Por Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)
O Brasil precisa definir qual agro pretende construir para os próximos dez, vinte ou trinta anos. Não podemos continuar planejando um dos setores mais importantes da economia nacional olhando apenas para a próxima safra. Se queremos manter o país entre os grandes produtores mundiais de alimentos, energia e biocombustíveis, precisamos transformar a política agrícola em uma verdadeira política de Estado, com horizonte superior a dez anos, metas claras, recursos previsíveis e segurança para investir.
Essa discussão vai muito além das propriedades rurais. O agro é uma extensa cadeia econômica que começa antes da porteira, passa pelo campo e continua na indústria, no comércio e nos serviços. Quando um produtor compra um trator, instala irrigação, constrói um armazém, investe em genética, conectividade ou agricultura de precisão, movimenta fabricantes, concessionárias, bancos, seguradoras, transportadoras, empresas de tecnologia, assistência técnica e milhares de trabalhadores. Dar previsibilidade ao produtor significa, portanto, investir em uma parcela expressiva da economia brasileira.
Hoje, entretanto, tomar uma decisão de longo prazo no campo exige coragem. O produtor enfrenta margens menores, custos elevados, eventos climáticos extremos, crédito caro, oscilações de preços e um mercado internacional marcado pelo avanço do protecionismo. Mesmo assim, continua incorporando tecnologia, inovação e sustentabilidade para abastecer o Brasil e levar nossos produtos a mais de 150 países, alimentando mais de um bilhão de pessoas nos cinco continentes.
Essa realidade é especialmente relevante quando observamos a estrutura das propriedades. Cerca de 70% dos estabelecimentos rurais brasileiros estão nas mãos de pequenos e médios produtores. Em São Paulo, propriedades de até 68 hectares representam aproximadamente 73% do total. São milhares de famílias que geram empregos, contratam serviços, compram insumos e movimentam a economia dos municípios.
Por isso, quando a renda cai no campo, os efeitos rapidamente chegam às cidades. O produtor posterga a compra de uma máquina, deixa para depois a reforma de uma instalação, reduz a contratação de serviços ou suspende a implantação de uma nova tecnologia. A concessionária vende menos, a indústria recebe menos pedidos, o transportador perde cargas e o comércio local sente a retração.
O contrário também acontece. Quando existe confiança no futuro, o investimento rural se transforma em renda, empregos e desenvolvimento muito além da porteira.
Produzir tornou-se uma atividade intensiva em capital, tecnologia e conhecimento. Fertilizantes, defensivos, combustíveis, energia, máquinas, fretes e serviços pressionam os custos. Paralelamente, agricultura de precisão, bioinsumos, irrigação, conectividade, mecanização, genética, rastreabilidade e preservação ambiental deixaram de ser apenas diferenciais e passaram a representar exigências de competitividade.
O produtor sabe que precisa modernizar sua propriedade. A questão é como assumir investimentos elevados sem saber quais serão as condições de crédito, seguro, tributação, infraestrutura e acesso aos mercados nos próximos anos.
Uma máquina agrícola pode ser financiada por vários anos. Um projeto de irrigação ou armazenagem exige aportes elevados. Culturas permanentes demoram anos para atingir seu potencial produtivo. Em muitos casos, o retorno dos investimentos no campo pode levar oito anos ou mais. Como exigir planejamento de longo prazo do produtor se as principais políticas para o setor são discutidas anualmente?
O Plano Safra é indispensável, mas não pode continuar sendo praticamente a única grande referência da política agrícola brasileira. O país precisa avançar para um Plano Nacional de Desenvolvimento Agropecuário, um Plano Brasil, com horizonte mínimo de dez anos, capaz de estabelecer diretrizes permanentes para crédito, seguro rural, infraestrutura, armazenagem, irrigação, conectividade, pesquisa, inovação, defesa sanitária, assistência técnica e comércio exterior. Não significa engessar decisões futuras. Significa estabelecer uma direção.
O produtor precisa saber que haverá instrumentos financeiros para modernizar sua propriedade; a indústria precisa enxergar demanda para planejar sua produção; empresas de tecnologia precisam ter segurança para desenvolver soluções; instituições financeiras necessitam de parâmetros para estruturar linhas de crédito. Toda a cadeia ganha quando existe horizonte.
Imagine a diferença para um produtor que pretende adquirir uma colheitadeira, instalar irrigação ou digitalizar sua propriedade saber que existe uma política estruturada para a próxima década. Ele poderá calcular custos, organizar o fluxo de caixa, estimar ganhos de produtividade e projetar o retorno do investimento.
E cada investimento desencadeia outros. Uma máquina adquirida gera demanda para a indústria. Um sistema de irrigação movimenta fabricantes e instaladores. Um armazém mobiliza engenharia, siderurgia e construção civil. Uma propriedade conectada demanda telecomunicações, softwares e serviços digitais. Por isso, uma política agrícola de longo prazo é também industrial, tecnológica, comercial, logística e de desenvolvimento regional.
Os problemas financeiros enfrentados atualmente pelo setor demonstram a urgência dessa mudança. A sucessão de perdas climáticas, juros elevados, aumento dos custos e redução das margens levou milhares de produtores à renegociação de dívidas. Dados do sistema financeiro mostraram crescimento da inadimplência rural ao longo de 2025, atingindo especialmente pequenos e médios produtores. Em 2026, depois de intensa mobilização das federações de agricultura, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foram adotadas medidas para renegociação de operações de crédito rural. São ações importantes diante da emergência. Mas não podemos transformar renegociações sucessivas em política agrícola.
O objetivo precisa ser criar condições para que o produtor consiga pagar seus financiamentos com a renda obtida na própria atividade. Para isso, além de crédito adequado, precisamos fortalecer definitivamente a gestão de riscos.
O seguro rural é um dos principais exemplos. Enquanto concorrentes internacionais possuem sistemas amplos de cobertura, como os Estados Unidos, onde a taxa chega a mais de 90% das propriedades, a proteção brasileira continua insuficiente diante da dimensão de nossa produção e da crescente ocorrência de eventos climáticos extremos, atingindo no máximo 3%. Seguro rural não é privilégio. É proteção ao produtor, ao crédito, ao investimento, à cadeia produtiva e à segurança alimentar.
Um produtor protegido consegue atravessar uma quebra de safra, manter seus compromissos e preparar o próximo plantio. Sem cobertura adequada, uma seca, enchente ou geada pode comprometer anos de investimentos e transformar uma dificuldade produtiva em uma crise financeira.
Também precisamos solucionar a situação dos produtores que cresceram e hoje vivem entre dois mundos. Muitos ultrapassaram determinados limites da agricultura familiar justamente porque investiram, aumentaram a produtividade e ampliaram sua produção. Porém, ainda não possuem escala financeira para acessar em condições adequadas as linhas destinadas à agricultura empresarial. Não podemos punir quem cresceu. Uma política agrícola moderna precisa acompanhar a evolução das propriedades, garantindo mecanismos de transição e acesso ao capital para que pequenos e médios produtores possam continuar avançando.
Da mesma forma, precisamos compreender que competitividade não termina na porteira. O mercado internacional tornou-se mais protecionista. Tarifas, subsídios, exigências ambientais e barreiras sanitárias passaram a integrar uma disputa cada vez mais intensa pelos mercados globais. O produtor brasileiro pode ser extremamente eficiente dentro da propriedade e perder competitividade por fatores sobre os quais não possui qualquer controle. Por isso, uma estratégia de longo prazo precisa incluir uma política permanente de comércio exterior e defesa comercial, com inteligência de mercado, abertura de novos destinos, diplomacia econômica, defesa sanitária e respostas rápidas diante de práticas desleais. Não podemos esperar uma crise acontecer para decidir como reagir. Planejamento significa antecipar cenários.
Precisamos, portanto, substituir a cultura da emergência pela cultura do planejamento. Dez anos devem ser o ponto de partida, não o limite. O país precisa saber qual agro pretende ter em 2035, 2040 e 2050 e definir desde agora quais investimentos, tecnologias e políticas serão necessários para chegar lá. O produtor não pede garantia de lucro. Não pede que o Estado elimine os riscos inerentes à atividade. Pede condições para planejar, competir e investir. Previsibilidade gera confiança. Confiança gera investimento. Investimento gera produtividade. Produtividade gera renda, empregos, competitividade e desenvolvimento. Essa é a corrente que precisamos fortalecer.
O Brasil já demonstrou que sabe produzir. O produtor brasileiro já provou que sabe inovar, competir e preservar. Agora precisamos construir uma política pública compatível com essa capacidade.
Não por uma safra. Não por um mandato. Por, pelo menos, uma década e pelo futuro do país.

