Governo Trump nega ter ameaçado Vaticano após críticas – 10/04/2026 – Mundo

Pessoa vestindo traje religioso branco e capa vermelha com cruz bordada nas costas, vista de costas contra fundo preto

O governo de Donald Trump está tentando acalmar a polêmica relacionada às acusações de que teria ameaçado o embaixador do papa Leão 14, em Washington, como parte de um esforço para pressionar o Vaticano a se alinhar às políticas militares da Casa Branca.

O encontro ocorreu no Pentágono, em janeiro, enquanto o Vaticano demonstrava preocupação cada vez maior com as ações militares defendidas pelo governo americano. Trump havia ameaçado tomar a Groenlândia de um aliado da Otan, a Dinamarca; determinado ataques com mísseis em águas internacionais contra embarcações supostamente envolvidas no tráfico de drogas; e capturado o então líder venezuelano, Nicolás Maduro, com quem a Santa Sé havia tentado negociar uma saída diplomática.

O papa Leão 14, primeiro líder da Igreja Católica nascido nos Estados Unidos, lamentou o uso crescente da força militar para resolver disputas internacionais. “A guerra voltou à moda, e o fervor pela guerra está se espalhando”, disse o pontífice a diplomatas.

Após esse discurso, o cardeal Christophe Pierre, à época núncio apostólico (cargo correspondente ao de embaixador) nos EUA, foi convocado para uma reunião no Pentágono com Elbridge Colby, subsecretário de política do Pentágono. O avô de Colby, ex-diretor da CIA, trabalhou em colaboração estreita com o papa João Paulo 2º na luta contra o comunismo durante a Guerra Fria.

Francesco Sisci, cofundador do Instituto Appia, um think tank geopolítico que acompanha de perto a diplomacia do Vaticano, disse que autoridades de Trump podem ter achado que Colby era a pessoa certa para transmitir uma “mensagem amigável” ao núncio apostólico e apelar para que o Vaticano se alinhasse mais estreitamente às políticas de Washington.

Mas a reunião “deu errado” depois que Pierre disse que o papa Leão 14 seguiria seu próprio caminho, guiado pelos valores da Igreja, afirmou Sisci. Nesse momento, outro funcionário, não Colby, teria invocado o espectro do chamado papado de Avinhão, um período de quase 70 anos, de 1309 a 1376, quando o rei da França teve seu próprio “antipapa” em oposição a Roma.

A invocação inesperada do papado de Avinhão foi interpretada como uma ameaça implícita de que Washington poderia estabelecer um papa rival em oposição a Leão 14 caso o líder católico nascido em Chicago não se alinhasse às diretrizes de Washington, acrescentou Sisci.

“A situação pode ter ficado um pouco tensa”, disse ele. “Deu errado. Foi muito mal colocado. Alguém falou demais.”

O Pentágono descreveu o relato —publicado primeiro pelo site The Free Press— como “altamente exagerado e distorcido”. E insistiu que a reunião foi “uma discussão respeitosa e razoável”.

Em comunicado posterior, afirmou que Elbridge Colby, subsecretário de política do Pentágono, “teve uma reunião substantiva, respeitosa e profissional com o cardeal Pierre, então núncio apostólico, e sua equipe” em 22 de janeiro. O Pentágono confirmou que os assuntos discutidos incluíram “questões de moralidade na política externa” e a “lógica da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA”.

Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, disse que o governo Trump tem uma “relação positiva” com o Vaticano. “O presidente fez mais do que qualquer um de seus antecessores para salvar vidas e resolver conflitos globais”, disse ela.

“Após a conclusão de seus objetivos militares no Irã, ele está esperançoso de que o acordo em discussão possa levar a uma paz duradoura no Oriente Médio.”

Procurado, um porta-voz do Vaticano não quis comentar. As relações entre o Vaticano e o governo Trump têm sido tensas desde que Leão 14 foi eleito líder da Igreja Católica, há quase um ano, após a morte do papa Francisco. Desde o início de seu papado, o pontífice americano tem criticado a repressão do governo Trump aos migrantes.

Mas as fricções se agravaram este ano por causa das políticas americanas em relação a Venezuela e Cuba, e, mais recentemente, pela campanha de bombardeios americanos no Irã.

Elas explodiram após um apelo papal considerado incomum para que cidadãos americanos ligassem para seus congressistas pedindo que interrompessem os bombardeios ao Irã, poucas horas antes do vencimento do prazo de Trump que ameaçava a aniquilação do Irã como civilização caso Teerã não reabrisse o estreito de Hormuz.

Massimo Faggioli, professor de teologia e história religiosa no Trinity College, em Dublin, disse que a intervenção papal na política doméstica americana foi a “opção nuclear” do Vaticano na tentativa de impedir uma escalada ainda maior do conflito.

“Eles entendem que a situação nos EUA está fora de controle e precisam usar todos os meios possíveis para dar o alarme e despertar as pessoas para o que está acontecendo”, disse ele.

No entanto, o padre Antonio Spadaro, subsecretário do dicastério do Vaticano para cultura e educação, disse que não há rivalidade entre Trump e o papa nascido nos EUA.

“O que está em jogo é algo completamente diferente: é o papa lutando contra a guerra”, escreveu Spadaro, na quinta (9), em um site de notícias católico. “Não contra um presidente, mas contra uma forma de pensar. Contra a própria ideia que torna a guerra possível.”

Analistas dizem que líderes da Igreja Católica estão desconfortáveis com a descrição do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, da campanha no Irã como uma guerra religiosa, uma imagem que evoca capítulos mais sombrios e violentos na história de 2.000 anos da Igreja.

“Hegseth fala de uma guerra sagrada, uma cruzada. Eles desenvolveram uma narrativa religiosa sobre a guerra e foi aí que o Vaticano ficou realmente assustado”, disse Faggioli. “É aí que você começa a criar uma série de consequências a longo prazo que torna a coexistência religiosa impossível.”

Sisci disse que o Vaticano ficou consternado com a ameaça de Trump de aniquilar a civilização iraniana. “A verdadeira questão é que a Igreja não pode permitir o uso de um verniz religioso ou conotações religiosas na guerra contra o Irã, um país muçulmano”, disse ele. “A Igreja não quer mais cruzadas.”

Não é apenas o próprio Leão 14 que tem se manifestado, mas também a liderança religiosa católica nos EUA. O arcebispo Timothy Broglio, capelão católico do Exército dos EUA, criticou a ofensiva americana em uma entrevista exibida no fim de semana da Páscoa no programa de TV Face the Nation. Ele questionou a justificativa para o ataque e sugeriu que o processo diplomático não havia sido esgotado.

“Acho que a guerra é sempre o último recurso”, disse Broglio. “Realmente acho difícil caracterizar esta guerra como algo que seria patrocinado pelo Senhor.”

Ainda assim, esforços para acalmar os ânimos já estão em andamento. Esta semana, o embaixador dos EUA junto à Santa Sé, Brian Burch, recebeu o novo embaixador do papa em Washington, o arcebispo Gabriele Caccia.

Em publicação nas redes com fotos dos dois homens sorrindo, Burch disse que discutiram as relações de Washington com o Vaticano e “as oportunidades de trabalhar juntos em questões de interesse mútuo”.



Fonte ==> Folha SP

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