A etapa final da obra-prima de Gaudí: a Sagrada Família chega ao topo e vira a maior igreja do mundo

A etapa final da obra-prima de Gaudí: a Sagrada Família chega ao topo e vira a maior igreja do mundo

Barcelona – Arquiteto à frente de seu tempo, o espanhol Antoni Gaudí queria diminuir a distância entre o céu e a terra. E, em 1883, projetou a Basílica da Sagrada Família, um símbolo de arquitetura e fé no coração de Barcelona. Só que ele não viu sua obra pronta. Morreu antes disso.

E, agora em 2026, 143 anos depois – e exatamente um século após sua morte, em 1926 -, o seu projeto terá um ponto final. Em 20 de fevereiro, foi instalado o braço superior da cruz no topo da Torre de Jesus Cristo, o elemento mais alto da igreja.

A peça tridimensional, de 17 metros, é composta por vidro e cerâmica, completa o conjunto de seis torres centrais da Sagrada Família. A cruz, construída na Alemanha, chegou em módulos e foi montada em uma plataforma para, depois, ser içada. Ela foi projetada para brilhar à noite, como uma espécie de farol sobre a cidade catalã.

Agora, os andaimes, que ainda estão por lá, serão removidos gradualmente, até o dia da entrega oficial. Em 10 de junho, dia do aniversário de 100 anos da morte de Gaudí, o papa Leão XIV fará uma bênção e irá celebrar uma missa na igreja.

Com a conclusão da última peça da Torre de Jesus, a Sagrada Família atingiu a marca de 172,5 metros, o que a coloca como a igreja católica mais alta do mundo, superando a Catedral de Ulm, na Alemanha, com 161,5 metros.

Gaudí queria expressar a grandiosidade de sua obra, e que ela fosse vista, e contemplada, mesmo por quem estivesse bem distante. Mas ele tinha um limite. Uma espécie de respeito e um sinal de humildade.

Em seu projeto, o arquiteto não queria que sua obra ultrapasse a colina da montanha de Montjuic, com 177 metros de altura. Em sua concepção, uma construção humana não deveria ultrapassar uma obra de Deus.

Por quatro décadas, Gaudí acompanhou bem de perto o avanço de sua criação arquitetônica. Mas foi justamente quando ia em direção de sua obra mais impactante que ele morreu.

Em 7 de junho de 1926, aos 73 anos, Gaudí foi atropelado por um bonde enquanto atravessava a Gran Via de les Corts Catalanes, uma das avenidas mais importantes de Barcelona. Três dias depois, ele morreu. Foi sepultado na cripta da própria Sagrada Família.

O NeoFeed esteve em Barcelona em março, semanas após a instalação da torre, e o volume de turistas que transita pelo entorno da obra impressiona. Apesar de grandiosa, a Sagrada Família está cercada de construções ao lado, em uma praça no bairro de Eixample, que em catalão significa “expansão”.

É difícil fugir do impacto inicial, quando se chega nos arredores da basílica, seja de carro ou pela forma mais fácil, que é de metrô. Aliás, a estação, que leva o nome da obra, está localizada bem frente à igreja. Para muita gente, é a saída de metrô mais bonita do mundo.

A fila é imensa para simplesmente chegar até a bilheteria. É comum ver um amontoado de gente com o pescoço para cima. Lá, as selfies são direcionadas para o céu. Não é uma tarefa fácil se enquadrar e ainda conseguir mostrar o topo da igreja. Registrar pelos próprios olhos é melhor.

“Pai Nosso” em 50 idiomas

Patrimônio mundial da Unesco, a Sagrada Família é uma igreja diferente, com uma atmosfera de museu. Mas é uma igreja. E lá dentro estão todos os componentes da “casa de Deus”. No altar, um crucifixo, suspenso, representa justamente o sacrifício de Cristo.

No interior da igreja, é possível ouvir vários idiomas, muita gente com fones de ouvido para acompanhar as explicações de guias turísticos, com visitas guiadas. Mas há um silêncio respeitoso. O interior é sustentado por colunas que lembram troncos de árvores, para dar um ambiente de floresta.

Na parte final da nave, há um imenso painel, na chamada Fachada da Glória, com portas de bronze que traz a oração Pai Nosso em 50 idiomas. A versão brasileira está lá, com a frase “pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

Além da sua fé e espiritualidade presentes em sua obra, Gaudí tinha enorme respeito pela natureza, que, para ele, era uma espécie de presente de Deus à humanidade. Há detalhes da obra que representam esta conexão, como uma tartaruga projetada em uma das bases da igreja.

Para Gaudí, “a luz do Sol era a melhor pintor” (Foto: Sérgio Vieira)

Os andaimes serão removidos até o dia da entrega oficial, em 10 de junho, quando a morte de Gaudi completa 100 anos ,(Foto: Sérgio Vieira)

No dia 20 de fevereiro, foi instalado o braço superior da cruz no topo da Torre de Jesus Cristo, o elemento mais alto da basílica (Foto: Vatican News)

A cruz, foi construída na Alemanha (Foto: Vatican News)

No altar, um crucifixo, suspenso, representa justamente o sacrifício de Cristo (Foto: Sérgio Vieira)

Na parte final da nave, um imenso painel de bronze que traz a oração “Pai Nosso” em 50 idiomas (Foto: Sérgio Vieira)

Do lado oeste da igreja, na “Fachada da Paixão”, os vitrais são em tons de amarelo, laranja e vermelho para representar o poente (Foto: Sérgio Vieira)

Os vitrais em tons de azul e verde ficam na fachada leste, simbolizando o nascimento (Foto: Sérgio Vieira)

Quase 5 milhões de turistas visitaram a igreja no ano passado (Foto: Sérgio Vieira)

Gaudí queria que a basílica fosse contemplada mesmo por quem estivesse bem distante (Foto: Sérgio Vieira)

A própria iluminação interior da igreja traz esse conceito. Para Gaudí, “a luz do Sol era o melhor pintor”. E ele aplicou esta tese. Na Sagrada Família, o arquiteto projetou enormes vitrais, que levam nomes de santos para receber esses raios — Nossa Senhora Aparecida está lá.

Os tons de azul e verde predominam do lado leste, no nascente, na Fachada da Natividade, simbolizando o nascimento, enquanto do lado oeste, no poente, na Fachada da Paixão, estão presentes os tons de amarelo, laranja e vermelho.

A mistura das cores cria um ambiente impressionante no interior da igreja. Isso faz com que o horário do pôr-do-sol seja o de maior procura pelos turistas. As fotos ficam impressionantes.

O projeto foi executado por Joan Vila-Grau, que utilizou uma técnica de vitral com chumbo, que une diferentes peças de vidro com uma estrutura de metal.

Os números de quem visita este cartão-postal são superlativos. Segundo relatório divulgado pela fundação responsável pela basílica, 4,8 milhões de turistas visitaram a igreja no ano passado.

O volume equivale a praticamente a metade do total de turistas estrangeiros que visitaram o Brasil em 2025, que alcançou 9,3 milhões. O número de quem passou pela basílica é superior aos que visitaram, por exemplo, o Peru (4,2 milhões) ou o Uruguai (3,6 milhões).

Comparando com um ícone turístico e religioso brasileiro, a Sagrada Família recebeu em 2025 mais de três vezes a quantidade de visitantes que subiram o Corcovado para conhecer de perto o monumento do Cristo Redentor. Foram 1,5 milhão de turistas no alto do morro do Parque Nacional da Tijuca, com vista para a Guanabara.

Os ingressos para entrar na Sagrada Família custam a partir de € 26, para entrada básica com audioguia. A visita guiada sai por € 30. Com acesso às torres, fica em € 36. No ano passado, foram arrecadados € 134,5 milhões.

O “arquiteto de Deus”

Para Patricia Sarquis Herden, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), a conclusão da Sagrada Família representa “a visão de viver” de Gaudí e traz a visibilidade da obra dele, principalmente para os profissionais mais jovens.

“Ele projetava com o coração. E toda obra dele tem um quê de sagrado. Isso vai além das gerações. Gaudí influenciou e influencia os arquitetos no mundo, inclusive no Brasil”, diz a arquiteta, em entrevista ao NeoFeed.

Coordenadora da câmara temática de patrimônio da CAU/BR, Graciete Costa afirma que o Brasil se espelhou na arquitetura de Gaudí. “Essa torre é a coroação de todo o trabalho de Gaudí. Ele influenciou a arquitetura brasileira no estilo moderno. Muitos nomes beberam na fonte dele, como o próprio Oscar Niemeyer”, afirma.

Também em junho, Barcelona vai sediar o encontro mundial de arquitetos, com a presença de profissionais brasileiros, como uma espécie de homenagem à Gaudí.

Maior nome do modernismo catalão e uma das principais referências da arquitetura mundial, Gaudí assina outras obras marcantes e importantes para o turismo e para a arquitetura de Barcelona. Entre elas, a Casa Batlló e o parque Güell, também cartões-postais importantes da cidade, e que traz a mesma marca do arquiteto.

Conhecido como “o arquiteto de Deus”, justamente pela sua relação com a espiritualidade, extremamente presente em suas obras, Gaudí caminha para se tornar santo. Em 14 de abril de 2025, ele foi considerado venerável pelo Papa Francisco, reconhecido por suas “virtudes heróicas”.

Para se tornar beato, é preciso agora a comprovação de um milagre. E, para virar santo, precisam ser dois. Na arquitetura, o “milagre” de Gaudí já está amplamente comprovado.



Fonte ==> NEOFEED

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