Eu já fui vítima de violência doméstica e, antes do empurrão e do tapa, veio a palavra: vagabunda. Na quadra da escola, uma amiga da minha filha, de 12 anos, se encrencou com os colegas por causa do resultado de um jogo e ouviu: vagabunda.
Mês passado assisti a uma senhora atravessar a faixa de pedestres sob o grito de um motorista apressado: “vai, vagabunda”. Já vi homens olhando para mulheres com desejo e dizendo: vagabunda. Esta semana, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que está sendo investigado, referiu-se a uma possível delatora: “tem que moer essa vagabunda”.
O que essas mulheres têm em comum? Não faço ideia, mas vida fácil é que não é. Pelo contrário, todas têm uma vida difícil, já que não é mole ser mulher no Brasil. Mas voltando à palavra “vagabunda”: afinal, o que significa esse termo usado em contextos tão distintos e aleatórios?
Segundo o dicionário, no masculino, “vagabundo” significa: “que ou quem vagabundeia, que leva uma vida errante, perambulando sem destino ou objetivo certo; vagamundo”. Já no feminino, significa: “vadia”, “devassa ou amoral”. Ou seja: “vagabunda” é uma palavra carregada de machismo desde a raiz, porque condena aquelas que vagam atrás de amor ou sexo, coisa que os homens também fazem, sem passar por julgamentos.
Hoje o xingamento nem se relaciona necessariamente com esse significado original, mas segue carregado de machismo, tendo se tornado um simulacro de nove letras para esconder 1) a falta de argumentos de quem o diz 2) a misoginia.
Quando um homem não tem o que dizer contra uma mulher, basta lançar: vagabunda. Um jeito de desqualificá-la, sem qualquer embasamento. Pior é que as próprias mulheres também usam esse termo para se referir a outras, não se dando conta da misoginia que espalham com “vagabunda” ou com seus equivalentes, como “biscate” e “vadia”.
Infelizmente essas palavras não são vocábulos isolados quando o assunto é usar a língua para enquadrar, diminuir e humilhar uma mulher.
Quando um homem é feio, dizemos: feio.
Quando uma mulher é feia, o vocabulário se multiplica: baranga, mocreia, bagulho, fubanga, bruaca, jaburu, dragão, canhão, tiriça, trubufu, bozenga, jabiraca, bruxa, bugiranga, tilanga, bucho. E apelando para o peso, que só importa numa mulher: baleia, poita, elefante, jamanta.
A culpa, obviamente, não é da língua, mas da cultura que a produz e a transforma a cada instante. O nosso português é o reflexo de uma cultura machista. Reflexo não da feiura das mulheres, mas da nossa própria feiura.
A boa notícia é que nenhuma língua, em nenhum momento, jamais esteve pronta. Se a nossa, como todas as outras, está sempre se transformando, e se os agentes de transformação somos nós, podemos riscar do dicionário aquilo que dissemina a misoginia. E usar palavras mais propícias para cada sujeito.
Mal posso esperar o dia em que a senhora que atravessa lentamente a rua seja chamada de “tartaruga” ou de “empaca-trânsito”, em que a menina que criticou o placar do jogo seja chamada de “arregaça-prazeres”, em que a possível delatora do Vorcaro seja chamada de “mulher que fala merdas que fiz”, em que a respeitável profissional do sexo seja chamada do que ela é: puta, e ainda possa retrucar: com muito orgulho!
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Fonte ==> Folha SP