A imperícia política de Elon Musk – 27/04/2026 – Ross Douthat

Homem de cabelos castanhos escuros, com expressão pensativa, mãos unidas próximas ao rosto, fundo azul desfocado.

A movimentação desta semana no Senado resultou em um revés previsível para o Save America Act, um projeto de lei que imporia exigências de identificação para registro eleitoral nos EUA. Os conservadores esperavam usar o projeto para testar a obstrução parlamentar, mas a votação mais recente confirmou o que já estava claro há algum tempo: não há nem sequer 50 votos republicanos para a aprovação.

Por que, então, o projeto atraiu tanta atenção? Em parte porque é uma prioridade conhecida dos ativistas conservadores, e em parte por causa da ânsia de Donald Trump em sugerir que as eleições americanas não são totalmente limpas.

Mas a proeminência do projeto também deve muito a Elon Musk. Após o desmonte de seu Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) e seu breve flerte com uma terceira via, o Save America Act se tornou a prioridade política mais notável do bilionário, pelo menos a julgar pela atenção que ele dedicou ao tema nas redes sociais.

E assim como o fracasso do Doge em causar um impacto real nos gastos, o debate sobre identificação de eleitores é um estudo sobre influência desperdiçada, com o empresário mais bem-sucedido do mundo se envolvendo em política de maneira profundamente ineficaz.

Nesta fase do segundo governo Trump, o próprio Trump é o principal culpado por seus problemas crescentes. Mas quando a história do Trump 2.0 for escrita, a imperícia política de Musk terá grande destaque —porque, no início do governo, nenhuma figura do círculo íntimo estava tão bem posicionada para desempenhar um papel transformador.

Diferentemente de grande parte do elenco do segundo mandato, Musk não era uma criatura da influência de Trump: ele tinha sua própria fama, base de poder e financiamento.

A rede social anteriormente conhecida como Twitter lhe dava uma influência única sobre a conversa nacional. Sua adesão ao movimento anti-woke lhe conferia credibilidade na base conservadora que a maioria dos republicanos ricos não desfruta.

Essa alavancagem parecia poder ser exercida no território que Musk conhecia melhor: viagens espaciais, política de tecnologia, excesso de regulamentação e seus descontentamentos. (Podia-se até esperar que seu compromisso pessoal incomum com o pronatalismo rendesse algum tipo de interesse político também.) E sua devoção ao dinamismo parecia um potencial contrapeso à mentalidade de soma zero de Trump em relação a tarifas e guerras comerciais.

Não quero dizer que Musk não teve nenhuma influência nessas áreas. O fato de um associado da SpaceX estar comandando a Nasa, por exemplo, parece ser o que um otimista poderia ter esperado.

Mas Musk certamente não moderou a guerra comercial trumpista; esse papel foi desempenhado principalmente pelo mercado de títulos. E minha esperança pessoal de que ele tivesse se envolvido em política como um degrau na escada para colonizar Marte deu lugar à percepção de que ele queria se envolver em política para pressionar fortemente por algumas das ideias menos plausíveis do conservadorismo.

A primeira dessas ideias era a noção de que existe algum imenso volume de gastos discricionários —em ajuda externa, desperdício e fraude, concessão de verbas ideológicas— que pode ser podado sem que o público se importe, gerando grandes economias fiscais.

Essa convicção impulsionou o hype do Doge e seu fracasso final, no qual a equipe de Musk repetidamente cortou mais fundo do que apenas a camada de gastos que poderia razoavelmente ser chamada de “woke”, mas ainda assim não alcançou nada significativo no quadro orçamentário mais amplo.

Este não foi um resultado inesperado, e foi estranho assistir um homem das capacidades de Musk queimar capital político e a energia de seus aprendizes apenas para descobrir que o dinheiro de verdade está nos grandes programas de benefícios populares que não podem ser cortados por decreto presidencial.

Então, em outra chave, Musk decidiu fazer isso de novo com o Save America Act, abraçando (e promovendo, com uma forte dose de paranoia) a narrativa de que as eleições são fraudadas contra os republicanos porque um vasto número de não cidadãos está votando ilegalmente.

Temos anos de investigações por governos republicanos e anos de evidências de leis de identificação de eleitores indicando que esse não é o caso. Há razões sólidas para pensar que exigências de identificação não têm os efeitos dramáticos de supressão de votos alegados por críticos de esquerda.

Mas também não têm os efeitos de proteção eleitoral prometidos por seus defensores conservadores. Fraude eleitoral simplesmente não é uma razão importante pela qual os republicanos perdem eleições. (Além disso, agora que a coalizão republicana inclui mais eleitores de baixa propensão ao voto e de menor renda, qualquer efeito das exigências de identificação pode na verdade prejudicar o comparecimento conservador.)

Em defesa de Musk, pode-se notar que disposições sobre identificação de eleitores frequentemente têm boa aceitação nas pesquisas, e o Doge estava longe de ser a coisa menos popular que o governo Trump abraçou.

Mas o problema em ambos os casos não é impopularidade em si, mas simples desperdício —de tempo, atenção, esforço, oportunidades. De todas as causas para apoiar, Musk escolheu duas que estavam distantes de suas competências centrais, desconectadas de suas ambições mais admiráveis e desvinculadas dos desafios sérios que o país enfrenta.

Muitos dos críticos de Musk esperavam que seu envolvimento com o governo Trump fosse definido por interesse próprio e favorecimento pessoal. O fracasso foi outro: ele se jogou em causas não relacionadas ao seu império empresarial, e o país provavelmente estaria melhor se ele tivesse apenas desempenhado o papel de magnata.



Fonte ==> Folha SP

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