Uma maestra carioca conquista a “terra dos músicos” alemães

Uma maestra carioca conquista a “terra dos músicos” alemães

Em 21 de junho, os jardins do castelo de Lichtenberg, uma fortaleza do século 13, próxima à cidade de Kusel, no sudoeste da Alemanha, servirão de palco para um marco histórico na música erudita.

Sob o céu aberto da região de Musikantenland, a “Terra dos Músicos”, a maestra carioca Andréa Huguenin Botelho subirá ao pódio para conduzir a renomada Westpfälzisches Sinfonieorchester (WSO). Em 130 anos, pela primeira vez, a orquestra tem uma mulher como regente titular.

O concerto foi pensado por ela quase como uma declaração de princípios – uma síntese das cerca de três décadas de carreira não apenas como maestra, mas também como pianista, compositora e pesquisadora.

Aos 52 anos, Botelho estabelece diálogos culturais e entrelaça tradições. Uma das vozes mais influentes no resgate de compositoras historicamente invisibilizadas, faz da música erudita um espaço de inclusão e inovação.

Para o programa de seu début à frente da WSO, ela vai além do repertório consagrado. Haverá obras de Béla Bartók e de Georges Bizet e, para abrir o espetáculo ao ar livre, uma fanfarra de Aaron Copland.

Mas, na sequência, peças da região compostas pelos Wandermusikanten — os “músicos peregrinos” que, entre o século 19 e a Primeira Guerra Mundial, deixaram as colinas do lugar e levaram seus sons para os quatro cantos do planeta, inclusive o Brasil. Em homenagem a eles, Botelho compôs um poema sinfônico, inspirado nas melodias ancestrais e na imagem de pássaros locais.

Os músicos da WSO se comoveram. “Emocionada, uma das violinistas me contou que, entre as músicas escolhidas, uma havia sido composta por seu tataravô”, lembra Botelho, em conversa com o NeoFeed. Ao espanar o pó das antigas composições, a maestra firma um de seus propósitos na orquestra de Kusel: recuperar a identidade dos “músicos peregrinos” para o mundo.

A seleção conta ainda com peças de duas compositoras que, apesar da qualidade, foram silenciadas pela história: a alemã Emilie Mayer (1812-1883) e a estadunidense Florence Price (1887-1953).

Para encerrar o espetáculo, em um gesto de reverência ao Brasil, Pixinguinha. A maestra fez um arranjo sinfônico para o choro Vou andando. “Não há quem não abra um sorriso ao escutar essa música”, comenta.

Dedilhando silêncios

Filha de pai médico e mãe professora, criada no subúrbio do Méier, Botelho não cresceu em um ambiente musical. Quando tinha cinco, seis anos, trocando os canais da televisão, de repente, sua atenção foi capturada por um concerto para piano e orquestra. “Eu me senti transportada”, recorda.

A menina correu para a mãe: “Eu quero fazer isso”.  A família, porém, não lhe comprou o instrumento; o “móvel” era caro demais. Ela então construiu o seu próprio — de papel — e saiu por aí dedilhando silêncios no teclado imaginário. “Daquele momento em diante, nunca mais parei de perseguir esse caminho”, diz.

Aos 12 anos, Botelho começou a estudar na Escola de Música da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). E, aos 14, descobriu a grandiosidade e a profundidade de Gustav Mahler: “Foi o meu segundo chamado espiritual. Fiquei obcecada”.

A sinfonia, disse o compositor austríaco no início do século 20, deve ser como o mundo; deve abranger tudo. E Botelho decidiu abraçar esse mundo. Ela seria pianista, compositora e regente.

Baseados em preconceitos socioculturais e preceitos pseudocientíficos, muitos, inclusive alguns professores, tentaram dissuadi-la da ideia.

Ao longo dos séculos, consolidou-se a tese de que as mulheres não possuíam “autoridade natural” para comandar uma orquestra nem resistência física e emocional para reger peças monumentais, como as sinfonias de Mahler. E que gesticular com energia era deselegante e pouco feminino.

Botelho, porém, seguiu. A partir de 1998, foi para a Alemanha, os Estados Unidos e a Rússia estudar regência orquestral e operística. “Foram tempos muito difíceis, pois faltavam referências femininas”, conta.

Ela cogitou desistir. Mas desistiu de desistir quando assistiu a um concerto da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense conduzido pela paulista Ligia Amadio, uma das maestras mais respeitadas da atualidade:

“Quando vi aquela mulher incrível, com um vestido verde estonteante, entrando soberana para reger a 7ª de Beethoven, pensei: ‘Se ela consegue, eu também consigo”. E Botelho conseguiu.

“Você rege como um homem!”

Um de seus mestres, o finlandês Jorma Panula, lenda no ensino de regência, ficou maravilhado com o modo de conduzir a orquestra da carioca: “Você rege muito bem: rege como um homem!”

O que para ele era um elogio, na verdade, refletia a mentalidade arcaica predominante. Competência e excelência artística são exclusividade masculina?

Poucas áreas como a música erudita revelam com tanta nitidez os ecos do patriarcado. A Filarmônica de Berlim, por exemplo, só admitiu uma mulher como membro titular em 1982. A de Viena, em 1997. A presença feminina cresceu nos últimos anos, mas as desigualdades continuam abissais

“Eu me senti transportada”, recorda a maestra sobre seu primeiro contato com a música erudita, aos cinco, seis anos (Foto: Igor Ogashawara)

Idealizado por Botelho, o Ayabás Chor Berlin é um coro feminino dedicado a obras em  ínguas indígenas e africanas (Foto: berlin.de)

Quando anunciou que pretendia estudar regência, a maestra foi desencorajada: o pódio e a batuta não seriam para as mulheres, argumentavam (Foto: Roberta Sant´Anna)

Botelho pertence ao grupo de 13% composto por regentes mulheres (Foto: andreabotelho.com)

A virada começou a ser esboçada na década de 1970, com a segunda onda do movimento feminista. Nessa época, foram adotadas as audições às cegas — uma estratégia comum até agora. Além do biombo, algumas filarmônicas, como a de Nova York, cobrem o palco com tapete para que o som dos sapatos, especialmente os de salto alto, não revele o gênero do candidato.

Globalmente, as mulheres hoje integram, em média, 45% dos quadros das principais orquestras. No campo da composição e da regência, também há avanços — mais lentos, porém.

As obras compostas por mulheres programadas nas temporadas dos grandes teatros giram em torno de 10% apenas. Levantamentos recentes de entidades como a plataforma Bachtrack e a ONG Women’s Philharmonic Advocacy indicam que, entre os cem regentes com mais contratos no mundo, apenas 13 são mulheres.

Há, no planeta, mais mulheres engenheiras (17%) do que maestras. Mais médicas (quase 50%) e mais advogadas (47%).

Escutas e olhares

Para Botelho, a batuta é apenas uma das ferramentas de transformação. A outra é a pesquisa documental. Recentemente, ela foi eleita para a diretoria do Archiv Frau und Musik (“Arquivo Mulher e Música”). Fundado em 1979 e sediado em Frankfurt, o centro é referência mundial na catalogação e disseminação de composições femininas.

“Minha missão é dar visibilidade às autoras ibero-americanas”, explica. Tanto do passado, como a gaúcha Joanídia Sodré e a venezuelana Teresa Carreño; quanto do presente, como a mineira Luísa Mitre e a cubana Yudania Gómez Heredia.

Em sua jornada, Botelho se mostra incansável. É a idealizadora também do programa Komponistin! (“Compositora!”), uma série de concertos em Berlim focada na execução de peças assinadas por mulheres de diferentes períodos.

Um de seus projetos mais instigantes é o Ayabás Chor Berlin, um coro feminino dedicado a obras em línguas indígenas e africanas — um repertório que lhe consumiu 15 anos de pesquisas. “É quando o feminismo encontra o decolonialismo”, define a regente.

O coral é um dos pilares da inciativa Música Brasileira, lançada em 2016, com investimentos do governo alemão. Sua realização mais recente, a Brasil Orchester Berlin, de 2025, é a única orquestra sinfônica da Europa dedicada à música brasileira, com instrumentistas de uma dezena de nacionalidades.

Ao levar as mulheres, os indígenas, os negros e os latinos para o centro do palco, Botelho se alinha ao movimento crescente na música que questiona a centralidade europeia e busca desmantelar as hierarquias de poder, saber e ser herdadas do período colonial.

Botelho disputou a vaga da WSO com outros sete candidatos. Na Alemanha, a palavra final na escolha do regente cabe à própria orquestra. E, ao reger um trecho de As Hébridas, de Felix Mendelssohn, foi aprovada com ampla maioria — teve apenas dois votos contrários.

“Essas duas pessoas têm medo de que eu traga muitas obras de mulheres para o repertório”, diverte-se. “Eu não quis nem saber quem eram, pois vou reconhecê-las pelo olhar.”

Não deve ser difícil para quem, há 30 anos, rompe barreiras, ampliando escutas – e olhares. Por si mesma e suas contemporâneas. Por quem veio antes. E por quem ainda virá.



Fonte ==> NEOFEED

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