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Brasil tem contribuição recorde para economia de guerra – 28/01/2026 – Rodrigo Tavares

A imagem mostra um estande da Taurus, com uma grande faixa escrita

Quando chegou ao Brasil em 1808, Dom João 6º criou a primeira instituição bancária, a primeira tipografia, o primeiro jornal e lançou as bases da indústria bélica com a criação da Real Fábrica de Pólvora, no Rio de Janeiro. Antes disso, todo o armamento presente no Brasil era importado da Europa.

Pulemos mais de dois séculos. De janeiro a novembro de 2025, a indústria brasileira de defesa atingiu US$ 3,1 bilhões em autorizações para exportações de produtos e serviços, segundo o Ministério da Defesa, que classifica o resultado como “recorde histórico”. O número representa alta de 74% sobre 2024 (US$ 1,78 bilhão) e é mais que o dobro de 2023 (US$ 1,45 bilhão). De 2023 a 2025, o crescimento acumulado foi de cerca de 114%, o que significa que o setor mais que dobrou de tamanho nesse intervalo. Nunca o Brasil exportou tanto armamento.

Com o enfraquecimento das regras e da previsibilidade do sistema internacional, cresceu a demanda por capacidades militares, voltada à reposição acelerada de estoques, à modernização diante de novas ameaças e à antecipação de compras para reduzir a dependência de fornecedores em crise.

Em 2024, os gastos militares globais atingiram US$ 2,718 trilhões, com aumento real de 9,4%. É o salto anual mais acentuado desde pelo menos 1988, segundo o Sipri (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo). O rearmamento está sendo normalizado como política pública.

O Ministério da Defesa lista Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal como os cinco maiores importadores de produtos de defesa brasileiros. O mesmo balanço estima que a Base Industrial de Defesa faça comércio com cerca de 140 países e reúna aproximadamente 80 empresas exportadoras. Entre as maiores estão a Taurus, fundada em 1939, e a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), criada em 1926, duas companhias que ajudam a explicar o peso de armas leves e munições no portfólio exportador brasileiro. O setor gera quase 3 milhões de empregos diretos e indiretos.

Isto significa que o Brasil está “virando belicista” ou está “alimentando guerras no exterior”? A pergunta é legítima, mas o debate público não pode ser refém do simplismo e do maniqueísmo. De um lado, a ideia de que defesa é soberania e, portanto, qualquer venda se justifica. De outro, a tese de que armas são sempre imorais e, portanto, nenhuma venda é aceitável.

A discussão fica mais difícil quando se olha para a Europa. No fim de 2025, o Parlamento Europeu aprovou uma orientação indicando que o arcabouço europeu de finanças sustentáveis é compatível com investimentos em defesa e que não há uma proibição geral de financiar o setor. Para os europeus, os garrinchas da sustentabilidade, investir em agricultura regenerativa ou em armas nucleares é quase a mesma coisa. Não estou fazendo um drible com as palavras: o art.1º do documento não estabelece, de fato, uma vedação explícita que impeça o selo “sustentável” de ser aplicado a armas como as usadas em Hiroshima.

Entre proibir tudo e liberar tudo existe um terreno intermediário em que a política pública faz diferença. É exatamente nesse espaço que uma democracia decide se tem uma indústria de defesa sob controle civil ou se apenas administra um fluxo de autorizações que cresce por inércia. Se o Brasil quer fincar os pés neste espaço de meio-termo, precisa de gerar mais previsibilidade e confiança.

Como? O governo deveria publicar, com periodicidade, critérios de autorização e padrões de risco, abrir dados agregados por categoria e destino, registrar suspensões e recusas de forma minimamente explicável e padronizar exigências de usuário final. Deveria também estabelecer cláusulas reais sobre reexportação e desvio, com verificação por amostragem nos contratos mais sensíveis. Outro objetivo deveria ser criar gatilhos formais para reavaliar licenças quando o contexto político e humanitário do comprador se deteriora. E, acima de tudo, o Brasil deveria garantir que esse sistema responda a escrutínio, com órgãos de controle e Congresso de mangas arregaçadas.

Em 2024, um tribunal de apelação em Haia determinou que o governo holandês interrompesse a exportação de peças do F-35 para Israel por entender que havia risco claro de violações graves do direito humanitário em Gaza. No Canadá, a exportação de veículos blindados leves para a Arábia Saudita gerou anos de debate sobre empregos e indústria versus riscos de uso em violações de direitos humanos. O tema mobilizou a sociedade civil e produziu discussões recorrentes sobre licenciamento, evidências de uso e obrigações internacionais.

Agora que o Brasil bate recordes na indústria de defesa, convém não importar os vícios do clube dos exportadores.



Fonte ==> Folha SP

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