“Com a ajuda de vocês, jornalistas, Lula vai ganhar, e esse país vai virar um caos. Confundiram trabalho com posição pessoal. Saíram do salto alto e abraçaram a campanha do PT. Obrigado pela convivência. Bye, bye.”
As queixas e observações, no entanto, vêm em proporções diferentes. É muito maior a quantidade de manifestações temerosas de uma eventual vitória do filho de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. Mais raras são as que acusam o jornal de viés ou suposta campanha pró-Lula.
Leitores que apoiam Lula tendem a ser mais vocais mesmo fora das eleições. Resta saber se são apenas mais dados à comunicação ou se os partidários do bolsonarismo teriam menos motivos para queixas.
“Acho curioso que a postura seja se posicionar ‘em caso de ruptura iminente’. Qual o limite da iminência? O jornal espera que o candidato desista de anistiar condenados por tentativa de golpe? A alusão a mudança constitucional é análoga a declarações do mandatário anterior que muitos consideravam ‘bravata’”, diz Danilo França. Ele criticava a resposta do jornal, que, questionado no primeiro turno sobre o motivo de não ter adotado o slogan “pela democracia” neste ano, afirmou não haver necessidade num cenário “em que há um presidente comprometido com a democracia e o processo eleitoral ocorre dentro da normalidade”.
Se sobrou confiança nos freios e contrapesos, faltou examinar melhor o que apenas muito recentemente passou a ser visto como potencial de “estelionato eleitoral” bilateral. Enquanto os debates na TV foram criticados por falta de checagem em tempo real, o jornal às vezes ainda fica devendo na checagem posterior.
Para ela, era um erro o texto “apenas narrar factualmente a proposta” do candidato e equipará-lo ao Desenrola, “com escala muito menor do que a proposta do Bolsonaro, que traria consequências econômicas muito distintas para o país”.
Não é que Lula não erre nem exagere nas propostas. Mas, quando surgem, esses erros e exageros são detectados com mais facilidade, até porque as reações da entidade “o mercado” costumam atribuir-lhes sem demora seus selos de classificação.
No caso de Flávio Bolsonaro, o fato de aparentemente haver dois discursos diferentes, um para o andar de cima e outro para o de baixo, ficou mais claro após o primeiro turno. Mas a fé da Faria Lima no candidato do PL permaneceu em segundo plano, quando deveria ter sido objeto de uma investigação de milagres digna do Vaticano.
O jornal mostrou, em seguida, como as “contradições do discurso econômico de Flávio expõem dúvidas no ajuste fiscal prometido pelo candidato”. Pelo ânimo do mercado, porém, a dúvida parecia não ser tanto no ajuste.
Na última semana, um texto todo com declarações em off afirmava que o “mercado segue apostando em Flávio mesmo com incômodo por promessas de campanha”. Lá pelas tantas, informava que “alguns gestores indicaram não acreditar que, de fato, ela [medida de congelamento de dívidas] será implementada”. Ah, bom. Faltou só o destaque.
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Fonte ==> Folha SP

