“Não quero ser o cara babaca, gosto muito de você, valorizo isso que a gente tem e quero muito que a gente fique bem, independente de qualquer coisa. Não quero te machucar, entende? É por isso que to falando isso agora…”
Essa é a versão 2026 do “não é você sou eu”. Uma espécie de atualização de software do pé na bunda, agora embalada em vocabulário terapêutico, cuidado emocional e promessas de consideração. Costuma ser pronunciada por homens que já foram acusados de falta de responsabilidade afetiva, narcisismo, egocentrismo, omissão emocional e “otras cositas más” em relações recentes e, como bons “machos em recuperação simbólica”, juram de pés juntos que jamais repetiriam os erros do passado.
Ironicamente, ao anteciparem fins de relações que mal começaram, partindo do pressuposto que a mulher interessada em conhecê-los um pouco mais está automaticamente 200% entregue e demandante de certezas absolutas, eles se mantêm presos a tal lógica paternalista e machista que juram estar desconstruindo. A estética mudou: hoje usam purpurina no Carnaval, já beijaram um amigo, trocaram os carrões importados por bikes elétricas e ostentam sacolas retornáveis. Mas, diante do afeto real, do encontro concreto com um outro que deseja, recuam.
Do ponto de vista psicanalítico, o término passa a dizer menos sobre a preocupação com quem fica e mais sobre a necessidade de quem vai embora preservar a própria imagem —temos aqui um narcisismo defensivo típico do nosso tempo, no qual o que está em jogo é manter intacto o ideal do eu— a imagem de si como alguém evoluído, sensível, ético e desejável.
É tanto medo de serem vistos como babacas que, assustados e autocentrados, muitos performam verdadeiros “coitos interrompidos” no afeto: interrompem vínculos não porque não haja interesse, mas por que não sustentam o envolvimento, as dúvidas que esse início de processo tráz e, sobretudo, as possíveis renúncias que surgem quando algo começa a ganhar densidade.
É importante dizer: não se trata aqui de vilões individuais. Trata-se de uma lógica psíquica contemporânea, marcada não só pelas defesas narcísicas intensas como pela dificuldade de sustentar perdas. Ao encerrar a relação “com cuidado”, o sujeito diz que evita o desrespeito quando, de fato, evita principalmente a experiência da castração: o fato de que amar alguém implica perder outras possibilidades, abrir mão de fantasias e aceitar limites.
O paradoxo é que essas mesmas pessoas que não querem te machucar —e por isso preferem interromper a relação antes de qualquer “prova concreta” de que estão sendo babacas— costumam estar altamente envolvidas com a intimidade compartilhada. Afinal, se a idealização da farra e da vida solta é sedutora, há algo de profundamente envolvente e acolhedor em expor vulnerabilidades, ser visto e escutado por alguém e, junto com este outro, descobrir novos encaixes de corpos, conversas e rotinas.
Não por acaso, pesquisas como a realizada pelo aplicativo happn com mais de 2.000 brasileiros, mostram que focar na vida amorosa lidera os desejos para 2026. Em 2025, carreira e saúde ocupavam o topo da lista. O dado mais interessante é que essa mudança é puxada principalmente pelos homens: um em cada três afirma colocar o romance como prioridade.
A pergunta que fica é: prioridade em quê? Em construir um vínculo real com outro alguém —permeado por oscilações, dúvidas e renúncias— ou na idealização de um apaixonamento arrebatador, absoluto, diferente de tudo, que lhes dê a certeza de que esta é “A pessoa” e, assim, justifique, sem dor, abrir mão das infinitas possibilidades projetadas nas milhares de carinhas deslizadas pra direita nos apps?
Arrisco dizer que muitos seguem apostando na segunda opção. Foram tantos anos em relações mornas ou engessadas que há uma espécie de retorno a um devaneio adolescente somado a uma urgência “adulta-idosa” de quem não tem tempo a perder: ou arrebata-me ou seguirei aberto ao jogo.
Mas poderemos ser arrebatados se todo afeto do outro for visto como demanda e castração? Poderemos construir algo se esperarmos certezas para dar o próximo passo? Poderemos deixar de ser babacas se, ao invés de jogar junto, arriscar e encarar o processo turbulento de se conhecer, antecipamos saídas para evitar desconfortos futuros?
O discurso do “novo homem sensível“, que encerra a relação antes de machucar, revela, muitas vezes, o velho medo de se implicar no amor. Não se trata apenas de covardia ou falta de caráter, mas de um empobrecimento subjetivo: a incapacidade de sustentar perda, espera e ambivalência. Ao fugir do vínculo, não se preserva o outro, empobrece-se a própria experiência amorosa.
Talvez o verdadeiro desafio do chamado novo homem não seja aprender a falar melhor sobre cuidado, mas sustentar o desconforto de desejar, escolher e perder sem transformar a fuga em virtude e o medo em ética.
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Fonte ==> Folha SP