As uniões entre neandertais e seres humanos de anatomia moderna no fim da Era do Gelo, responsáveis pela presença de DNA dos primos extintos da humanidade no genoma do Homo sapiens até hoje, aconteceram principalmente entre homens neandertais e mulheres da nossa espécie, de acordo com um novo estudo.
À primeira vista, a conclusão é surpreendente porque acabou havendo um predomínio muito maior da população de humanos modernos sobre o Homo neanderthalensis com o passar do tempo, levando ao desaparecimento desse hominínio (parente próximo da nossa espécie). Quando isso acontece, o mais comum é que os homens da população “vencedora” acabem gerando mais filhos com as mulheres da outra população, ao menos quando o encontro é entre etnias diferentes de H. sapiens.
“Espero muito que os arqueólogos e os antropólogos também possam dar sua contribuição, com mais informações sobre a natureza do contato entre esses grupos. Acho que geneticistas como eu só conseguem ir até certo ponto nesse tipo de estudo.”
Platt, junto com seus colegas Sarah Tishkoff e Daniel Harris, publicou a análise em artigo na última quinta-feira (26) no periódico especializado Science.
Se o trabalho estiver correto, ele ajudaria a explicar, entre outras coisas, o que os pesquisadores chamam de “desertos neandertais” que aparecem no DNA das pessoas de hoje e, mais especificamente, no cromossomo X, um dos chamados cromossomos sexuais, com influência importantíssima no sexo de membros da nossa espécie. (Em geral, pessoas que pertencem biologicamente ao sexo feminino têm dois cromossomos X, enquanto pessoas do sexo masculino têm um cromossomo X e um Y, embora existam diversas exceções a esse padrão.)
Os “desertos neandertais” correspondem a regiões do DNA em que o legado da hibridização (grosso modo, “mestiçagem”) com esses humanos arcaicos está muito menos presente do que o esperado. De modo geral, cerca de 2% do genoma de pessoas de origem não africana tem origem neandertal, e, caso a presença desse material genético fosse “neutra” para os humanos modernos, seria de esperar que a herança arcaica estivesse igualmente distribuída por todos os cromossomos.
Não é isso o que acontece, no entanto, com a presença dos tais desertos, que correspondem a diversas áreas com milhões de “letras” químicas de DNA cada uma (para efeito de comparação, o genoma humano inteiro tem 3 bilhões de pares de “letras”).
O mais curioso, além disso, é que membros de uma população de neandertais da região das montanhas Altai, na Ásia Central, também mostram sinais de hibridização com seres humanos de anatomia moderna. Essa mistura teria acontecido muito antes do encontro “principal” entre as espécies (250 mil anos atrás versus 45 mil anos atrás, respectivamente). E, ao analisar o DNA desses neandertais, os pesquisadores descobriram justamente o oposto: “desertos humanos” no genoma deles, que batem com as regiões dos “desertos neandertais” no nosso.
Um jeito simples de explicar isso seria alguma forma de incompatibilidade genética, gerada justamente pela divergência entre as duas espécies –que ainda não estava completa a ponto de impedir a reprodução totalmente, mas já teria progredido bastante. Nesse caso, com o passar das gerações, a tendência é que a seleção natural fosse “limpando” os genes incompatíveis entre si, por meio do menor sucesso na reprodução de quem carregasse combinações que não funcionavam direito, por exemplo.
No novo trabalho, porém, ao reexaminar o DNA dos neandertais híbridos das montanhas Altai, o trio de pesquisadores descobriu que esse processo não afetou o cromossomo X conforme o esperado. Pelo contrário: havia bem mais trechos de DNA derivados do cromossomo X do H. sapiens –62% a mais do que o esperado num cenário neutro. E, segundo eles, isso só seria possível se os homens neandertais estivessem se reproduzindo, de forma preferencial, com as mulheres de anatomia moderna.
Não é possível comparar diretamente esse cenário de 250 mil anos atrás com o da “mestiçagem principal” há 45 mil anos porque, até agora, não foi obtido nenhum genoma completo de um neandertal que viveu depois desse segundo evento. Mas o padrão dos “desertos” no genoma poderia ser igualmente explicado, em grande parte, pelo mesmo tipo de hibridização assimétrica entre os sexos, defendem os pesquisadores –embora não descartem que alguma forma de incompatibilidade genética também tenha contribuído para o cenário.
Para Platt, o dado é compatível com o que se sabe sobre a hibridização envolvendo outras espécies, e pode significar que, por algum motivo, as mulheres de anatomia moderna podiam ser mais atraentes para os homens neandertais.
“Quase sempre, machos e fêmeas têm papéis diferentes numa população ou numa espécie”, argumenta ele, citando o fato de que os machos podem ser mais móveis, tendo mais chances de encontrar outras populações ou de procurar parceiras em grupos diferentes dos deles.
“Além disso, o que é atraente para os machos quase nunca o é para as fêmeas. Não acho difícil de imaginar que, no encontro entre duas populações que divergiram tanto entre si quanto os neandertais e os humanos modernos, essas diferenças possam ter afetado de forma distinta a atração por membros do outro grupo no caso de machos e fêmeas.”
O mais difícil, claro, é elucidar como isso poderia ter afetado as dinâmicas sociais e culturais de cada espécie no seu cotidiano ao longo de centenas ou até milhares de anos de contato.
Fonte ==> Folha SP