Diplomacia brasileira resistirá a Trump – 08/08/2026 – Opinião

O ato de hostilidade diplomática contra o Estado brasileiro, dirigido a Maria Luiza Viotti, embaixadora do Brasil em Washington, manchará o histórico das relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Trata-se de uma medida desnecessária e agressiva, que busca forçar o nosso país a se render ou a se submeter.

Washington chamou a medida de “reciprocidade”, alegando morosidade brasileira em conceder o “agrément” (aprovação) ao indicado de Donald Trump para a embaixada em Brasília, Daniel Perez.

Formalmente, não é expulsão: Viotti segue investida no cargo. Mas é preciso chamar as coisas pelo que são —é uma expulsão branca. Seu visto de múltiplas entradas foi rebaixado a entrada única: se deixar os EUA, não poderá retornar para exercer suas funções. É esse o mecanismo concreto por trás da retórica de “reciprocidade” —e o seu desenho sugere cálculo defensivo: Washington parece precaver-se contra a possibilidade de Lula retirá-la em resposta à escalada de ingerência americana, gesto que, partindo do Brasil, exporia o governo Trump internamente.

Essa gramática não é nova para quem observa a política externa do presidente americano, mas o alvo é. Medidas de degradação unilateral do status de um chefe de missão, fora de qualquer crise declarada, historicamente ficam reservadas a adversários sistêmicos —China, Rússia, regimes sob sanção. O Brasil nunca integrou esse rol.

E aí está o primeiro dado relevante: Trump jamais teve a ousadia de aplicar a Pequim ou a Moscou o tratamento que reserva a Brasília. Não por falta de retórica hostil contra ambos, mas por falta de poder de barganha assimétrico — com a China pesam cadeias de suprimento e terras raras; com a Rússia pesa o risco de escalada. Com o Brasil, Trump aposta que pode se dar ao luxo da truculência porque presume um país sem musculatura para reagir, uma diplomacia maleável, um governo que julga ser vulnerável nas urnas. A medida não é sobre o “agrément”. É desgaste político calculado, um teste de resistência.

A narrativa oficial não resiste a escrutínio. Quando o Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, foi convocado ao Senado americano, em 22 de julho último, seus argumentos sobre o tarifaço contra produtos brasileiros foram frágeis e recebidos com ceticismo. O próprio Daniel Perez, cuja demora de aval supostamente motivou a retaliação, não soube explicar aos senadores como se justificaria sancionar um parceiro superavitário nem como responder ao consumidor americano que pagará o encarecimento desses produtos.

A revogação do visto cumpre, então, função política precisa: deslocar o debate da fragilidade da própria política tarifária americana para um espetáculo de confronto diplomático, com a culpa depositada em Brasília.

A falsa alegação de que essa medida retaliatória também decorre da recusa brasileira em conceder vistos a dois funcionários do Departamento de Estado —que viriam ao país para questionar a legalidade e a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro— é torpe. Convém lembrar a sequência cronológica: foi o próprio governo Trump quem cancelou, antes, os vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal, de ministros de Estado e de diversas autoridades do Executivo brasileiro. O Brasil não recusou o pedido americano no vácuo; reagiu a uma provocação anterior.

Mas o dado mais grave é o terceiro movimento: a disposição explícita de Trump em se imiscuir no processo eleitoral brasileiro, mesmo sabendo que isso corrói, talvez irreversivelmente, a confiança bilateral. A aposta é transparente: desgastar Lula por atrito diplomático e pressão econômica, favorecendo o campo de Flávio Bolsonaro, na crença de que submissão estrutural ao trumpismo seria eleitoralmente rentável.

Essa aposta subestima duas variáveis. A institucional: o Brasil não é democracia de fachada suscetível a engenharia externa grosseira. E a histórica: já assistimos a esse filme —a submissão ensaiada ao primeiro mandato de Trump não rendeu dividendos duradouros a seu principal artífice, e nada garante que a repetição, com outro protagonista, produza resultado distinto.

Se um eventual quarto mandato de Lula tiver de recompor pontes com Washington, essa recomposição não pode ser automática nem incondicional —precisa ser avaliada com frieza estratégica, perguntando até que ponto interessa ao Brasil restaurar normalidade com um governo que demonstrou, por atos e não retórica, disposição para desrespeitar o Brasil, o direito internacional, o multilateralismo e os próprios aliados históricos. A truculência deste agosto não é desvio isolado. É revelação de método. E métodos exigem resposta estratégica de longo prazo — não gestos de apaziguamento apressado.

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Fonte ==> Folha SP

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