Peça inspirada em Jeferson Tenório vai a Portugal – 28/07/2026 – Mise-en-scène

O espetáculo começa antes de qualquer palavra. O público entra, ocupa as cadeiras, aguarda. No palco, não há atores à vista — apenas uma montanha de centenas de livros empilhados sem ordem aparente, formando um relevo que atravessa o espaço cênico. O espectador olha para aquela paisagem de papel sem saber que está encarando os próprios intérpretes. Eles estão debaixo dos volumes. Imóveis, invisíveis, incorporados à cenografia que os oculta.

Quando a peça começa, os livros se movem. Lentamente. Um volume desliza, outro tomba. O movimento é quase imperceptível, como se o chão tivesse respiração própria. O público demora a compreender: não são os livros que se movem, mas corpos que emergem.

Soterrados pela pilha, os atores iniciam um deslocamento tão gradual que nossa percepção precisa se reajustar. O gesto é fundador. Beatriz Barros estruturou a abertura a partir dessa imagem: corpos negros soterrados pela produção intelectual que a sociedade lhes nega e, ao mesmo tempo, impõe como peso. Emergir sem pressa nem alarde já estabelece o tom da encenação.

Esse processo produz um estranhamento essencial. O público vira testemunha de corpos que sempre estiveram ali, ocultos sob camadas que a história depositou sobre eles. A metáfora é direta: a memória negra no Brasil está enterrada sob uma cultura que a inclui como objeto e a exclui como sujeito. O trabalho da peça é desenterrar.

A arquitetura cênica de Wanderlei Wagner, prescindindo de coxias, amplifica esse sentido: os atores não têm para onde se retirar. A literatura que deveria libertar também aprisiona. Em cena, os quatro atores do Coletivo Ocutá — Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Vitor Britto e Victor Salomão (que substitui Marcos Oli) — transformam os volumes em degraus, armas e escudos, revezando-se nos personagens da história.

Essa dinâmica expõe o racismo estrutural e o apagamento de forma crua. O espectador experimenta uma vergonha retrospectiva por não ter enxergado o que estava diante dos olhos. A busca de Pedro pela história do pai assassinado deixa de ser um drama familiar isolado para se tornar a investigação arqueológica da própria negação da subjetividade negra no Brasil.

Ao recusar a fixidez dos personagens, a encenação afirma que a história de Henrique (o pai) e Pedro poderia ser a de qualquer um dos atores — e que a violência que os atravessa é estrutural, não acidental. Mesmo a leveza cômica que os atores imprimem mais tarde, na aula sobre “Crime e Castigo”, só se sustenta porque a plateia presenciou seu sufocamento inicial.

Esse dispositivo, no entanto, se estende também à representação de Marta, a mãe de Pedro. A personagem é encenada de forma alternada pelos próprios atores masculinos do coletivo. Se a escolha acentua o caráter performático, fluido e ritualístico da montagem, ela também gera uma tensão perceptível em relação à representatividade e à interseccionalidade de gênero. O que não interfere no resultado.

A direção de Beatriz Barros consolida a premissa de um corpo que já atuava antes de ser visto. A peça não começa quando a plateia julga conveniente; ela começou antes, no instante em que os atores se deitaram sob os livros e o silêncio se fez cena.

A circulação internacional de “O Avesso da Pele” por Portugal marca um novo capítulo para a trajetória de três anos do espetáculo, viabilizada a partir da articulação feita junto ao curador Jorge Lourenço durante o período em que o ator Vitor Britto residiu no país. Em outubro, o Coletivo Ocutá levará a montagem às cidades de Loulé, Aveiro e Coimbra, combinando as apresentações com a realização de oficinas sobre adaptação literária e metodologias de criação cênica.

O feito ganha ainda mais relevância por se tratar de uma produção independente que, mesmo sem patrocínios, já percorreu diversas capitais brasileiras — do Sul ao Norte do país — e agora consolida a expansão do seu trabalho no exterior.

Três perguntas para…

… Vitor Britto

Como é, para você, estar ali debaixo daqueles livros, imóvel, enquanto o público entra e ocupa as cadeiras sem saber que você está lá? O que passa pela sua cabeça nesses minutos de silêncio e espera?

É uma abertura fundamental para o espetáculo. Exige muito treino e foi uma conquista gradativa. No começo dava ansiedade, mas, após três anos de circulação, aprendi a me conectar inteiramente com a cena: ficar deitado, imóvel e de olhos fechados. A presença daqueles volumes sobre os nossos corpos gera um impacto visual imediato e traduz uma imagem potente que a diretora Beatriz Barros trouxe desde os primeiros ensaios: corpos negros soterrados pelo peso dos livros.

O maior desafio que enfrentamos foi no Theatro Municipal de São Paulo, no Dia da Consciência Negra. Como o público era imenso, ficamos 40 minutos sob a pilha até a plateia se acomodar. Nessas horas, a única opção é ter concentração absoluta e se entregar por inteiro à proposta da cena.

O espetáculo fragmenta a narrativa linear do romance de Jeferson Tenório. Como foi, para você, construir essa dramaturgia a partir do corpo e do movimento? O que surgiu em cena que não estava no texto original?

A dramaturgia foi adaptada por mim e pela Beatriz Barros, somada aos improvisos do elenco em sala. Ao transpor a literatura para o teatro, percebemos que nem tudo o que funciona no papel faz a cena andar. Por isso, apostamos no corpo, na dança e no funk para contar essa história além das palavras.

Uma das principais adições foi a cena da aula sobre “Crime e Castigo”. No livro, o Jeferson só cita que o professor Henrique apresentou Dostoiévski aos alunos. Eu li o romance russo, selecionei os pontos centrais e estruturamos dois blocos de aula para a peça. Outro momento forte é a crise de ansiedade do professor, que o Castilho, nosso preparador corporal, traduziu em movimento. A equipe foi precisa em fazer a narrativa saltar do texto para o corpo.

O romance de Jeferson Tenório sofreu tentativa de censura em 2024, e o espetáculo, que é inspirado nele, ganhou uma nova camada de urgência. Como foi para vocês, como coletivo, ver a obra que inspira a peça ser atacada?

Ficamos chocados. Acompanhamos a trajetória do livro desde 2020, quando o Jeferson nos cedeu a obra com enorme generosidade. Vimos a conquista do Prêmio Jabuti, as traduções no exterior e todo o alcance que o romance ganhou.

A tentativa de censura foi arbitrária, mas gerou um efeito reverso: desencadeou uma forte mobilização em defesa do livro e as vendas saltaram em 400%. A peça ganhou ainda mais tração. Apesar do receio inicial de sofrer represálias nas apresentações, fomos recebidos com um carinho imenso pelo público do país inteiro. O boicote falhou e a urgência da obra só se reafirmou.

Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Terça-feira, 4 de agosto, às 20h. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Os ingressos para a apresentação estão esgotados. Mas tem fila de espera. Chegue com antecedência, informe seu nome na bilheteria, aguarde e confie!



Fonte ==> Folha SP

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