Produção de cevada cresce no Brasil, mas indústria liga alerta

Maltaria cevada

A cevada, principal matéria-prima da cerveja, cresce em todo o Brasil puxada pelo investimento no campo e nas indústrias. O cereal ainda não abastece todo o mercado nacional, mas caminha nessa direção. No entanto, a mudança nos hábitos dos brasileiros, sobretudo nas novas gerações, pode ser um empecilho a esse avanço.  

O Brasil produz, em média, entre 400 mil e 500 mil toneladas de cevada por ano, principalmente na região sul. O Paraná é o maior produtor nacional do cereal. “O estado paranaense assumiu a liderança em decorrência de condições climáticas mais favoráveis, solo mais adequado ao cultivo de grãos de inverno e forte organização do sistema cooperativista”, diz Salatiel Turra, analista de desenvolvimento técnico e economista do Sistema Ocepar.

Dentre as organizações que se destacam, está a Cooperativa Agrária, estabelecida em Entre Rios, distrito de Guarapuava, que se dedica ao cultivo de culturas de origem europeia. Ainda na década de 60, a cooperativa criou a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (FAPA), que, segundo Noemir Antoniazzi, pesquisador da entidade, gerou ganhos agronômicos que elevaram a qualidade da cevada nacional.

A produção não consegue atender a toda a demanda da indústria nacional, mas vem crescendo ano após ano. “A demanda da indústria cervejeira brasileira supera 800 mil toneladas anuais, o que torna necessária a importação complementar de cevada, especialmente para atender padrões específicos de qualidade exigidos para malteação”, salienta Turra.

Bruno Reinhofer cultiva cevada há 19 anos em Reserva do Iguaçu, sudoeste do Paraná, em uma área de mais de 800 hectares. O agricultor conta que já plantou outras culturas de inverno, mas decidiu dedicar-se exclusivamente à cevada. “A cevada é mais técnica, entretanto tem mercado, e conseguimos melhor desempenho com a vinda de variedades novas”, afirma.

VEJA TAMBÉM:

  • Produtores de maçã atribuem falta de mão de obra ao Bolsa Família
  • Conflito no Irã ameaça bilhões em exportações brasileiras de carne halal

Produção de malte ganha escala no país

“Uma maltaria tem como papel fundamental transformar cevada cervejeira em malte, insumo essencial para a indústria cervejeira”, explica Vilmar Schüssler, gerente da Maltaria Campos Gerais.

Instalada em Ponta Grossa, a 100 km de Curitiba, a maltaria que Schüssler gerencia é a maior do país. A unidade recebeu um investimento de R$ 1,6 bilhão para produzir 240 mil toneladas de malte por ano, o que demanda em torno de 300 mil toneladas anuais de cevada cervejeira.

A Maltaria Campos Gerais ainda utiliza em torno de 30% de cevada importada, principalmente da Argentina, mas para Schüssler a produção nacional tem crescido, principalmente com apoio de cooperativas. Segundo ele, o apoio aos produtores e o avanço da pesquisa explicam o crescimento acelerado da produção de cevada no Brasil.

Maltaria Campos Gerais, localizada em Ponta Grossa. (Foto: Almir Junior/Cooperativa Agrária)

Mudanças no consumo de álcool alertam indústria

A região dos Campos Gerais no Paraná vem recebendo investimentos significativos da indústria cervejeira. A Ambev, que já tem uma planta industrial em Ponta Grossa, inaugurou no final do ano passado a primeira fábrica de garrafas de vidro do estado com investimento de R$ 1 bilhão. Com capacidade para produzir até 600 milhões de garrafas por ano, a planta vai abastecer fábricas da Ambev em diversos estados.

Nos últimos anos o Grupo Heineken investiu R$ 2 bilhões para ampliar a capacidade de produção na indústria em Ponta Grossa, que se tornou a maior cervejaria do Grupo no Brasil e a terceira maior do mundo.

As duas indústrias são grandes consumidoras do malte produzido no Brasil e foram fundamentais para os elevados investimentos na cadeia produtiva. O cenário atual, porém, inspira cautela.

O Grupo Heineken anunciou, no começo de fevereiro, a demissão de 6 mil postos de trabalho em sua operação global, o que representa em torno de 7% do quadro total de funcionários. A justificativa foi um crescimento menor dos lucros. Contudo, mudanças de hábitos dos consumidores chamam atenção para aspectos menos conjunturais e mais sistêmicos.

O principal é a queda no consumo de bebidas alcoólicas puxada pela Geração Z, composta por jovens nascidos entre final da década de 1990 e início da década de 2010. Segundo pesquisa realizada a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), entre 46% e 64% das pessoas entre 18 e 24 não beberam álcool ano passado. Em outras gerações a abstinência também cresceu, porém de maneira menos expressiva.

Para Turra, “a redução no consumo de cerveja tende a gerar maior cautela por parte das maltarias em relação à ampliação de capacidade e novos investimentos. Esse cenário pode impactar decisões de expansão de área e adoção de tecnologias no campo”.

Procuradas pela reportagem da Gazeta do Povo, Ambev e Grupo Heineken não se manifestaram.

Novos mercados para a cevada

Turra acredita que o setor de cevada tem potencial para reduzir a dependência da indústria cervejeira. “A cevada apresenta potencial para maior utilização na alimentação humana, especialmente em produtos integrais e funcionais. Também pode ser direcionada à alimentação animal. Além disso, estudos apontam aplicações industriais e energéticas como oportunidades futuras”, aponta.

Para Schüssler, a produção de cevada é direcionada quase exclusivamente à fabricação de malte, mas o cereal tem condições de atender também o mercado forrageiro para alimentação animal. Já Antoniazzi aposta no crescimento da cevada no país e até na autossuficiência. “Os avanços da pesquisa em genética estão permitindo cultivar cevada em novas regiões, ampliando o acesso de mais produtores à cultura e mantendo altos níveis de qualidade para as diferentes demandas do mercado. Não temos dúvida do potencial do Brasil ser autossuficiente em cevada no médio prazo”, pontua.

VEJA TAMBÉM:

  • O Brasil que quase virou uma potência na produção de carne de coelho
  • Com protagonismo crescente, etanol de milho vira aposta do agro brasileiro



Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

9 - 5 = ?
Reload

This CAPTCHA helps ensure that you are human. Please enter the requested characters.