Depois da avalanche bolsonarista de domingo, não faltarão análises esmiuçando cada um dos erros da esquerda. As célebres palavras de Mano Brown serão repetidas à exaustão. Não tenho como contribuir com essa empreitada. Quero, ao contrário, olhar para o meu lado, e me perguntar: onde foi que a direita errou?
Não falo, é claro, da direita bolsonarista. Essa está justificadamente eufórica, tendo não só batido a esquerda como também tirado um bom naco do poder do centrão. Os problemas só virão em 2027. Caso vençam em 25 de outubro, é claro.
Estou pensando na minha direita, a direita liberal, a centro-direita, que defendia economia moderna, instituições sólidas e independentes, e liberdade nos costumes. A esquerda está reduzida, mas aguerrida. Essa direita deixou de existir.
Uma sociedade em que todos sejam livres para viver segundo seus próprios valores, que premia o mérito e que fornece a todos as oportunidades para desenvolver seu potencial. Em que a ciência e o livre debate são valorizados, bem como a diversidade dos modos de vida e das crenças, vista como algo desejável em si. Era mais ou menos esse o ideal de sociedade de uma direita liberal que agora parece que se perdeu.
Ela se definia antes de tudo em oposição ao petismo. O petismo que aparelhava instituições, que fazia chantagem moral, que manipulava as massas com discurso populista e emocional, negando a primazia da argumentação racional.
Instituições independentes, democracia liberal, império da lei, igualdade de oportunidades, políticas públicas baseadas em evidências. Por incrível que pareça, esses valores abstratos —que para mim são traços centrais de uma sociedade justa e digna— não arrastam as multidões. Era um tipo de pensamento político, enfim, de uma parcela esclarecida da elite (ou que assim se via), representado principalmente pelo PSDB, e que, hoje sabemos, só conseguia o apoio de uma parcela expressiva da população enquanto a comunicação e as narrativas da sociedade eram determinadas pelas elites.
O que podemos aprender de domingo? A primeira lição é a centralidade das redes sociais. Disso, vem a primazia dos líderes personalistas sobre os partidos, algo que a própria dinâmica das redes favorece. Nelas, o posicionamento impessoal das instituições não chega longe; as pessoas se relacionam com outras pessoas. Grandes puxadores de voto fizeram bancadas. Nomes mais independentes ou apagados ficaram de fora.
A segunda é a opção pelo conflito. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano, família Bolsonaro. Quando penso neles, a primeira coisa que me vem à mente não é responsabilidade fiscal, e sim o gosto pela guerra. Apoiar cada um deles, repetir suas frases polêmicas, é já um ato de enfrentamento. Eles próprios pintam a política como o palco de uma guerra espiritual.
Algumas dessas lições até são aplicáveis a uma direita moderada. Mas se, para você, o objetivo da política é uma sociedade que funcione para todos, quem será seu inimigo numa guerra santa? Se a impessoalidade é um valor das instituições, como encarná-la em influencers? Como celebrar a diversidade de modos de vida se o povo clama por uma verdade divina?
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Fonte ==> Folha SP

