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O mundo do vinho atravessa uma crise, com queda nas vendas na Europa, estoques elevados e consumidores mais jovens bebendo menos álcool.
No Brasil, porém, o mercado mantém estabilidade, impulsionado também pelo avanço dos vinhos nacionais.
Em entrevista ao NeoFeed, Otavio Lilla, 48 anos, CEO da Mistral, diz que a retração global é resultado de uma “tempestade perfeita”: aumento dos custos de produção, perda de mercados como China e Rússia e tarifas americanas, além do encarecimento do vinho para as novas gerações.
Segundo o executivo, o vinho sem álcool ainda não conquistou o consumidor e enfrenta problemas de qualidade e custo.
As mudanças climáticas também pressionam os produtores, alterando safras e antecipando colheitas.
No Brasil, ele vê espaço para crescimento com a redução gradual das tarifas sobre vinhos europeus pelo acordo Mercosul-UE, embora alerte para o impacto da reforma tributária.
Para Otavio, o vinho continua associado a status, mas o principal obstáculo para os jovens é financeiro. Ele também destaca a expansão dos brancos, após o avanço dos rosés, como sinal de amadurecimento do mercado.
Na Mistral, que reúne mais de 5 mil rótulos de 18 países, os vinhos mais disputados incluem Gaja, Vega Sicilia e Biondi Santi. Lilla começou a trabalhar na empresa do pai ainda na faculdade e se tornou apaixonado pelo setor.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O mundo do vinho está em crise. Na Europa, as vendas despencaram. Há estoques encalhados na França, Itália, Portugal e Espanha. O Brasil, por enquanto, está na contramão dessa onda e tem registrado estabilidade. Isso se deve em parte ao aumento do consumo de vinhos nacionais. No entanto, um fato é inegável: os jovens bebem menos álcool.
Esse movimento é acompanhado de perto por Otavio Lilla, de 48 anos, CEO da Mistral. A importadora premium traz mais de 5 mil rótulos, de 18 países, de produtores renomados como Vega Sicilia, Gaja, Joseph Drouhin, Biondi Santi, Sassicaia, Rothschild, Pol Roger e Catena Zapata — além das taças Riedel. A empresa vende também vinhos nacionais.
Fundada em São Paulo, em 1973, e adquirida por seu pai, Ciro Lilla, em 1991, a Mistral foi pioneira em importar vinhos em containers refrigerados e privilegiar rótulos de qualidade para um mercado de nicho. O crescimento foi gradual. Atualmente são sete lojas próprias em quatro estados e no Distrito Federal, várias com wine bar, e representantes por todo o Brasil. O e-commerce, lançado em 1999, é responsável por 6% das vendas.
Nesta conversa com o NeoFeed, Otávio fala da crise do vinho, da mudança de comportamento dos millennials e da geração Z, do aumento de preços, da carga tributária e reafirma que o vinho continua, sim, sendo um símbolo de status no Brasil e no mundo.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Como você avalia a crise atual?
A gente está vivendo uma tempestade perfeita. Além da queda de consumo na Europa, existe a inflação de insumos: o vidro ficou mais caro, a rolha ficou mais cara e o produtor sofre uma pressão de custos. A queda de consumo também tem muito a ver com a questão financeira. As melhores análises mostram que não se trata tanto de falta de interesse pelo vinho, mas que ele ficou caro para as gerações mais novas. Ao mesmo tempo, há uma perda de mercados como a China e a Rússia, que representavam volume. As tarifas do Trump impactaram bastante a venda para os Estados Unidos, o maior mercado de vinhos do mundo.
As novas gerações bebem menos e os produtores investem nos rótulos zero álcool. Você gosta de vinho sem álcool?
(Risos) Não. Eu acho que existe um impulso maior dos produtores no zero álcool do que do consumidor. Existe uma ansiedade diante da constatação de que as pessoas estão bebendo menos. Então, muitos começaram a fazer vinho zero álcool e a empurrar esses produtos baseados, também, no sucesso da cerveja zero álcool. No momento, os mais bem-sucedidos e aceitáveis são os espumantes. Os vinhos de zero álcool são muito ruins, ainda não têm qualidade… O processo de produção é muito agressivo e caro. E aí o vinho também acaba ficando desequilibrado.
E ainda tem o aumento das temperaturas.
Sim, mas não é só o calor. Se você pegar a Borgonha, a safra de 2024 foi mínima. E não apenas lá., na Europa inteira, porque choveu metade do ano e os vinhedos foram atacados por um fungo. Em outros lugares, houve seca, muito calor e incêndios. Até os anos 1960 e 1970, a grande dificuldade dos produtores era fazer a uva chegar à maturidade. Hoje vivemos o cenário oposto: o calor predomina, a uva amadurece mais rapidamente, o nível alcoólico sobe e a colheita é antecipada cada vez mais.
“Existe mais impulso dos produtores no vinho zero álcool do que do consumidor”
O acordo Europa-Mercosul foi benéfico para os vinhos europeus, certo?
Com o acordo, em oito anos, o imposto vai passar de 27% a zero. Já começou e está em 24%. Isso não vai mudar o mercado imediatamente, mas, gradualmente, o vinho europeu vai competir em níveis de igualdade e será muito bom para o consumidor. Mas, por enquanto, o efeito é mais psicológico. Ao mesmo tempo teremos uma reforma tributária e sempre há o risco do famoso imposto seletivo, que está previsto, específico para álcool, cigarros e bebidas com açúcar.
O brasileiro ainda compra muito por status?
Compra, mas não só o brasileiro. No mundo todo é assim. No Brasil, o vinho ainda é um produto para uma classe social muito pequena em função do custo. Existe também a imagem de que ele é uma bebida de velho, antiga… Mas não é isso, a principal questão é financeira. O jovem não tem dinheiro para comprar vinho. O consumidor brasileiro tem mais de 30 anos, mais de 40 e vai se acostumando a comprar rótulos mais caros.
Quais os rótulos mais caros da Mistral?
Os rótulos mais caros não são necessariamente os mais cobiçados. Os de maior prestígio e mais disputados são os Domaine Cécile Tremblay, Château Rayas — que vendemos uma garrafa por CPF—, Gaja, Vega Sicilia, Opus One e Biondi Santi Riserva. Entre os novos no catálogo, do Domaine Leflaive, da Borgonha, temos o famoso Montrachet, o Bienvenue-Montrachet e o Chevalier-Montrachet, que chegará ao consumidor por cerca de R$ 34 mil a garrafa.
O aumento do consumo de vinhos brancos já se reflete nas vendas da Mistral?
Muito, demais. Os rosés já vinham crescendo há mais tempo, há uns cinco ou seis anos. Acho que muitos desses consumidores migraram depois para os brancos. Não é tanto uma questão de volume, mas de tendência. Isso mostra também o amadurecimento do mercado.
O que você gosta de beber?
Gosto muito dos vinhos do Piemonte, da Toscana, da Borgonha, da Sicília, do Etna, e dos chardonnays do Novo Mundo.. São os vinhos que acabo bebendo no dia a dia. E óbvio adoro o Vega Sicilia, o Brunello, o Barolo.
Você é formado em engenharia de produção pela Escola Politécnica da USP. Pensou que viria a trabalhar com vinhos?
De jeito nenhum, mas agora eu e meus irmãos estamos na empresa. Como meu pai estava sozinho na Mistral e tinha outra empresa, comecei a ajudar no tempo livre, ainda na faculdade. Diagramava os catálogos e, aos 18 anos, em 1996, fiz a primeira viagem com ele para a França e Itália para visitar produtores. Gradualmente fui gostando desse universo. Hoje sou apaixonado.
Fonte ==> NEOFEED

