da tecnologia
O crescimento da inteligência artificial também deverá aumentar a importância de habilidades que não dependem apenas do domínio técnico das ferramentas. Comunicação, criatividade, pensamento crítico, colaboração e capacidade de aprender continuamente aparecem, segundo Longo, entre as competências que deverão ocupar espaço cada vez maior na formação universitária. “A universidade que colocar essas competências no centro do seu projeto pedagógico e usar a IA como aliada nesse processo será protagonista da transformação de que o país precisa.”
A discussão já mobiliza instituições brasileiras. A Unicamp, por exemplo, mantém atualmente um portal dedicado à inteligência artificial com orientações à comunidade acadêmica, ferramentas institucionais, ações de formação e uma área específica para governança e diretrizes.
No fim de setembro, o tema também esteve no centro do IX Fórum Educacional da Associação Nacional das Instituições Municipais de Ensino Superior, que reuniu gestores e especialistas para discutir inteligência artificial, transformação digital e o papel da educação superior
Universidades precisam rever seu modelo, avalia especialista
Para Longo, entretanto, a discussão tecnológica é apenas parte de uma transformação maior. A missão tradicional das universidades permanece, mas as instituições precisam se aproximar mais das demandas dos estudantes, da sociedade e do mercado de trabalho. “O que a universidade precisa fazer é deixar de ser uma ilha e tornar-se um hub, conectado ao mercado público e privado, à comunidade acadêmica internacional e à sociedade.”
Na avaliação do professor, a transformação mais urgente não é tecnológica, mas de mentalidade. Currículos, formação docente e modelos de ensino precisarão acompanhar as mudanças provocadas pela inteligência artificial sem abandonar a produção científica e o papel humano no processo de aprendizagem.
“A inteligência artificial não é uma ameaça à universidade. É um espelho. Ela nos mostra, com nitidez incomum, o que está funcionando e o que há muito tempo precisava mudar.”
Para Longo, a velocidade dessa adaptação determinará se as instituições conseguirão transformar a inteligência artificial em instrumento efetivo de aprendizagem ou apenas acrescentar novas ferramentas tecnológicas a modelos educacionais que permanecem os mesmos.
“O bonde está na estação. Desta vez, não podemos perdê-lo”, conclui.

