Aglaja Veteranyi retrata morte da tia em prosa poética – 03/08/2026 – Ilustrada

A narradora olha para as mãos da tia. As unhas ainda refletem a luz que entra pela janela do quarto. Mas, nas suas palavras, as pontas dos dedos estão escuras, “como se mergulhadas em nanquim”. A tia está morrendo.

No romance autobiográfico “A Estante dos Últimos Suspiros”, a escritora suíça-romena Aglaja Veteranyi descreve a angústia de quem assiste ao fim de uma pessoa amada. Carregado de poesia, morte e luto, o livro chega ao Brasil pela Relicário, em tradução de Fernando Klabin.

Nascida em Bucareste, Veteranyi cresceu em uma família circense, com a qual percorreu o mundo. Assentou-se na Suíça e passou a escrever em alemão. Em 1999, seu romance de estreia, “Por Que a Criança Cozinha na Polenta”, convenceu os críticos e a transformou em sensação literária.

Aquele primeiro livro narrava a infância —mágica e instável— de Veteranyi no circo. O livro foi publicado no Brasil em 2004 pela editora DBA e deve ser reeditado em setembro pela Relicário. A tia já aparecia, mas em segundo plano, em meio à família toda.

O adoecimento e a morte da tia inspiraram Veteranyi a escrever “A Estante dos Últimos Suspiros”. Era uma espécie de sequência, desta vez enfocando o assentamento da família errante e o sofrimento da tia, de quem, o texto indica, a autora era mais próxima do que da própria mãe.

A escrita foi interrompida em 2002 com o suicídio da autora em Zurique. O livro, segundo os editores, já estava na fase final de preparação. Veteranyi tinha acabado de imprimir uma versão do texto para fazer algumas correções à mão. Os editores decidiram lançar o volume naquele mesmo ano, postumamente.

É um romance delicado e repleto de passagens poéticas, como o trecho em que a tia diz que pensa no céu como um guarda-roupa onde “as almas se vestem de gente antes de nascerem”. São capítulos curtos, assim como são curtos os parágrafos e até mesmo as frases. Veteranyi prefere concentrar em poucas palavras sua teoria sobre a vida e a morte.

O livro trata das enfermidades e da degeneração do corpo da tia. Trata também da sabedoria dela, que, mesmo às portas da morte, faz questão de aconselhar a narradora. Diz, por exemplo, que precisamos ser generosos com as nossas doenças.

“Quanto mais você for avara com elas, mais elas vão querer da sua carne”, diz. “Presenteie-as com os fios da queda de seus cabelos, com seus dentes podres, com suas unhas cortadas” para que não tomem “conta do seu corpo para se aquecerem”.

Para além da questão da morte, o livro também é uma reflexão sobre a migração e a constituição do “eu” no meio do movimento. O leitor acompanha as andanças da narradora e de sua família, reinventando-se a cada fronteira cruzada, a cada novo costume aprendido e desaprendido.

De quem ficou para trás, a família sempre recebe os mesmos cartões postais e os mesmos livros de Mihai Eminescu, poeta nacional romeno. A narradora, que nem fala romeno e escreve em alemão, reflete sobre a alienação no exterior.

Curto, o livro pede para ser lido em uma sentada só. Ou duas ou três, porque às vezes a profusão de imagens inesperadas e de frases entrecortadas cansa. Veteranyi não faz muitas concessões enquanto enlaça uma descrição à outra, em um estilo que exige bastante dos olhos.

Chama a atenção o cuidado da edição, com bem-vindas notas de rodapé que contextualizam, para o leitor brasileiro, o tempo e o espaço do livro.

As menções a um tal “sapateiro”, por exemplo, referem-se ao ditador Nicolae Ceaușescu, no poder de 1965 a 1989. Era assim que se referiam a ele, de forma depreciativa, devido às suas origens. As notas também explicam a cena em que a tia assiste a uma novela sul-americana —ao que parece, “A Escrava Isaura” fez sucesso na Romênia.



Fonte ==> Folha SP

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