Durante a infância e a adolescência, nos anos 1990, eles viram de perto algumas das primeiras vinícolas da Serra Gaúcha deixarem de lado os vinhos de garrafão para elaborar rótulos finos. Pois aqueles “piás” cresceram, estudaram enologia e hoje comandam suas próprias vinícolas, onde colocam as mãos na terra, colhem pessoalmente as uvas e engarrafam autenticidade.
Colegas do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), essa nova safra de enólogos está rompendo com a obsessão de emular vinhos europeus que marcou gerações anteriores de viticultores brasileiros. E foi esse espírito, amadurecido em conversas de churrasco e trocas de mensagens por celular, que os levou a criar a Rota Singular, no final de 2025.
O projeto tem ganhado força ao longo deste ano com um circuito de enoturismo de pouco mais de 21 quilômetros, unindo cinco vinícolas dessa nova turma nos municípios de Bento Gonçalves, Santa Tereza e Monte Belo do Sul.
“Não faz sentido copiar o que é produzido na Europa. Estamos em outro continente, temos clima e solos diferentes”, defende Gabriel Fontanive, 30 anos, à frente da Artisti Vinhos, fundada há seis anos em Bento Gonçalves. “Lá, existem rótulos excelentes, mas conseguimos fazer vinhos de muita qualidade aqui, e do nosso jeito”, completa em entrevista ao NeoFeed.
Em geral, esses enólogos dividem um modelo comercial parecido: vendem boa parte da produção durante as visitas que recebem em suas vinícolas, complementando as vendas com pedidos feitos por WhatsApp e Instagram, alguns nos seus sites ou em lojas parceiras. Ainda assim, cada um faz questão de desenvolver um estilo próprio de vinho — cujos preços variam de R$ 90 a R$ 250 a garrafa.
Fã da Divina Comédia, de Dante Alighieri, Gabriel tenta traduzir partes da obra em cor, aroma e sabor. Sua Artisti produz quatro rótulos com apenas 500 garrafas cada, cerca de 2 mil por ano. O Ato I – O rótulo Queda leva Pinot Noir envelhecido em barril de carvalho francês e Teroldego com Merlot, que descansam juntas em tanque de concreto, conferindo frescor e mineralidade.
O Ato II – A garrafa Inferno é um blend de três uvas, cada uma envelhecida em um tipo de madeira diferente: Cabernet Sauvignon em barrica americana, Teroldego em castanheira e Rebo em carvalho francês. “A barrica francesa traz especiarias e chocolate; a americana, baunilha e coco; e a castanheira, que pouca gente usa, é difícil de definir porque é algo novo, mas noto toques de nozes e defumado”, descreve. O resultado é um vinho de cor intensa, maior teor alcoólico, encorpado e com taninos presentes, tudo a ver com a ideia de inferno.
O Ato III — Purgatório mistura as castas Trebbiano e Malvasía, vinificadas parcialmente como vinho branco, e parcialmente como vinho laranja — quando as uvas brancas fermentam junto com suas cascas. Já o Ato IV – Paraíso é um espumante extra brut leve e fresco, de Chardonnay, Trebbiano e Riesling, como as pessoas imaginam o Céu.
As uvas nascem em um hectare, com cerca de 1,2 mil pés, na propriedade de 10 hectares onde seu avô imigrante se instalou em 1878. “Meu pai continuou fazendo vinhos em casa, e foi com ele que aprendi tudo”, conta Gabriel. “O curso, claro, abriu minha cabeça e me fez querer sair do convencional.”
Ele cumpre expediente na Laurentis e, depois, cuida da Artisti. Lá, o cultivo é 100% orgânico: não tem irrigação nem muito manejo. “Nosso terreno é acidentado, não temos máquina, a colheita é manual. Só meu pai e eu cuidamos de tudo”, diz. “Toda safra é uma incógnita. Mas a magia é essa: a cada ano faço um vinho diferente, mas que é a expressão do nosso terroir.”
Também em Bento Gonçalves, Matheus Zilio, de 29 anos, segue lógica parecida. “Meus vinhos não têm um padrão. Quero que uma safra não seja igual à outra”, diz ao NeoFeed. Seu Teroldego 2023, por exemplo, amadureceu em barrica de uísque e carvalho francês, resultando em aromas florais, boa acidez e boca untuosa; o próximo lote vai para barricas americanas, em busca de baunilha e caramelo.
Fã de “Divina Comédia”, Gabriel Fontanive, da Artisi Vinhos, traduziu em cores, aromas e sabores a obra de Dante Alighieri (Foto: artistivinhos.com.br)
“Meus vinhos não têm um padrão. Quero que uma safra não seja igual à outra”, afirma Matheus Zilio, da Zilio Vinhos Únicos( Foto: Instagram @ziliovinhosunicos)
Formado em enologia no IFRS, ele passou um tempo trabalhando na Herdade do Esporão, em Portugal, antes de voltar e assumir, ao lado do pai, a vinícola que antes pertencia a ele e ao tio e se chamava Bodegone, rebatizada no ano passado como Zilio Vinhos Únicos.
Além da sua vinícola, ele trabalha na Pizzato e se dedica aos seus negócios no período da noite e nos finais de semana. Da sua propriedade, saem de 3 mil a 4 mil garrafas por ano, elaboradas em lotes pequenos, com 300 a 600 unidades.
Na propriedade de quatro hectares, Matheus cultiva Prosecco, Moscato, Merlot, Rebo, Teroldego, Chardonnay e Tannat. Graças à colheita manual, podem selecionar os melhores cachos, acondicionados em caixas de 17 quilos e vinificados logo para preservar o frescor. Entre os destaques da vinícola estão o Gran Reserva Zilio Teroldego 2022 e o Bodegone Zilio Gran Reserva Rebo 2022, que amadurece 18 meses em carvalho francês e americano, resultando em vinho potente e com bom potencial de guarda.
Em Santa Tereza, Cristian Corbelini e Lucas Berra comandam a Berra & Corbelini em apenas dois hectares, a até 485 metros de altitude. A vinícola opera sob mínima intervenção, com fermentações espontâneas e sem correções químicas. Produzem em média 7 mil garrafas por safra, com microlotes de 300 a 600 garrafas.
A menos de 20 quilômetros dali, em Monte Belo do Sul, os primos Pedro, Lucas e Leonardo Tasca comandam a Adega Giovanni Tasca, quarta geração da família na região. Em 12 hectares, cultivam 21 variedades diferentes. Cerca de 75% da produção ainda abastece grandes vinícolas do mercado local, enquanto o restante vira vinho próprio. São quinze rótulos, focados em expressar o terroir basáltico da região.
Henrique Dal Castel, 29 anos, também carrega o vinho nas raízes, herança do avô que já cultivava suas uvas por lá, em dez hectares de Bento Gonçalves. “Fiz curso de viticultura e enologia, mas aprendi mesmo foi na prática”, diz ao NeoFeed, lembrando a passagem por Miolo, Valduga e Alma Única antes de registrar, em 2023, a vinícola que leva seu nome — hoje com produção média de 10 mil garrafas por ano.
Em meio hectare próprio, ele cultiva Cabernet Franc, Merlot, Tannat e Malbec, e complementa a variedade com parceiros de Monte Belo do Sul, Garibaldi e Encruzilhada do Sul, de quem compra Chardonnay, Riesling, Rebo, Teroldego e Marselan.
Para Henrique, o segredo de um bom vinho está no solo e no clima, não apenas no processo. “Não quero ser enólogo. Nos grandes vinhos do mundo, quem manda é a viticultura, não o enólogo. A roda já foi inventada e não quero reinventar nada, quero que meus vinhos expressem o terroir”, provoca. Por isso trabalha com uvas colhidas no auge da maturação, em lotes pequenos de cerca de 300 litros, produzindo de 4 a 5 mil garrafas por ano.
Um dos seus queridinhos é o Merlot safra 2022, que tem notas mentoladas. “Ah… desses eu vou guardar algumas garrafas para abrir daqui a oito anos: ele vai estar em nível mundial, mas com identidade própria”, comemora. “Tenho de me desapegar dos meus rótulos, eu sei. Mas, quando a gente trabalhou a terra, viu a brotação da uva e fez a rotulagem, é difícil. Confesso que tenho um pouco de ciúme.”
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Fonte ==> NEOFEED