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O NeoFeed obteve a escritura pública de 19 de abril de 1978, que formaliza a venda da Granja Comary, em Teresópolis, à antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) pela família Guinle.
O terreno de 53,9 mil m² foi vendido por 20 milhões de cruzeiros, equivalente a cerca de R$ 29 milhões hoje. A negociação envolveu 24 herdeiros da família, que teve grande influência na infraestrutura do Rio de Janeiro. A escritura também marca a transição da CBD para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1979.
O projeto Memórias Notariais busca resgatar a história dos clubes brasileiros, revelando a origem de estádios como o Morumbi e o Allianz Parque. A CNB planeja expandir essa pesquisa para outros estados, incluindo o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, onde já identificou registros como o de São Januário. Uma cópia da escritura da Granja Comary será entregue à CBF para o Museu Seleção Brasileira.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Enquanto a Seleção Brasileira projeta seu futuro rumo à Copa do Mundo de 2026, uma viagem ao passado revela que o “primeiro chute” dado em direção à modernização do futebol nacional aconteceu em um cartório no centro do Rio de Janeiro.
O NeoFeed teve acesso à escritura pública, lavrada em 19 de abril de 1978, que registra o momento em que a Granja Comary, em Teresópolis, deixou de ser um loteamento da elite carioca para se tornar o berço do sonho do hexacampeonato.
O documento, resgatado pelo projeto Colégio Notarial do Brasil (CNB), detalha a venda de uma área de 53,9 mil metros quadrados (m²) por 20 milhões de cruzeiros, pagos pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) à família Guinle. A valor presente, seriam, aproximadamente, R$ 29 milhões.
“Muitas vezes são famílias tradicionais que acabam vendendo essas áreas”, afirma Andrey Guimarães Duarte, vice-presidente do CNB de São Paulo. “E não é raro existir, também, um componente de paixão nesses negócios.”
A negociação de venda do terreno foi complexa. A área, localizada no bairro Carlos Guinle, pertencia ao condomínio de herdeiros dos Guinle, que construíram uma das maiores fortunas do País entre o final do século XIX e o início do século XX.
O grupo criado pela família de origem francesa teve forte atuação em infraestrutura portuária e investimentos urbanos, além de participar da construção e gestão de empreendimentos emblemáticos do Rio de Janeiro.
Ao todo, a escritura envolveu 24 herdeiros da família que construiu o Copacabana Palace, cada um cedendo sua fração do terreno para que a Seleção tivesse um centro de treinamento.
A escritura da Granja Comary também flagra um momento de transição institucional. O comprador do terreno foi o Almirante Heleno de Barros Nunes, então presidente da CBD.
Apenas um ano depois, em 1979, a entidade seria extinta para dar lugar à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que herdou o patrimônio na serra fluminense.
Antes desse terreno, a preparação da Seleção era itinerante, dependendo de favores de clubes ou estadias em hotéis. Hoje, o complexo ocupa 150 mil m².
Mapa do tesouro da bola
A descoberta da Granja Comary é parte de um garimpo maior que pretende “devolver” aos clubes brasileiros suas próprias identidades. Muitas vezes, nem as próprias instituições possuem esses registros originais.
Duarte é um dos idealizadores do projeto chamado Memórias Notariais, que busca transformar a burocracia em memória. E contar a história de formação da arquitetura urbana.
Até aqui, os documentos garimpados pelo CNB revelam, por exemplo, que o terreno do estádio do Morumbi foi adquirido da família Matarazzo e da família Saad. O São Paulo FC comprou metade da área, enquanto a outra parte foi doada por uma incorporadora ligada a Ademar de Barros em um plano de desenvolvimento urbano para a região.
Mais conhecida, a história do estádio da SE Palmeiras mostra que o então Palestra Itália adquiriu o terreno diretamente da Companhia Antártica, o que deu origem ao nome histórico do estádio Parque Antártica, hoje, Allianz Parque.
Na Vila Belmiro, estádio do Santos, o registro de 1915 impressiona pela estética, escrito à mão com uma caligrafia impecável da época.
Embora esse trabalho de arqueologia nos documentos dos cartórios tenha nascido nos arquivos paulistas, o projeto busca expandir suas fronteiras para mapear a “certidão de nascimento” dos grandes palcos do futebol nacional.
Após resgatar a origem dos grandes clubes de São Paulo, a investigação cruzou divisas para documentar a história em outros estados. No Paraná, a equipe já obteve sucesso ao localizar as escrituras dos dois maiores clubes do estado — o Coritiba e o Athlético.
A busca agora se concentra no Rio Grande do Sul, onde pesquisadores trabalham para recuperar os registros históricos de Grêmio e Internacional.
Já no Rio de Janeiro, o desafio tem sido maior: como o Maracanã é um bem público, não possui uma escritura de venda convencional, o que levou os pesquisadores a focarem em sedes históricas e centros de treinamento. Além da Granja Comary, o projeto identificou o registro de São Januário, o estádio do Vasco da Gama.
“O Brasil pode ter muitas histórias, mas quando aparece um estádio de futebol, todo mundo quer ver”, diz o vice-presidente do CNB/SP. “Percebemos que existe uma história gigantesca guardada nos cartórios. Boa parte da história do Brasil passa por eles.”
A partir da próxima semana, em meio à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026, a CNB vai entregar uma cópia do documento para a CBF completar a história do futebol brasileiro e deixá-la à disposição no Museu Seleção Brasileira.
Fonte ==> NEOFEED