Artefatos paleolíticos podem ter rudimento de ‘escrita’ – 07/03/2026 – Reinaldo José Lopes

Artefatos paleolíticos podem ter rudimento de 'escrita' - 07/03/2026 - Reinaldo José Lopes

Jamais deixo de ficar embasbacado com o fato de que aquilo que nos acostumamos a chamar de “história” —a fase da trajetória humana em que os nomes de pessoas e lugares e alguns fatos do passado foram preservados por escrito— não passa de uma casquinha finíssima.

Arredondando, faz uns 5.000 anos que algumas sociedades começaram a escrever, mas a explosão artística e cultural conhecida como Paleolítico Superior tomou conta das cavernas europeias há 40 mil anos —quase dez vezes mais tempo. Será mesmo que nada parecido com a ideia de escrita jamais ocorreu aos que viveram ao longo desse intervalo tão imenso?

A resposta sugerida por um estudo recente é um intrigante “talvez sim” —mas vamos com calma. As marcas analisadas pela dupla Christian Bentz e Ewa Dutkiewicz (respectivamente da Universidade de Saarland e da Universidade de Passau, ambas na Alemanha) ainda estão muito longe de qualquer forma de escrita propriamente dita, se com isso queremos dizer um tipo de notação que reproduza, em algum sentido, aspectos da fala humana.

Por outro lado, conforme mostra o artigo dos dois sobre o tema no periódico especializado PNAS, os sinais que estudaram têm semelhanças intrigantes com os passos iniciais do processo que acabaria desembocando na escrita em território mesopotâmico, no atual Iraque —provavelmente o lugar onde essa tecnologia de fato emergiu pela primeira vez.

Para chegar a essas conclusões, Bentz e Dutkiewicz tiveram o privilégio de examinar alguns dos artefatos mais interessantes da Idade da Pedra. São 260 objetos, com idades entre 43 mil anos e 34 mil anos, oriundos da região da Suábia, no sudoeste da Alemanha. As cavernas da Suábia são famosas pela descoberta das mais variadas representações de arte portátil com essa idade.

Na coleção, destacam-se as estatuetas de marfim de mamute —algumas representando o próprio paquiderme, outras com a figura humana e até um célebre ser híbrido com cabeça de leão-das-cavernas e corpo de homem. Também foram achadas flautas e contas de colar, entre outros objetos.

Ocorre que muitos desses bibelôs do Paleolítico estão parcialmente cobertos por marcas geométricas regulares, de diferentes formatos —traços retos, diagonais, outros que lembram as letras X, V e Y etc. Outros podem ter função decorativa, representando detalhes do pelo do animal esculpido, por exemplo.

A dupla de pesquisadores submeteu a sua pequena “biblioteca” desses sinais a uma análise estatística computacional, comparando-os com exemplares muito antigos de proto-escrita e escrita cuneiforme da Mesopotâmia (com idades que vão de 3500 a.C. a 3000 a.C., mais ou menos). Também os compararam com formas de escrita atuais.

A ideia era ver se o padrão de repetição e alternância de sinais seguia as regras estatísticas da escrita (na qual, por exemplo, a repetição imediata dos mesmos sinais é rara). O veredicto foi claro: as marcas paleolíticas são muito mais repetitivas e menos variadas que a escrita.

O intrigante, porém, é que o padrão delas e o dos sinais protocuneiformes é muito mais próximo. Pode ser um sinal de que elas também poderiam ter valor numérico e arquivístico, como parece ser o caso na Mesopotâmia primeva, ou talvez como calendário. Seja como for, é mais um indício de que nunca devemos imaginar que uma linha única de “evolução” ou “desenvolvimento” ininterruptos explica a nossa trajetória.


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Fonte ==> Folha SP

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